08-Set-2016 10:08
Treinamento

Perdidos na Tradução

Educação Equestre & Equitação é, na verdade, um exercício de AUTO-CONHECIMENTO.

Não tenho o menor interesse em treinar um cavalo. Por que o treinamento é finito. O objetivo da minha pratica é fazer com que o cavalo seja uma extensão do meu corpo. O cavalo sou eu. Dessa maneira sou eu que fico maior, mais forte e mais ágil.

 

Apesar da possibilidade de acesso a enorme quantidade de vídeos que falam a respeito de comunicação, o uso de textos ainda tem o melhor custo-benefício.

Para nós, cavaleiros, ocorre o mesmo ou até mais, por causa da quantidade de informações que pode ser pesquisada na internet. Isso nos permite ter muito mais informação sobre a natureza do cavalo. Podemos saber sobre a maneira como operam suas vidas, como pensam, suas intenções e como podemos influenciá-las. Estudamos a sua psicologia, a mecânica para construir e executar as mais diversas manobras das múltiplas modalidades da atividade equestre contemporânea. Aprendemos como motivar os cavalos, como manipular sua energia e como dirigi-la, como se fosse um esquema de condutor e receptor.

De posse dessas técnicas, pegamos nossos cavalos e tentamos aplicá-las na prática. Mas, de repente, percebemos que todo esse arsenal de informações não é suficiente. Não conseguimos o resultado que esperávamos e nos sentimos cada vez mais perdidos e frustrados.

Existe, de fato, uma distância muito grande entre o que lemos e aprendemos com o que praticamos. É aquela história da qual já falamos aqui: na relação com os cavalos, a teoria na prática é outra.

Isso é muito evidente nos cursos que realizamos no Projeto Doma. Recebemos alunos com as mais diferentes bagagens de informação, muitas delas riquíssimas, mas logo percebemos como elas podem se transformar em frustação, na medida em que todo aquele conhecimento não consegue ajudá-los a montar melhor. Na maioria das vezes, quanto mais se sabe, mais se frustra.

E logo vem a pergunta: “Mas por que isso? A resposta é uma só: PALAVRAS. Sempre digo que é impossível ensinar uma pessoa a desenvolver “Sensibilidade, Timing & Bom Senso”, fundamentos básicos de uma boa educação equestre. O que a gente pode fazer é conscientizá-las. Sinto que preciso estar sempre polindo a minha didática, mas não me canso de dizer que sensibilidade não pode ser obtida por meio de palavras.

Os meus alunos/leitores sabem que o que mais enfatizo na questão do aprendizado de qualquer atividade equestre é ênfase na ATENÇÃO SOBRE SI. Essa é a única maneira de se desenvolver os três elementos fundamentais da Educação Equestre & Equitação.

Se observarmos com atenção, vamos perceber que quando estamos tomados por determinados sentimentos, não existem palavras. Na relação com cavalos, raiva, angústia, medo, tristeza, alegria, prazer, satisfação são formas de expressão que dizem muito mais que palavras.

É muito fácil para mim perceber quando um dos meus alunos está trabalhando com seu cavalo e aparece aquele “Ah” em sua expressão. Aquele sinal do “start” na conexão, sempre vem acompanhado de um período de absoluto silêncio.

Para isso, entretanto, precisamos aprender a sair fora do puramente RACIONAL e aprender a desenvolver a INTUIÇÃO, para que ela possa tomar conta da situação. Claro que é difícil. Mas se quisermos progredir na nossa Educação Equestre & Equitação, esse é o nosso grande desafio.

Devemos ter sempre em mente que o cavalo percebe, lê e interpreta toda a nossa movimentação. Está atento a todos os nossos gestos, o que estamos pensando e, principalmente, o nosso emocional. Por isso, a ATENÇÃO SOBRE SI é tão importante.

O primeiro passo é parar o diálogo interno. Isto é, parar de pronunciar palavras tanto externamente como no pensamento. Como treinar isso, com certeza é a pergunta do meu amigo leitor?

Montado a cavalo saímos ao passo, tentamos entrar naquele ritmo, fechamos os olhos e deixamos aquele ritmo tomar conta do nosso corpo. Depois tentamos perceber quando o anterior direito sai do chão. Fazemos o mesmo com a esquerda e depois podemos passar para as patas traseiras, onde o grau de dificuldade é maior. Progressivamente, vamos para o trote, galope e às outras manobras. Precisamos aprender a deixar a DINÂMICA DO CAVALO E SUAS SENSACÕES conduzir nossas atitudes.

Na maioria das vezes, as pessoas não percebem que é só ficando em silêncio (externo e interno) que a SENSAÇÃO vai poder ser observada. Quando percebem, distraem-se com comentários desnecessários para falar a respeito dela. Eu mesmo presencio muitas vezes essa situação. Ao comentar comigo ou com o colega ao lado, perdem o momento exato de devolvê-la ao cavalo. Quando o fazem, já estão muito atrasadas e sua montaria em outro momento.

É preciso um treinamento especial em relação a esse tipo de atenção, é uma precisão. Assim como dançar ou praticar uma determinada arte marcial. Não consigo achar uma forma melhor para descrever essa situação. Caso contrário, o cavaleiro sempre estará atrasado em relação ao seu cavalo. É por isso que saber onde estão as patas e para onde elas estão nos levando é tão importante.

Antecipar o que o cavalo vai fazer, ou pelo menos ser imediato é, na minha opinião, a maior dificuldade para nós cavaleiros.

O cavalo não traduz sensação em palavras. Eles apenas sentem. A linguagem deles é feita de sensações, é linda e verdadeira e pode ser reconhecida nas suas expressões, tanto físicas, quanto mentais e emocionais. Eles não mentem nunca. São absolutamente honestos, ao contrário do ser humano, que mente descaradamente na cara da gente, inclusive pra a gente mesmo.

Educação Equestre & Equitação é, na verdade, um exercício de AUTO-CONHECIMENTO. Quanto mais sabemos a respeito daquilo que nos afeta internamente, física, mental e emocionalmente, mais fácil vai ficando para compreendermos o que o cavalo quer nos dizer.

Por essa razão, acredito que o primeiro passo do aprendizado é motivar os meus alunos a estabelecerem uma relação saudável com seus cavalos, para que num segundo momento, tentar clarear e aprofundar essa conexão.

Só assim vamos começar a aprender a traduzir tudo o que lemos e aprendemos. Não existe bagagem de conhecimento se não praticarmos, e isso é um exercício infinito. Desenvolver sensações é um caminho longo e árduo, da mesma forma que é prazeroso. Por isso que amamos nossos cavalos!

Eduardo Borba

Eduardo Borba

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