10-Abr-2017 16:46

O mestre - o aluno precisa compreender e estar consciente da sua atitude psicológica

Para que o aprendizado tenha consistência, o aluno precisa compreender e estar consciente da sua atitude psicológica diante das situações que vão se apresentando ao longo do seu trabalho

 

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Mestre é diferente de professor. Mestre é aquele que a gente segue, incondicionalmente, mesmo quando, em um determinado momento, não conseguimos compreender aquilo que ele nos pede para fazer. Mas fazemos por saber que aquilo tem um propósito, que mais tarde nos fará sentido. Sempre gostei de ter mestres. No meu entender, quando estudamos um grande Mestre, não quer dizer que temos que usar as suas ideias como um fim em si. Na verdade, elas são um meio para novas descobertas. Elas abrem as nossas perspectivas. A partir delas vamos elaborar e desenvolver a nossa própria maneira de abordar o nosso assunto que no caso é o cavalo.

O fato é que a questão fundamental do aprendizado está nas perguntas e não nas respostas como vejo acontecer em um grande número de clínicas e cursos que se propagam pelo Brasil a fora. Nessas ocasiões, assisto um grande número de pessoas "DERRAMANDO O NADA NO VAZIO", isto é, praticando uma troca de informações inúteis sem nenhum sentido prático.

Para que o aprendizado tenha consistência, o aluno precisa compreender e estar consciente da sua atitude psicológica diante das situações que vão se apresentando ao longo do seu trabalho, seja ele com cavalo ou qualquer outro assunto.

Não me canso de enfatizar que a ferramenta mais importante do domador, treinador ou do vaqueiro é o seu próprio corpo. Como domadores, treinadores ou vaqueiros, temos que saber exatamente onde o nosso corpo está e o que ele está fazendo. Cada movimento precisa ser escolhido, não pode ser acidental. Por isso, quando digo consciente da sua atitude, estou querendo dizer que ele precisa perceber as ligações entre, o seu corpo o seus pensamentos e as suas emoções. É essa consciência que vai lhe dar a oportunidade de perceber como os animais estão recebendo as informações que ele está trazendo.

Ser capaz de pensar do ponto de vista dos animais e estar consciente de como o seu corpo se movimenta tanto a pé como a cavalo, percebendo o que é importante e o que não é importante para que esses animais possam confiar nele, é crucial. E, principalmente, saber controlar suas emoções, percebendo que perder o controle emocional, significa jogar fora tudo que acabou de conquistar.

O Programa de Educação Continuada foi criado justamente para criar situações onde essa consciência pudesse vir à tona de uma maneira mais consistente e firme.

Acredito que a grande dificuldade no que diz respeito a ESTAR APRENDENDO esteja, principalmente no grau de condicionamento que vivemos atualmente. A nossa vontade não é real, concreta. Podemos perceber que muitas vezes queremos nos dedicar a alguma coisa, mas não o fazemos por bloqueios que não percebemos de onde veem.

É muito mais fácil acreditar que esses bloqueios estejam no pensamento, mas na verdade eles estão nas nossas emoções. São elas que estão condicionadas. São elas que nos impedem de abordar o cavalo de uma maneira nova. As emoções são muito mais rápida do que os pensamentos.

Por exemplo, quando estamos tentando fazer um determinado exercício com o nosso cavalo e percebemos que todo o processo fica enroscado e o movimento não acontece e repetimos aquele procedimento mais algumas vezes e não saímos do enrosco. Imediatamente, uma emoção negativa se apodera de nós. Numa fração de segundo, acreditamos que aquele cavalo está teimoso demais e não demora muito para entrarmos numa briga. Ela não permite que o nosso pensamento faça escolhas. Imediatamente acreditamos que o cavalo está teimando e não nos resta outra coisa a fazer senão puni-lo através da coerção, intimidação etc... Talvez o que não percebamos naquele momento é que é impossível alguém confiar em alguém através do medo e da coerção. Mas se conseguirmos através da “atenção sobre si” perceber isso acontecendo, já estamos com meio caminho andado. 

É muito difícil para nós seres humanos acreditarmos que o cavalo não está fazendo o que queremos por ele não entendeu, está confuso ou ainda não aprendeu. Para acreditarmos nesse conceito temos que ter uma bagagem muito maior a respeito do nosso entendimento da sua psicologia e principalmente de como eles se movimentam. Percebê-los tentando, não é uma tarefa tão simples como pode parecer.

Cada dia fica mais claro que a maior dificuldade do aprendizado, está em não conseguir compreender que esses animais são seres vivos, que sentem, pensam, decidem e têm capacidade enorme de aprender e compreender o que é esperado deles.

Percebo que o nosso pensamento baseia-se em coisas e só trabalha quando estamos, de fato, lidando com coisas. Elas não têm um caráter intrínseco, não tem nenhuma essência, nenhum sentimento, nenhuma natureza própria. Coisas podem ser manipuladas por ferramentas para fins restritos.

Pensar nesse sentido é absolutamente não fazer sentido nenhum aos animais. Eles não são coisa. Perdendo o  contato com a sua natureza, nunca vamos conseguir fazer contato real e verdadeiro com eles.

Quando entramos em contato com as ideias de Tom Dorrance e seus alunos, nos deparamos com dificuldades de compreensão. Mas, na verdade, elas são muito mais simples do que podem parecer. O que as pessoas não percebem é que elas precisam ser compreendidas à luz da experiência de cada um de nós. Elas precisam sair do discurso e ir para a prática.

Quando falamos Horsemanship Natural será que conseguimos ver o mundo do cavalo como se fossemos ele, será que conseguimos usar suas ferraduras.

Esse é o verdadeiro ponto de partida. Enquanto não estivermos instalados nele, estaremos condenados a nos contentar com as ninharias e a imitar a pobreza daquilo que ele nos dá mecanicamente só para ficar livres da gente mais rápido possível.

Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: doma@doma.com.br. Site www.doma.com.br

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