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Resposta

Meu irmão sabe domar cavalos e gostaria de saber se há diferença na maneira de domar os burros, e como seria?

Neoli Bazzani
Sobradinho / DF
08 de Setembro de 2016 - 08:00

Quando se fala em iniciação ou escolarização de potros os conceitos essenciais do Horsemanship, como refinar a capacidade do instrutor de ler o cavalo, respeitar o tempo de resposta de cada um e saber solicitar com clareza, aliviando a pressão no exato instante da resposta correta, podem ser um bom guia para o trabalho de iniciar os “Longears” (orelhas longas), como os americanos gostam de chamar os Muares. Mas,  apenas essa direção e boa vontade não bastam. Aqui, vamos passar apenas alguns itens essenciais para que o domador tenha exito na tarefa que pode exigir o apoio de profissionais especializados, ainda que para consultas especificas conforme o trabalho avança.

Primeira coisa, lembre-se que não existem atalhos. Trace um plano com objetivos claros a alcançar e o primeiro deles é conquistar e consolidar a  confiança da mula em você. Mulas aprendem mais rapido do que um cavalo e gostam de ir direto ao ponto. Não aprendem nada por medo de pancada, elas enfrentam a dor com firmeza  e muito cuidado quando ficar irritado só porque elas querem fazer outras escolhas. Mulas aguentam dores absurdas, quietas. Vamos lá:

1. As interações com uma mula devem ser enraizadas na etologia (a Etologia é a disciplina que estuda o comportamento animal). Ou seja,  trabalhe com a natureza da mula para conseguir o que você quer. Isto significa que os seres humanos necessitam compreender a psicologia e o comportamento da mula, para praticar e obter resultados e as respostas esperadas. Isto envolveria uma  pesquisa antes de começar a doma, buscar referencias teoricas e ir para pratica com mais informação, como fazer um mapa antes pegar a estrada para um lugar onde voce nunca foi. Brad Cameron nos EUA,  é um “muleman” de respeito e a internet um bom canal para trocar ideias com ele, além do Blog do Pêga aqui no Brasil, com muita coisa boa.  Nessa fase busque compreender o que motiva as  mulas e para lhes ajudar sentir que sua ideia para o trabalho é tão boa quanto a “ideia” que ela possa ter. 

2. A mula deve ser absolvida de culpa todas as vezes, de todos os problemas ou situações que transformam-se em problemas no trabalho, cuja responsabilidade sempre é do cavaleiro/treinador resolver. Isso vale como indicação para a sua atitude e postura diante do trabalho com elas.  

3. A mula deve ser vista como um animal de sentimento, não como uma máquina e interagir com ela nesta base.  Mulas e burros tem uma massa encefálica maior que a do Cavalo, sua natureza não é a de animal de fuga, seu padrão de resposta é diferente dos cavalos. Treine o muar com o menor número possível de impasses ou conflitos.  Procure reduzir os desentendimentos ao mínimo. Aprenda as diferentes linguagens do muar, para que possa falar a língua deles.

4.  Dê ao muar mérito por sua inteligência. Mas mérito demais pode te trazer problemas tanto quanto não dar. Então, o estimulo e o cumprimento como tapinhas no pescoço bastam para fixar a resposta correta.

5. Quando precisar punir, no sentido de colocar limites, faça na medida do erro que ela cometeu. Punir não é castigar. Quando for corrigir o seu muar, NUNCA puna mais do que deve e NUNCA perca a cabeça. Você pode se aborrecer, mas não perder o controle.  Quando a punição adequada for dada, esqueça o problema e siga em frente. Quando VOCÊ cometer um erro, perdoe a si mesmo, perdoe o seu muar, siga em frente.  Tenha humildade sempre.

6. Quando acontecerem problemas de comportamento, pare, observe e descubra o por que. Investigue, será que algum equipamento está causando dor ao muar? Será que está precisando de um tempo de descanso? Precisa de uma mudança na rotina? Você é o responsável por tudo e deve descobrir o que a incomoda. Vale a pena antes de iniciar o trabalho com embocaduras proceder um exame dentário, com um especialista, de preferência em torno dos três anos de idade dela.

7. Respeite seu muar e permita que ele seja ele mesmo. Isso mesmo, permita que ele seja um muar e aja como tal. Que seja único, corajoso, tomador de iniciativas, de espírito altivo independente, vigoroso, permita que ele seja essa criatura híbrida que ele é. Alterar o comportamento é uma coisa, mas tentar mudar sua natureza é completamente diferente. Interagir com ela na base de uma confiança mutua dispensa a violência gratuita, o uso de pitos por qualquer coisa, os castigos físicos que ela vai suportar a ponto de obrigar o mau treinador a sair desse limite e passar a agir como um agressor.

Na medida em que aprendemos o idioma das mulas, como já conhecemos os sinais e a linguagem do cavalo, teríamos mais autoconfiança e mais segurança em lidar com elas. A reação violenta e defensiva da maioria dos “adestradores” de muar tem um nome: medo da mula! O famoso “vou mostrar quem manda”, quando a proposta não é a de submeter pela dor e pelo medo, até porque se for por esse caminho, ela pode ganhar. Como bem define André Luiz Ferreira Silva, árbitro e membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira dos Criadores do Jumento Pêga, “Você é capaz  de agir e aplicar o que sabe quando necessário, e rapidamente fazer uma analise da situação em cada incidente de treinamento com uma mente aberta e objetiva? Você consegue ser criativo no treinamento para que você e o seu muar se mantenham interessados? Você se sentiria mais a vontade nas suas técnicas de treinamento se você soubesse como funcionam as mentes dos híbridos?” Esse é o desafio proposto e se você se sair bem terá uma mula parceira e de confiança que vai até de defender diante de alguma ameaça, faculdade que só os muares têm, já que podem ser treinados até para defender um rebanho!

José Luiz Jorge
é proprietário do Rancho São Miguel e membro do C.H.A. - Certified Horsemanship Association e colunista da Horse

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