06-Jan-2021 13:48 - Atualizado em 13/01/2021 11:30
Treinamento

A importância da descontração

É uma das chaves mestras para uma boa equitação e deve ser usada durante todo o treinamento

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Costumo mencionar a palavra descontração algumas dezenas de vezes durante todos os dias. Não consigo sequer imaginar a quantidade de vezes que a pronunciei, pois, felizmente, aprendi esse conceito há muitos e muitos anos. Não tenho dúvida também que a estarei vivenciando na prática a cada cavalo que montar, a cada aula que der e a cada clínica ou palestra que ministrar. Nesta coluna farei uma breve síntese sobre a importância da DESCONTRAÇÃO.

Você sabe o real significado de descontração? E como praticá-la no treinamento diário com seu cavalo?

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Quando o cavalo está relaxado, ele aceita de bom grado as ajudas do cavaleiro
De acordo com o dicionário o substantivo descontração significa “algo que não está contraído; que não apresenta rigidez muscular, que está relaxado. Continua ainda, agora no sentido figurado, aquilo que “não demonstra tensão, preocupação ou ansiedade, ou seja, é o contrário de contração, nervosismo, preocupação e tensão”.
Já o verbo descontrair significa “deixar de contrair, relaxar os músculos, diminuir a tensão psíquica. Pois bem, imagino que ao ler esses significados você certamente deve ter se lembrado de algumas cenas com o seu cavalo. Concluo, portanto, que não é tão difícil diagnosticar os momentos de descontração durante o treino. Por outro lado, presencio, com certa frequência, cavaleiros que acreditam que este trabalho deve ser aplicado apenas no início do treinamento, focado no momento do aquecimento. Certamente, a descontração é fundamental no aquecimento e desaquecimento do seu cavalo, contudo afirmo com segurança que ela pode e deve ser trabalhada durante TODO o curso do treinamento.
Não é por acaso que a descontração está listada na base da pirâmide de treinamento. Ela é uma das partes mais importantes desta escala. Todo trabalho de base é um preparatório para os níveis superiores de ensino. Entretanto, sabemos que todos os elementos da pirâmide estão interligados e, dessa forma, após serem consolidados degrau a degrau irão trabalhar juntos constantemente, harmoniosamente.
Falando de uma maneira mais simplista, a fundamental importância de ter um cavalo descontraído é porque ele será capaz de realizar o seu trabalho sem aquela tensão que pode motivar o “apertar” dos músculos, ou mesmo toda sua estrutura física e emocional. De toda forma, não posso deixar de mencionar o quão agradável e motivador é ter um cavalo em descontração. Para mim, não faz o menor sentido dedicar a minha vida ao ideal da equitação, trabalhando com gosto, de 10 a 12 horas diárias, sem que eu tenha consciência e me certifique de que os cavalos, assim como eu, podem descansar relaxados e, porque não, felizes.
Quando o cavalo está relaxado, ele aceita de bom grado as ajudas do cavaleiro. Estas ajudam “passam” com fluência e sem resistências, favorecendo o que chamamos de permeabilidade: com uma viva impulsão e descontração das juntas, sem resistência em sua musculatura, o cavalo segue o convite do cavaleiro sem hesitação, respondendo prontamente às várias ajudas, com precisão e calma, mantendo a naturalidade e um equilíbrio harmonioso, tanto físico como psíquico.
A descontração é uma conquista, pois o processo de ensino de um cavalo, em geral, acaba por gerar certas tensões naturais. O cavalo, como animal predado e gregário, quando passa a conviver no manejo que estabelecemos para ele, deverá passar necessariamente sobre por habituações e condicionamentos. Esse processo, como também no ensino de novos exercícios, tende a gerar tensão. Por estes motivos e ainda outros, a descontração não é alcançada do dia para a noite, mas através de um processo contínuo para o desenvolvimento físico e mental do cavalo.
No decorrer do treinamento o cavalo vai tornando-se mais calmo, flexível e elástico. O trabalho nos três andamentos é essencial. Inicio pelo alongamento da silhueta no passo, mas a maioria dos trabalhos nesta fase é realizada no trote elevado. Isso melhora o ajuste e desenvolve a força muscular, resistência e flexibilidade. Com o passar do tempo e do treinamento repetitivo, o cavalo torna-se cada vez mais um parceiro confiante, disposto e motivado. A exemplo disto nota-se movimentos mais fluídos, amplos, tranquilos e cadenciados. Os músculos do pescoço e os dorsais deverão estar relaxados e com uma nítida báscula, favorecendo o engajamento dos posteriores. Somente através da descontração daqueles músculos podemos utilizar toda a musculatura mantendo a elasticidade.
Engana-se aquele que acredita que não é possível existir a descontração nos níveis mais elevados da equitação, como nos exercícios mais complexos que exigem maiores exigências de reunião e engajamento. Ao contrário! Justamente nestes exercícios é essencial que o cavalo consiga canalizar toda a energia, mas desprovido de tensão. A tensão bloqueia, enrijece e encurta. Exemplo disso é a prática do movimento sobre o qual tenho altíssimo apreço: o piaffe. Um movimento de alta reunião e engajamento, onde o fluxo de energia permanece constante, porém canalizado à beleza do exercício, num ritmo cadenciado, fluído e calmo.
Como dizia o querido Mestre Nuno Oliveira: “O relaxamento da boca por si só não é suficiente. Ela pode ser enganosa, porque não leva necessariamente à leveza. Tem que ser acompanhado pelo relaxamento de todo o cavalo. Quando ele relaxa as costas, ele definitivamente terá repercussões na boca. “
Devemos nos lembrar sempre que além da sensibilidade peculiar aos diversos animais, o cavalo possui uma acuidade sensorial avançada. Se você estiver sob efeito de alguns estados tensionais (provenientes de preocupações, medos, pressa etc) seu cavalo perceberá e poderá reagir de diversas formas. Seria contraproducente trabalhar neste estado. O cavaleiro, como condutor natural do seu cavalo, deve preparar-se antecipadamente para conseguir administrar suas tensões e encontrar-se com o seu cavalo com tempo, paciência e relaxamento. (Artigo publicado na edição 82 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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