07-Jan-2021 14:33 - Atualizado em 13/01/2021 11:42
Treinamento

A linguagem correta

Alguns termos equivocados são muito usados, talvez até inconscientemente, na doma e no relacionamento com equídeos

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Na sua bela apresentação durante o evento Global Equus International 2016, Eduardo Borba, conhecido treinador e filósofo brasileiro da Equitação Western, de cima do seu cavalo, começou falando mais ou menos assim: “Isso de questionar as coisas não é só para ser do contra, mas sim para subir o rio, para buscar a nascente, para procurar origem, a fonte e a razão de ser”. Sábias palavras. Valho-me desta colocação para questionar alguns termos que entendo equivocados e que são muito usados, talvez até inconscientemente, na doma e no relacionamento com equídeos.
Horsemanship

terminologia,
A treinadora Dudi em trabalho de rédeas longas, muitas vezes chamado por outras pessoas, incorretamente, de charreteamento
O primeiro deles é horsemanship, um anglicismo que bem poderíamos empregar em português, pois é de fácil tradução. Mas as pessoas costumam achar mais “chique” usar expressões em inglês, embora nesse caso, e em muitos outros, seja também uma forma de assumir, consciente ou inconscientemente, o colonialismo cultural. Todavia não é este tipo de questionamento que quero levantar agora. Refiro-me ao significado literal do termo em questão: relacionamento homem cavalo ou relacionamento cavalo homem.

Ora, se formos atentar para a tradução, este termo não quer dizer praticamente nada. Sim, porque relacionamento homem cavalo tanto pode ser bom como pode ser ruim, tanto pode ser positivo como negativo. Sei que quem é do ramo sabe que significa um relacionamento bom, mas não é isso que este termo, tão repetido, expressa na sua essência.

Os grandes homens de cavalo (horsemen, para ser mais “chique”), sempre que se referem a essa louvável filosofia equestre,usam a expressão Natural Horsemanship. Natural porque é um relacionamento que se baseia no respeito à natureza dos equídeos, na linguagem corporal deles e no entendimento mútuo. Não se trata apenas de agradar e muito
menos de coerção. Trata-se da integração natural entre homem e cavalo.

Portanto, Natural Horsemanship, esta sim, deve ser a terminologia correta a empregar quando queremos nos referir, em inglês, às maneiras de lidar interativa, etológica e gentilmente com equídeos. Maneiras estas que não são exclusividade nem pioneirismo dos norteamericanos, mas que foram cunhadas, propagadas e meritoriamente muito desenvolvidas por eles. Viva o Natural Horsemanship.

Dessensibilizar

Outra expressão muito ouvida e que acho inadequada, mas infelizmente pouco questionada, é dessensibilizar ou dessensibilização. Neste caso houve tradução, mas inadequada para o assunto da doma. O termo em inglês é desensitization. Usam-no para o início da doma quando querem se referir a procedimentos para fazer o animal aceitar, geralmente, contato físico com coisas que lhe causam medo, susto, cócega, receio etc.

Todavia, o termo dessensibilização usado em português não é uma boa tradução porque nos passa uma ideia equivocada. Dá a entender que haveria perda ou diminuição de sensibilidade. Não é isso que se quer, não é isso que ocorre e não é este o significado em inglês de desensitization, quando se trata de Etologia aplicada ao treinamento de animais. Na verdade, o que se quer é que haja aceitação do estímulo ou evento que, inicialmente, causa reação indesejada nos equídeos.

Desensitization significa um processo de exposição repetida a um estímulo ou evento adverso, até que se consiga do animal uma modificação no seu comportamento, de tal forma que ele passe a apresentar uma resposta neutra ou de aceitação. Normalmente neste trabalho não se usa recompensa ou reforço positivo. O que se faz, por repetição do estímulo ou do evento, é acostumar, com técnica e jeito, o animal a uma situação que até então não lhe era familiar e que ele considerava adversa ou perigosa. Simplesmente isso. Nada de perda de sensibilidade, até porque quanto mais sensível for o equídeo melhor.

Tirar ou diminuir sensibilidade seria uma doma de empobrecimento, de embrutecimento. Aliás, a sensibilidade combinada com a força representa justamente uma das maiores virtudes e encantos dos equídeos. Assim sendo, o termo mais correto que devemos empregar para esse assunto no início da doma é habituação e não dessensibilização.
Fernando Rolim, organizador do Global Equus Internacional 2016, na sua também bela apresentação de doma teve a correção e felicidade de usar a expressão habituação, e não dessensibilização, quando se referia ao acostumamento do contato físico do animal chucro com os arreamentos.

Charreteamento

Charreteamento é outro termo equivocado e muito usado no Brasil para uma das técnicas da doma racional. Grandes profissionais não escapam a mais essa inadequação linguística. Se a analogia com as rédeas compridas de Atrelagem fosse apropriada, pelo menos deveriam usar o nome de um veículo mais nobre, como nobre são os equídeos. Carroageamento viria de carruagem, assim como charreteamento vem de charrete. Mas nesta prática em questão não se usa charrete e, normalmente, não se está nem pretendendo preparar o animal para o uso posterior na charrete ou em qualquer outro veículo de Atrelagem.

Então, por que empregam esse termo? Simplesmente porque se trabalha com rédeas compridas? Ora, trabalhar do chão com rédeas longas é uma prática secular que vem, inclusive, das técnicas da Alta Escola de Equitação. Técnica esta que é muito mais antiga do que a própria existência da charrete. O nome correto, portanto, para está técnica é trabalho com rédeas longas e não com charrete ou, muito menos, charreteamento. (Artigo publicado na edição 85 da Revista Horse)

Revista Horse
Sérgio Lima Beck

Sérgio Lima Beck

é hipólogo e autor dos livros "Manual de Gerenciamento Equestre" e "Marcha: Mitos, Verdades e Outras Coisas". e-mail: [email protected]

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