20-Mai-2020 13:00 - Atualizado em 20/05/2020 13:41
Horsemanship

A cultura do vaquero

Eles eram duros com seus cavalos e com o gado, mas não faziam disso um exibicionismo

horse, 2020, banners,
Horse

Doma vaquera, Projeto Doma, californianos, horsemanship, Reprodução
Para ter acesso aos artigos, acesse: www.revistahorse.com.br/assineReprodução
A Arte do Horsemanship nasceu há séculos. Muito antes que o primeiro vaqueiro californiano tivesse nascido. Arte essa que vinha de um conhecimento passado de pai para filho, de soldado para soldado.

O califórnio herdou essa arte do exército espanhol que, por sua vez, aprendeu muitos segredos que faziam parte das experiências dos homens que lutaram a cavalo na Ásia Central, no Egito, atravessaram o Norte da África, chegando na Espanha, para depois chegarem à América.

Quando pela primeira vez vi os cavalos californianos em ação, fiquei completamente encantado e percebi que aquele encantamento estava estruturado numa Cultura de raízes profundas, que foi se fragmentando no decorrer da história.

O fragmento dos califórnios começou por volta de 1700 no México e que nos garante uma proximidade por ter chegado via Península Ibérica.

Além disso, hoje consigo perceber que essa Cultura me permite fazer uma conexão direta com os ensinamentos do Zen, e das filosofias Orientais em geral, onde o discípulo precisa ter certos requisitos para que o Mestre possa trazê-lo para dentro do seu convívio.

Para se tornar um vaqueiro, um menino (de mais ou menos 12 anos) precisava não só absorver muito dessa sabedoria, mas colocá-la em prática antes de alcançar a sua ambição.

"Hoje consigo perceber que essa Cultura me permite fazer uma conexão direta com os ensinamentos do Zen, e das filosofias Orientais em geral, onde o discípulo precisa ter certos requisitos para que o Mestre possa trazê-lo para dentro do seu convívio"

Sentar-se ao pé do fogo e ouvir os ensinamentos vindo da sabedoria e das experiências dos Velhos Vaqueiros era um privilegio para poucos escolhidos.

Era sua tarefa desenvolver algumas virtudes fundamentais. Paciência estava no topo. Assim como no Zen, para os Velhos Califórnios, nada no mundo poderia ser mais importante que a Paciência, que precisava ser aprendida e praticada profundamente e consistentemente a cavalo trabalhando o gado. Paciência, com os animais, consigo próprio e, principalmente, no que diz respeito ao próprio aprendizado.

Outra virtude que os “velhos” davam muita importância era a coragem. Não a coragem de enfrentar as dificuldades que os obstáculos encontrados no dia a dia ofereciam, mas, sim, aquela usada para enfrentar a si próprio.

Um menino precisava sair sem água e sem comida por muitas horas seguidas. Existia um ditado entre os “velhos vaqueiros” que dizia: “a fome é um jogo de criança e a sede é um doce.”

Arnold Rojas, autor de vários livros que falam da história dos califórnios, diz: “Já se passaram 50 anos e me lembro como se fosse hoje. D. Jesus Lopez a cavalo do meu lado, perguntando o que que eu tinha no meu alforje. Quando lhe disse que eram alguns biscoitos e um pedaço de carne seca, para o almoço, ele me respondeu: “Nossa! Como você é fraquinho para a fome!”

Aqui já temos um outro elemento que é muito forte entre os Califórnios e o Zen, onde o jejum é uma prática que ajuda a despertar um outro tipo de consciência. É por isso que nas filosofias orientais ele é fundamental para todos aqueles que querem ser iniciados.

Outra ponte com o Zen: o aprendiz precisa considerar que tudo que o Mestre fala, inclusive as coisas que possam lhe parecer insignificantes, tem muita significância. Cedo ou tarde vai aparecer a oportunidade de se aplicar aquilo.

Humildade é um outro requisito a ser perseguido pelo aspirante. Os Mestres diziam que a vida de uma pessoa é muito curta para que ele possa aprender tudo por tentativa e erro, isto é, por experiência própria. Tinham consciência de que nem cinco, nem dez vidas eram suficientes para aprender tudo que um bom vaqueiro precisa saber. Se um menino tivesse a sorte de ser escolhido por um desses velhos Vaqueiros, seu futuro como vaqueiro estava garantido.

Os velhos tinham consciência total de que um menino estragaria uma centena de cavalos antes de aprender como domar um. Sabiam que ele poderia aprender muito mais a respeito de cavalos se ele tivesse alguém para ensiná-lo, do que deixa-lo usar cem animais aprendendo por tentativa e erro sem um professor.

Se um menino tivesse a sorte de ser escolhido e um desses velhos Vaqueiros o colocasse debaixo das suas asas, seu futuro como vaqueiro estava garantido.

Na formação do vaqueiro, tudo dependia do interesse e de como o aprendiz focava o aprendizado. Era isso que determinava o interesse ou não do Mestre. Assim como no Zen, nos Califórnios o aspirante pode até escolher um Velho Vaqueiro como Mestre, mas se não batesse o santo, ele ficaria muito pouco tempo naquele Rancho.

"Assim como no Zen, onde o principiante aprende a domar o Ego, para os califórnios, a modéstia era uma tônica"

Assim como no Zen, onde o principiante aprende a domar o Ego, para os califórnios, a modéstia era uma tônica: “Quem te ensinou isso” ou “Onde você aprendeu”. Mesmo tendo consciência do seu título, e por mais corajoso e destemido que fosse, a modéstia era sempre uma virtude cultivada entre eles.

Onde se encontrassem, o assunto eram os casos que cada um tinha para contar, de como os desafios apareciam e como conseguiram superá-los. Assim como no Zen, sabiam rir de si próprios.

Aquele que quisesse se tornar um bom vaqueiro, precisava, além de perceber que era a sua capacidade de observar, lembrar e comparar sua dedicação e foco no trabalho. Precisava, também, de muita humildade, por que desde muito cedo lhe era incutido na cabeça que, para se desenvolver, ele precisava estar perto de alguém que soubesse mais que ele. Sabia também que precisava ter sempre alguém com quem pudesse se comparar e, por último, precisava ter alguém para ensinar.

Quando se via um bom vaqueiro era muito comum dizer: “com quem será que ele aprendeu”? Ou aprendeu com Fulano ou Beltrano. Muitas vezes uma pequena dica de um colega poupava semanas de brutais tentativas e erros.

O cuidado com o cavalo, isto é, manter o cavalo saudável, tanto física, mental e emocionalmente, significava mais da metade das suas obrigações. 

Trabalhar o gado não tinha nada a ver com correrias inúteis. Portanto, não era permitido que os aspirantes desgastassem um cavalo sem necessidade.

Outra lição importante para o iniciante era compreender que um cavalo de trabalho poderia lhe ensinar muito a respeito da lida com o gado. Para tal, ele precisava acreditar que o cavalo pudesse ser seu melhor professor.

Assim como no Zen, os Califórnios são tidos como aqueles que levam mais a sério o cultivo das habilidades, tanto no que diz respeito ao Horsesemanship, quanto ao Stockmanship. Principalmente no que diz respeito às habilidades no manejo do laço.

Revista Horse
Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

Deixe seu Recado