15-Dez-2021 07:00 - Atualizado em 22/07/2022 12:06
Entrevista

A nova condutora do MANGALARGA MARCHADOR

Eleita com mais de 80% dos votos, Cristiana Gutierrez fala com exclusividade por que aceitou comandar a maior associação de raça do Brasil

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A criadora Cristiana Gutierrez, do Haras Morada Nova, assumiu a gestão da ABCCMM de 2022Julio Oliveira


A médica cardiologista, empresária e criadora Cristiana Gutierrez, 60 anos, fez um feito histórico: será a primeira mulher a presidir a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM). Eleita com mais de 80% dos votos no dia 3 de setembro, com 2.715 votos contra 854 de seu opositor, assume o desfio de comandar a maior entidade de raça do Brasil, com mais de 20 mil associados, e com um orçamento maior que muitas dezenas de municípios do País.

Avessa à política, Cristina afirma que só aceitou o desafio depois que a entidade aprovou mudanças significativas em seu estatuto. Uma delas refere-se ao formato e período de gestão, que passa a ser de quatro anos, sem a possiblidade de reeleição. “Sempre fui defensora da governança compartilhada”, afirma, destacando que o novo estatuto também estabelece a formação do Conselho Técnico (CDT) desvinculado da eleição de novas diretorias. Confira, a seguir, a entrevista concedida com exclusividade à Revista Horse.  

Como os cavalos entraram na sua vida?

 Logo que nasci meu pai comprou uma fazenda, chamada Morada Nova. Tanto ele quanto minha mãe sempre gostaram muito do campo, e lá tinha criação de gado leiteiro, holandês, e alguns cavalos usados na lida. Sempre gostei muito de cavalgadas, mas era só nos finais de semana. Meu pai morreu precocemente e tão logo me formei em medicina, na UFMG, em 1985, a fazenda foi dividida entre mim e meus dois irmãos, e foi aí que comecei a criar para nosso uso. Como gostava muito da atividade rural, anos depois compramos uma propriedade maior no norte de MG na região de São João da Ponte, onde desenvolvemos pecuária de corte e leiteira. Até 2004 minha atividade profissional sempre foi exclusivamente à medicina, mas a partir daí passei a administrar uma holding familiar atuando na agropecuária e imobiliária e, com isso, deixei a medicina de lado.

Sua criação sempre foi focada no MM?

Sempre gostei muito de cavalgadas. Por um bom tempo, eu e meus 3 filhos participamos de enduros. Meu filho foi campeão brasileiro e começou a atuar na modalidade de longa distância, mais profissional. Nesse período tivemos animais Árabe e Lusitano, mas mantive a criação do MM. De 2004 pra cá é que o criatório realmente deslanchou, quando assumimos definitivamente o papel de criador. A partir daí o criatório ficou apenas para Mangalarga Marchador. As éguas que a gente utilizava para cavalgadas começaram a parir e começamos a fazer seleções, sempre focadas no andamento, temperamento e comodidade. Hoje nosso plantel está em torno de 400 animais entre receptoras, potros mamando, cavalos. São cerca de 80 nascimentos/ano entre embriões e matrizes. Nas últimas duas Nacionais conquistamos os títulos de melhor criador.

Foi esse sucesso como criadora que a projetou na política da ABCCMM?

Sempre tive um contato estreito com as diretorias, mas nunca aceitei nenhum cargo, embora possa ter contribuído informalmente. Até porque no Marchador somos um regime presidencialista e eu sempre lutei para que houvesse um pouco mais de governança compartilhada. Neste último mandato, o Daniel me chamou para fazer parte do Conselho Superior, porque a Associação precisava encerrar o TAC instituído em 2005. Para isso, precisava cumprir algumas etapas, como a revisão do estatuto e a implantação da Comissão de Ética e o seu código. Aceitei e atualmente sou do Conselho Superior, que está terminando agora. A revisão do Estatuto foi um passo importante e, embora o regime ainda seja presidencialista, evoluímos para o poder mais compartilhado. Eu sempre busquei muito essa questão de compartilhar o poder, para não ficar apenas na cabeça de um, que é o presidente.

Quais outras mudanças importantes no estatuto que passam a valer na sua gestão?

São muitas mudanças, mas acredito que as mais importantes, não só para minha gestão, mas para evolução da nossa Associação, são as decisões compartilhadas pela diretoria, não mais apenas pelo presidente, que era o único responsável. Também teremos agora a obrigatoriedade de apresentação do orçamento anual pela diretoria e aprovação pelo Conselho Superior; outro ponto foi o fim da reeleição, com a gestão passando de três para quatro anos. Agora também temos a obrigatoriedade de auditoria independente, feita por uma das cinco principais empresas especializada; além disso, o CDT passa a ser escolhido pós-eleição, tirando o viés político; a Comissão de Ética também será um elemento fundamental para condução do comportamento de todos, colaboradores, diretoria, criadores e fornecedores.

Não existe fórmula mágica, não existe medidas que vão resolver os problemas antigos de uma hora para outra, mas acredito muito na força do trabalho e na paixão que nos move

Qual a marca que você pretende deixar?

A nossa gestão será centrada em três pilares: a gestão, o cavalo propriamente dito e os criadores. Seguir nesse processo de consolidação de uma gestão mais profissional, implementar cada vez mais as ferramentas que dão mais transparência ao processo administrativo. Quando dizemos o cavalo, nos referimos à parte técnica, os encontros técnicos. Quando digo técnico, me refiro ao nosso corpo de técnicos de registros e também ao nosso quadro de árbitros, que agora o Mapa denomina de Colégio de Jurados. Não basta crescer o número de animais, de eventos. Tem que evoluir também na qualidade, em capacitação.

Como será desenvolvido esse trabalho ao longo dos 4 anos?

Cada presidente teve sua gestão caracterizada por algum viés priorizado naquele momento. Nosso plano de gestão é muito voltado a dar sustentação a esse crescimento, de forma ordenada, organizada. Medidas serão necessárias para sustentar esse crescimento, principalmente na parte técnica da nossa Associação, ao quadro de técnicos, de jurados.

As cavalgadas também podem ser mais exploradas, como um nicho para o MM?

Cavalgadas é o nosso mercado. É uma forma de lazer muito democrática, onde todos os criadores têm o seu animal e as pessoas podem entrar sem saber muito de equitação. É a principal porta de entrada para a nossa raça. Criamos a Secretaria dos Núcleos, justamente para estreitar a relação da Associação Nacional com os cerca de 70 Núcleos distribuídos por várias regiões do país. A Secretaria vai atuar no sentido de colaborar na organização, criar mecanismos para um relacionamento mais próximo. Afinal, num país como o Brasil o relacionamento acontece por meio dos Núcleos e dos técnicos de registros, que estão em contato direto com os proprietários

Como encara o desafio administrar padrões e critérios de avaliação técnica numa entidade com mais de 20 mil associados?

Quando a gente olha para os números da nossa raça, a gente vê que realmente tem um produto muito bom. É isso que dá sustentação e que faz crescer da forma que crescemos. Esse produto nosso é fruto de um corpo técnico capacitado. Quando olhamos os animais que temos, a gente percebe a evolução do nosso cavalo. Tenho 31 anos na raça, gosto de pista, de fazer cursos e sempre acompanhei muito de perto isso. A evolução se dá pela capacidade do nosso corpo técnico de julgar a pista, que é o grande balizador para o trabalho desenvolvido dentro dos criatórios. O que precisamos é estar atentos e alinhar esses conceitos, nivelamento os conhecimentos. Sempre tem árbitros novos chegando e árbitros com experiência que podem contribuir infinitamente com a raça.

Sempre busquei muito essa questão de compartilhar o poder, para não ficar apenas na cabeça de um, que é o presidente. Conseguimos excluir a reeleição que é uma situação pela qual eu brigava muito, bem como a ampliação do mandato para 4 anos

A que atribui a sua expressiva votação, com mais de 80% dos votos?

Pelo fato de estar há mais de 30 anos na raça e participar muito ativamente, um bom número de criadores conhece a mim, ao meu filho. Viajei bastante, conversei muito, expondo essas questões. A troca de ideias foi muito boa para que eu possa fazer uma boa gestão de fato pela raça. Viajei, conversei com criadores do Piauí, no Pará, pelo interior do Brasil; fui onde eles estão. São regiões que sempre fui, mas por outros motivos. Agora fui com um olhar no sentido de entender as dificuldades dessas regiões. Temos estados nesse Brasil que nem sequer tem laboratório para fazer exame de anemia e mormo. As dificuldades que o técnico da nossa Associação tem para registrar animais...São várias questões que vamos trabalhar em nossa gestão.

Onde você vê maior possibilidade de crescimento do Marchador?

Nós temos ainda muito que crescer em regiões onde o agronegócio é pujante. Temos o Centro-Oeste, maior produção agropecuária do mundo. Foi muito bom ter viajado, participar e ver mais de perto essa questão do turismo rural. Vamos trabalhar para vincular o MM às várias modalidades de turismo que temos no Brasil, principalmente o rural. Tem as regiões de praias belíssimas, onde já temos o trabalho de vários Núcleos desenvolvendo isso. Cada região do Brasil tem suas características e desafios muito diferente uma das outras.  Os nossos animais que estão no topo da pirâmide tem muita liquidez, mas, para os que estão do meio para baixo, necessitamos criar mercado, através do bom uso dos nossos animais. Incrementar as cavalgadas, exposições de fomento, trabalhar mais na base de sustentação da nossa raça.

Aquela antiga rixa entre a Marcha Picada ou Marcha Batida já está superada dentro do MM?

Acredito que sim, talvez não na totalidade. Mas, na minha cabeça, já está totalmente superada. É como no Quarto de Milha um corre Tambor, outro prefere a Corrida, outro Conformação. A Marcha Picada está no nosso padrão, está na nossa raça. O nosso crescimento foi muito alavancado com a Marcha Picada. Hoje, a Associação trata todos como criadores, sem distinção.

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Revista Horse/Fotos Julio Oliveira
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