06-Jun-2020 13:03 - Atualizado em 06/06/2020 13:31
Entrevista

A hora e a vez do DNA

Fabiano Paganini, diretor do Laboratório Equus Group, fala como a ciência pode ajudar a melhorar a performance de animais e prevenir doenças e lesões

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Fabiano PaganiniMarcelo Mastrobuono
Quando se cruzam animais bons, sempre espera-se que os filhos destes também fossem igualmente bons? 

Nem sempre é assim. O cruzamento pela caraterísticas visualmente observáveis, ou cruzamento pelo fenótipo, ignora o fato de que na genética do animal, características que o tornam um cavalo com desempenho pior, podem estar suprimidas pelas que causam um desempenho melhor, e que as primeiras venham a se manifestar quando cruzados dois animais com desempenham bom, mas que carregam estas características com desempenho ruim e que são combinadas na prole. Assim, gerando uma prole com baixo desempenho. Essas características, até então, só podiam ser observadas com exaustivos cruzamentos até que se possa compreender sua herança. Muitas vezes, só podem ser observadas quando a prole atinge a idade adulta, podendo levar a vários insucessos nos cruzamentos. 

Como o uso da ciência pode ajudar a mudar esse panorama?

A genética trouxe uma nova forma de enxergar essas características. Essa nova e moderna abordagem, também presente no Brasil, otimiza recursos como tempo e investimento de seleção. Vem se consolidando há anos em vários segmentos da pecuária, como a bovinocultura. Através de técnicas moleculares que permitem determinar o DNA dos genitores, pode-se escolher quais pais terão a melhor prole, além de outros aspectos que podem melhorar performance e, até evitar doenças;

O Brasil também utiliza esses recursos?

É incipiente no mundo dos cavalos e geralmente focadas nos processos reprodutivos. Mas já vem sendo utilizada com sucessos em outras áreas do agronegócio. Ao longo do século passado, por exemplo, o conhecimento da genética aliada a ferramentas estatísticas, possibilitou um crescimento formidável na agricultura e pecuária, principalmente na avicultura, onde as gerações entre uma prole e outra são mais curtas. A seleção pela genética, permitiu que o frango pudesse ser abatido atualmente com cerca de 40 dias de vida, contra quase 90 dias na metade do século passado. Isso acelera resultados econômicos em escala, é inevitável que a utilização dessas ferramentas cheguem a outros segmentos, principalmente se considerando as vantagens e precisão que oferecem;

Através de técnicas moleculares que permitem determinar o DNA dos genitores, pode-se escolher quais pais terão a melhor prole, além de outros aspectos que podem melhorar performance e, até evitar doenças;

 

A alimentação, suplementação e farmacogenética também contribuem para isso?

Sem dúvida, um bom exemplo para entender o quanto o estudo da genética pode agregar vantagens, já que são pontos fundamentais para qualquer atleta. Uma alimentação adequada permite ao indivíduo ter uma dieta balanceado, de modo que não tenham excessos que possam prejudicar a sua fisiologia normal, e também ter um melhor aproveitamento dos nutrientes para sua atividade física. Há muito tempo existem no mercado suplementos de uso para atletas humanos e equinos. No entanto, existem indivíduos que respondem melhor ou pior a determinado suplemento, porque cada cavalo é único. E se fosse possível prever qual o melhor suplemento e a melhor ração para o seu cavalo de modo que tenha os melhores resultados e que seja um animal mais saudável? “Em breve, teremos um teste Farmacogenético para que os veterinários tenham nas mãos o resultado genético de cada animal. Com isso, será possível prescrever qual medicamento é melhor para cada indivíduo, podendo assim atacar de forma certeira e assim ter uma resposta mais rápida ao tratamento.   

Como atua exatamente a farmacogenética?

Estuda como as diferenças genéticas entre indivíduos podem afetar as respostas aos medicamentos. Neste sentido, as variações genéticas em enzimas metabolizadoras, transportadores ou receptores contribuem para respostas distintas frente às drogas administradas. A identificação destas variantes genéticas contribui para nortear a escolha do tratamento mais efetivo e apropriado frente ao perfil genético encontrado. Essa já é uma realidade no mundo dos esportes nos seres humanos, área conhecida como “nutrigenética” ou “nutrigenômica”. Permite que pessoas adequem sua dieta de modo que seja mais equilibrada, evitando problemas de saúde, melhora no metabolismo de lipídeos, gorduras e carboidratos, além de permitir que atletas tenham uma oferta customizada de nutrientes para suas atividades.

É possível antever a performance do cavalo pelo DNA?

Além da dieta balanceada e a otimização dos cruzamentos, existem vários parâmetros da performance que podem ser observados e previstos pela genética do animal. Através de marcadores no DNA, podemos prever velocidade, informando se o cavalo possui aptidão genética para corridas de curta, média ou longa distância. Força, composição e metabolismo muscular informando a predominância do tipo de fibra muscular e suas particularidades. Por meio do estudo do DNA, por exemplo, é possível saber a tolerância a exercícios, informando se o cavalo deve ser treinado de forma mais conservadora ou avançada. 

Quando se sabe o limite de treino que o animal geneticamente está programado para suportar, e também o tipo de predisposição, seja lesão articular ou de ligamento por exemplo, o treino pode ser adequado ao cavalo, de modo que ele tenha uma vida atlética prolongada

 

No futebol, a tecnologia já ajuda a identificar atletas em risco de lesão. Nos cavalos também tem essa possibilidade? 

Risco de lesão é um importante parâmetro que pode afetar o desempenho do cavalo. Já é possível conhecer através da genética do cavalo, a tendência (positiva ou negativa) do cavalo sofrer lesões em tendões, ligamentos, articulações e músculos. Essa abordagem é fundamental para que a programação de treino (tempo e intensidade) e fisoterapias estejam alinhadas com a sua genética evitando lesões desnecessárias. Quando se sabe o limite de treino que o animal geneticamente está programado para suportar, e também o tipo de predisposição, seja lesão articular ou de ligamento por exemplo, o treino pode ser adequado ao cavalo, de modo que ele tenha uma vida atlética prolongada;

Por meio do DNA também é possível observar o padrão de comportamento do cavalo?

Os cavalos podem ser selecionados ou ter o seu padrão de comportamento previstos. Através do conhecimento do DNA do cavalo, é possível saber se ele irá apresentar padrões de comportamento que o tornam mais difíceis ao treinamento, dentre elas: inteligência, obediência, atenção e interação com seres humanos. É possível saber até mesmo se o cavalo terá facilidade na primeira monta, se ele apresenta um comportamento vigilante alto ou baixo, se é curioso ou não, se apresenta comportamento arisco ou dócil, dentre outras várias características do comportamento subjetivo do animal.

Pode-se dizer que a genética ajudará a moldar o cavalo do futuro?

Com as várias abordagens genética apresentadas, pode-se concluir facilmente que a genética tem forte influência nos cavalos, desde sua performance, até o seu comportamento e inclusive extrapolando para a sua dieta. Todos esses parâmetros apresentados, podem, e inclusive já são, realidade no mundo equestre. Toda informação coletada diretamente no DNA do cavalo só tende a contribuir para o seu melhor desempenho, para prever como será o animal adulto e para o melhor desempenho de sua prole também.

 

Revista Horse
Fabiano Paganini

Fabiano Paganini

Por muito tempo, a escolha dos melhores animais para reprodução era baseada na seleção pelas características que são visualmente fáceis de serem identificadas. Era comum que alguns cruzamentos com um garanhão bom e uma égua boa, gerassem proles que não tiveram os mesmos índices de seus pais, ou pior, que tivessem índices muito piores. Hoje, as ferramentas genéticas disponíveis contribuem de forma significativa para melhorar os cruzamentos e performance dos equinos.

            É justamente aí que atua o Laboratório Equus Group, de São Paulo, empresa especializada em análise genética que vem desenvolvendo no Brasil um trabalho direcionado ao universo equestre. O laboratório oferece as mais modernas técnicas de análise e interpretação de DNA de equinos com objetivo de identificar cavalos campeões e proporcionar maior vantagem em suas decisões de compra, venda e treinamento.

            Em entrevista à Revista Horse, o diretor Fabiano Paganini fala sobre os serviços que a empresa oferece e a aplicação do exame de DNA dos genitores, podendo selecionar quais pais terão a melhor prole, entre muitos outros aspectos que podem melhorar performance e, até, evitar doenças. Revela também que no Brasil a utilização desses recursos ainda é incipiente no mundo dos cavalos, reduzido aos processos reprodutivos, mas já vem sendo utilizada com sucessos em outras áreas do agronegócio. 

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