Ser bem-sucedido na profissão exige esforços e disciplina. Para alguns, exige bem mais que isso como no caso do jóquei brasileiro J. Ricardo, 49 anos, que mora há cinco anos, em Buenos Aires, na Argentina e é o segundo jóquei com mais vitórias na história do turfe, atingindo a média de mais de 11 mil e ficando atrás apenas do canadense, Russell Baze.
Ricardinho, como é conhecido, se tornou ídolos em terras estrangeiras após bater a marca de 10 mil vitórias em 2008. No ano seguinte, o jóquei enfrentou um linfoma e foi obrigado a ficar seis meses longe das pistas. Para lutar contra essa doença, Ricardinho voltou ao Brasil onde recebeu todo o tratamento necessário.
Pai de três filhos, sendo dois do primeiro casamento: Junior e Nicole e a pequena Giovana do casamento atual com Renata, o jóquei contou com o apoio da família, amigos e fãs e se surpreendeu ao ver como as pessoas torciam por ele, faziam orações e, até mesmo, mandavam ‘santinhos’ benzidos para que ele melhorasse. Após o tratamento, ele contratou um personal trainer e retomou a rotina de treinos diários com intensidade para retomar a carreira recheada de vitórias e buscar o recorde perdido neste período.
Atualmente, Ricardinho monta mais de 20 animais por dia e chega a competir em 60 corridas por semana. Tudo em busca do recorde mundial. “Pretendo seguir correndo até quando me sentir bem, até quando achar que estou em condições de correr”, afirmou.
Nesta entrevista, Ricardinho fala sobre a profissão, a diferença do turfe argentino para o brasileiro, como superou o linfoma em 2009 e os planos para retomar o recorde de mais vitórias no esporte.
Como foi o início de sua carreira?
Comecei a montar aos 10 anos de idade junto com meu pai Antonio Ricardo que também era jóquei. Tudo que aprendi na minha carreira foi com ele e, por este motivo, ele é o meu grande ídolo. Aos 14 anos, ingressei na escola de aprendizes e aos 15, comecei a correr profissionalmente, como jóquei, no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, onde venci minha primeira corrida no lombo do cavalo Taim.
Qual a maior dificuldade que enfrentou no início?
No começo sempre tem dificuldades, pois é preciso que as pessoas confiem em você e saibam que você reúne condições para fazer as coisas direito. Como meu pai era conhecido como jóquei, de certa forma, isso abriu um pouco as portas para mim, mas mesmo assim, precisei trabalhar duro e ser muito dedicado até conseguir alcançar bons resultados.
Qual o apoio que recebeu de seu pai para seguir a carreira de jóquei?
Ele me ajudou a entrar na carreira de jóquei. Ser filho de um jóquei importante faz com que as pessoas esperem e cobrem mais de você e não dá para decepcioná-las. Tudo isso fez com que me dedicasse mais, trabalhasse e buscasse muito mais. Além do trabalho duro também tive sorte e as pessoas foram confiando em mim. Foi difícil, mas ao mesmo tempo positivo.
Como faz para estar sempre em forma?
Tenho 1,62 metros e peso 54 quilos. Para manter a forma, faço ginástica, me exercito e procuro manter uma dieta bem rigorosa. Quando necessito faço sauna para perder mais líquido do corpo, mas o segredo é muita malhação e dieta.
Como é sua rotina atual?
A minha rotina é a mesma desde que me mudei para a Argentina. Trabalho duro de segunda à sexta-feira e aos sábados e domingos pego mais leve. Chego a montar até 20 animais por dia e a correr mais de 60 provas na semana. Saio de casa antes do sol nascer e chego lá pelas dez horas da noite. É uma rotina bem puxada.
Como faz para conciliar a carreira com a família?
Não é fácil, pois tenho uma rotina de treinamento puxada e meus filhos mais velhos moram no Brasil. No entanto, a família é importante e meus filhos e minha mulher Renata acabam sendo fortes para aguentar a vida que escolhi. Todas as vezes que posso, ficou junto deles.
Por que resolveu morar e competir fora do Brasil?
No Brasil, o turfe encontra uma dificuldade para se manter. Tive uma proposta muito boa para vir para a Argentina, de um haras que tem uma grande quantidade de cavalos. O turfe aqui é muito forte e venho tentando me consagrar recordista mundial. Existem muitas competições e vi que a possibilidade de alcançar esse meu objetivo mais rápido seria aqui. Em 2008, conquistei o recorde mundial, mas devido a um problema de saúde perdi o primeiro lugar, mas sigo lutando.
Você é mais valorizado na Argentina?
Não é uma questão de ser mais valorizado na Argentina. Tudo o que eu conquistei foi no Brasil. Sou uma pessoa grata ao meu país, ao turfe, mas acontece que na Argentina as pessoas são apaixonadas pelo turfe, dão mais visão e apoio ao esporte. Os jóqueis são mais reconhecidos, apesar de eu ser muito reconhecido no Brasil.
Como é ser ídolo na Argentina?
É bom. Fico muito feliz por isso, pois vim para um país que não é minha terra natal e onde todos me conhecem e respeitam. Fico feliz ao ver que estou alcançando meus objetivos.
Como se sente quando vence uma corrida?
É uma sensação muito boa. Quando estou correndo, a adrenalina é muito forte e você só pensa em ganhar. Cada vitória é uma emoção diferente, uma história diferente. Penso muito na vitória. Às vezes, dedica à família, ao cavalo, ao dono do cavalo, isso é muito relativo.
De todos os cavalos que montou, qual te marcou mais?
O melhor cavalo que montei até hoje foi o Much Better, pois foi quem me ajudou a ser reconhecido internacionalmente. Em 1994, ganhei todas as provas Sulamericanas na Argentina, Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro. Corremos pelo prêmio mais importante na França que era o Arco do Triunfo. Ele foi um cavalo que me marcou muito.
Você acredita que o turfe brasileiro será igual ao argentino?
Torço para que sim. Gostaria que o turfe no Brasil fosse mais valorizado e pudesse alcançar o seu lugar dentro do esporte, mesmo porque hoje ele emprega muitas pessoas e é uma indústria muito forte.
O que precisa ser feito para que isso aconteça efetivamente?
Acredito que o governo deve ajudar e apoiar a prática do turfe. Na Argentina, o governo dá uma ajuda mensal e, é por isso, que o esporte é forte. Deve existir mais publicidade sobre o assunto para que as pessoas possam ver o real sentido do esporte. Que é um esporte bonito, que tem sua grandeza e qualquer pessoa pode ir ao jóquei assistir com a sua família. O que acontece muito no Brasil é que quando há algo ruim dentro do turfe todos os noticiários divulgam. Quando acontece uma coisa boa ninguém fala a respeito. Isso deveria ser trabalhado mais para que as pessoas saibam que o turfe é um esporte como os outros, que qualquer um poder participar. Por ser um esporte que depende do jogo muita gente acha que é uma armação, que manipula o resultado e é isso que é divulgado. O turfe é um esporte como os outros, onde todos querem ganhar.
Você se considera um craque no turfe?
Me considero uma pessoa comum, normal, que talvez tenha tido um pouco mais de sorte, por ter me empenhado mais, por ter trabalhado mais. Mas, nunca me achei, nem vou me achar. É preciso fazer o que sempre fiz, ter empenho, trabalhar duro, ter sorte na vida, estar no lugar e na hora certa.
Você já teve algum acidente grave nas corridas?
Monto há 34 anos e tive várias quedas. Já fraturei a clavícula, úmero, perna, braço, costela, omoplata, entre outros. Mas nunca precisei ficar muito tempo afastado. O máximo que estive longe foram três meses. Em 2009, tive um linfoma, o que me levou a ficar seis meses longe das pistas, mas não teve nada a ver com o turfe. Tive que me tratar e hoje estou bem e correndo.
Você enfrentou um linfoma. Como superou essa fase?
Não foi fácil. Na verdade, trabalho desde os 10 anos de idade e de repente estou com essa doença séria. Foi uma surpresa. Tive que ficar fora da profissão e longe de tudo que estava acostumado. Senti muito, mas depois acabei me acostumando. Tive de ter força para superar uma coisa dessas e não me deixar abater e depois vi que o que estava ao meu alcance era ficar curado para poder voltar o mais breve possível.
Como fez para ficar em forma e voltar a competir após derrotar o linfoma?
No final do meu tratamento, voltei aos exercícios, mas nada muito forte. Contratei um personal trainer na Argentina e fui encontrando a forma ideal para voltar. Me tratei no Brasil durante seis meses.
Qual foi a importância do apoio dos seus fãs na sua recuperação?
É muito importante você encontrar o apoio nas pessoas e saber que tantas delas torcem por você, para a sua cura. Foi uma grande surpresa, pois, não me sentia e não sabia que era tão querido. As pessoas mandavam mensagem, faziam orações, mandavam santinhos e água benta. Isso tudo foi muito gratificante, me deu uma força interior muito importante.
Tem intenção de voltar a morar no Brasil?
Não neste momento. Estou bem e feliz na Argentina. Talvez mais pra frente volte ao Brasil para morar.
Do que mais sente falta do Brasil?
Sinto falta de tudo um pouco, família, amigos, filhos. Sinto falta da forma que se vive no Brasil e do país em si. Também sinto falta da comida. Vivi 40 e poucos anos aí e é impossível não sentir falta de certas coisas.
Quais os títulos mais importantes que conquistou no Brasil?
Ganhei praticamente todas as principais provas do turfe brasileiro. O GP Brasil, GP São Paulo, GP Latino Americano, enfim, todos os Grandes Prêmios do calendário brasileiro.
E no exterior?
Ganhei o GP Carlos Pelegrini e o GP Latinoamericano, na Argentina e GP Pedro Ramirez, no Uruguai.
Se fala muito no relacionamento cavalo e cavaleiro. Como você estabelece essa relação com os animais já que monta vários por dia?
Essa relação pode existir. Mas, no caso dos jóqueis é mais difícil porque temos um contato muito curto. Montamos um de manhã, outro a tarde e assim vai. Com Much Better, pude vivenciar esse tipo de relacionamento. Acredito que seja mais fácil um cavalo ter afinidade com o cavalariço que cuida dele diariamente do que com o jóquei, por questão de tempo e proximidade.
Existe muita deslealdade entre os jóqueis?
Existe uma rivalidade entre os jóqueis. Hoje, o turfe é muito monitorado. Existe uma rivalidade grande entre nós e todos queremos ganhar e sermos os melhores, mas é uma competição saudável.
Quando pretende se aposentar?
Pretendo seguir correndo até quando me sentir bem, até quando achar que estou em condições de correr. Tenho mais de 11 mil vitórias e o jóquei que está a minha frente tem 120 vitórias a mais. Estou correndo atrás desse recorde mundial.
Quais são seus planos para o futuro?
No momento só penso em seguir correndo, mas daqui para frente ainda não sei. Algo ligado ao turfe, mas sigo para o futuro apenas pensando em correr. Quem sabe quando estiver mais perto de me aposentar eu tenha outra ideia.