08-Dez-2020 10:15 - Atualizado em 09/12/2020 18:17
Treinamento

A "ligeireza" na equitação

O conceito de "leveza" é um dos ingredientes essenciais à prática da boa equitação e baseia-se na ausência de resistências e ligado à impulsão

horse 2020,
Assine a Horse

Ainda inspirado pela última coluna que escrevi sobre a equitação Oliveirista, não poderia deixar de escrever sobre um dos elementos que considero relevante para a prática da arte da equitação: a ligeireza. Você já escutou este termo?
A ligeireza (lightness) é um termo bastante falado na literatura equestre, mas apesar dos autores concordarem sobre a importância de sua utilização, eles diferem, de certa forma, na sua concepção de qualidade. Contudo, uma coisa é certa: a realização de leveza no cavalo é um dos objetivos comuns a todos os métodos de treinamento de cavalos.
O conceito da ligeireza ou leveza baseia-se na ausência de resistências, conceito este ligado diretamente à impulsão e não à força. Ainda vejo cavaleiros confundindo gerar energia com a utilização de força e/ou velocidade. Ao contrário do que se pretende, essas últimas promovem tensão e bloqueios físicos e mentais, o que por sua vez fere os princípios da boa equitação e anda na contramão dos nossos objetivos.
treinamento,
foto1 - Um cavalo leve será capaz de sustentar-se com equilíbrio, repleto de permeabilidade criado através da impulsão e de um contato suave.
Historicamente, a ligeireza evoluiu a partir da escola equestre francesa de Versailles durante os anos 1700. Em particular, o professor de equitação francês François Robichon de la Guérinière é creditado com sua inspiração. Em 1800, François Baucher criou o seu legado ao afirmar o benefício de flexões para atingir leveza às ajudas do cavaleiro. Em Portugal, Mestre Nuno Oliveira destacava este elemento em todas as suas colocações e até os dias atuais seus discípulos estudam e disseminam este importante princípio.
Voltando ao conceito – e segundo o mestre Nuno – a ligeireza acontece através da realização simultânea das seguintes condições: a atividade dos posteriores e a maleabilidade do dorso do cavalo, que juntos lhe permitem ter um determinado grau de reunião , sem fazê-lo ceder pela intervenção direta da mão do cavaleiro. “Este tipo de ligeireza só pode ser atingido por um cavalo perfeitamente equilibrado. Se o assento do piloto é correto, com as pernas esticadas suavemente para baixo, com os braços caindo naturalmente e se as costas estiverem completamente livres de qualquer contração, ele irá acompanhar as ondulações do dorso do cavalo dando às mãos um grau de estabilidade que permitam uma garantia do mais suave contato com a boca do cavalo. Esta verdadeira leveza é a única que garante a obediência imediata do cavalo à menor solicitação do piloto”.
Ao lermos a citação acima nota-se que para alcançarmos a ligeireza (leveza) é necessário que o cavaleiro conheça os meios para se trabalhar um cavalo que são principalmente um “assento natural e apropriado e depois, como resultado deste assento, o uso correto dos membros que irão influenciá-lo” (Steinbrecht). As virtudes morais, como a sensibilidade e a paciência também são requisitos fundamentais.
Para exercitar a ligeireza, além dos exercícios físicos para o aprimoramento do assento, do equilíbrio e das ajudas do cavaleiro, é fundamental lembrar que a descontração mental do conjunto é uma premissa básica. Um bom exercício que emprego em minha Escola de Equitação é o volteio sem sela, mesmo para cavaleiros experientes. O intuito é a experimentação mais sutil dos movimentos de báscula do dorso do cavalo, a percepção das transições crescentes e decrescentes, onde eu conduzo o ritmo e as mudanças de direção, enquanto o cavaleiro sente minunciosamente os detalhes físicos e mentais do seu cavalo. Apreende e sente a sua respiração, entrando no modo “aqui e agora”. É essencial estar no momento presente, conectado com o estado mental do cavalo. É esta conexão sutil que chamo de conjunto. Não tenho a intenção de formar nenhum especialista em meditação, mas insisto em aprimorar a capacidade de relaxamento e estar na presença, inteiro, em comum-união, percebendo as minúcias da comunicação homem-cavalo e da energia gerada por elas. A capacidade de ter leveza e de se conectar com o cavalo em um nível mais profundo ocorre quando este fluxo de energia é puro. Se há tensão, há bloqueio e quebra do fluxo energético. Obviamente em momentos que podem gerar tensão durante o treinamento, na medida que é sentido, devemos tomar as medidas cabíveis para restabelecer o equilíbrio perdido.
Lembre-se de que descontração não é falta de energia ou morosidade. Descontração tem a ver com permeabilidade, com fluidez, com equilíbrio e prontidão para responder. O cavaleiro precisa ser flexível no seu relaxamento assim a energia do cavalo pode mover-se através de seu corpo e não ser bloqueado por rigidez ou tensão. Outro mal entendido que frequentemente escuto e vejo é a total ausência de contato, de conexão e de moldura quando determinados cavaleiros procuram a ligeireza, ou seja, ser leve não quer dizer deixar as rédeas soltas e abandonadas, mas sim trabalhar num contato suave e elástico criando a autossustentação. Mas isso é assunto para uma próxima coluna!
Nesta manhã, para minha felicidade, observei um dos meus cavalos no pasto. Ele executava um movimento de espádua a dentro com a mesma naturalidade e leveza quando estou em suas costas. (Artigo publicado na edição 81 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

Deixe seu Recado