12-Jun-2020 13:34 - Atualizado em 17/06/2020 15:35
Bem-estar animal

A qualidade de vida dos cavalos

Muito além das regras de provas, entenda como algumas medidas podem melhor a qualidade de vida no dia a dia do seu cavalo

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Artigo publicado na edição 104 da Revista Horse
Do que um animal precisa para ter uma vida boa? Esta questão é levantada pela Dra. Temple Grandin em seu livro “O Bem-Estar dos Animais” (Editora Rocco, 2009) e talvez seja umas das perguntas mais complexas que podemos ter em nossa vida com nossos amigos equestres.

Certamente, a dificuldade não está em achar que sei o que meu cavalo precisa do ponto de vista humano, mas em buscar quais as reais necessidades do cavalo para ter ‘uma vida boa’ do ponto de vista equestre.

Nos últimos anos, no Brasil, a questão do bem-estar animal tem sido levantada como bandeira por muitos ativistas e gente do cavalo procurando a melhor condição para os animais que garantam uma melhor qualidade de vida e, certamente, boa performance em pista e no dia a dia.

Mas essa questão vem sendo debatida no mundo há mais de 50 anos, muitos buscando cientificar o bem-estar animal de forma a demonstrar os efeitos maléficos que uma condição ruim de vida pode trazer ao animal.

O problema é definir o que é uma condição de vida ruim. Essa condição deve ser vista do ponto de vista animal, pois ele é o maior interessado, e não do ponto de vista humano, que também tem seu interesse, mas muitas vezes diferente dos interesses do animal.

Muitos radicais irão falar que do ponto de vista animal ele quer é ficar solto e livre o tempo todo, sem nunca ser utilizado. Isso é uma meia verdade, pois já vi muitos cavalos que sentem prazer nas provas e passeios, e se sentem inúteis quando não estão em contato com o ser humano e sendo utilizados rotineiramente.
Conheci, por exemplo, uma égua puro sangue Árabe que foi aposentada aos 20 anos de idade e solta em um piquete com outros animais, onde havia companhia, espaço e alimento adequado para que ela pudesse viver tranquilamente por mais alguns anos. Essa égua definhou de tal forma que o proprietário achou que iria morrer e pediu para ela ser encocheirada e receber um trato melhor. O animal se recuperou parcialmente, mas sempre cabisbaixo. Essa égua era de competição de salto e o dono do centro hípico perguntou ao proprietário se não poderia utilizá-la nas aulas de escolinha, pois pela idade e experiência poderia servir de professora para alunos novos. A reviravolta foi impressionante: em menos de um mês a égua parecia que tinha 10 anos de novo, voltando a engordar e ter brilho nos olhos, sendo utilizada por mais alguns anos e vivendo com mais intensidade de novo.

Por outro lado, apenas utilizar o animal não é suficiente, e alguns exageram nessa condição de uso, abusando do animal ‘porque ele aguenta’... aí ocorrem os problemas que muitas vezes inutilizam em definitivo os animais.

Mas como definir se mantenho meus animais em condição de bem-estar? Essa questão, debatida há muitos anos, ultrapassa o simples “boa comida e água, vacinas e vermífugos”.  Não basta manter os animais em boas baias, abrigados de chuva e vento. Isso não é bem-estar, apesar de muitos resumirem desta forma.

A imensa maioria dos cavalos utilizados em competições no mundo têm essa condição de vida, mas observamos que nesses mesmos cavalos a enfermidade que mais mata cavalo é a cólica, e 99% dos casos cólicas podem ser prevenidos por correções de manejo. Sendo assim, nós propiciamos condições para nossos animais que podem levá-los à morte. E certamente isso não é bem-estar animal.

Enfermidades

Outra enfermidade cada vez mais comum entre os equinos é a úlcera gástrica, condição esta sendo tratada regularmente com medicamentos como se fossem suplementos. Drogas não foram feitas para uso contínuo, pois tem efeitos colaterais e certamente poderão causar outros problemas ao animal no futuro. Úlceras podem ser decorrentes de diversos fatores. A imensa maioria deles causada pelo manejo que o homem impõe ao animal, quer seja nutricional, como pela rotina diária. E certamente isso não é bem-estar animal.

Infelizmente é cada vez mais comum ouvir de proprietários, treinadores e mesmo de colegas veterinários que cólicas e úlceras são normais em cavalos. Normal é estado de saúde. Doença não é estado normal.

Infelizmente é cada vez mais comum ouvir de proprietários, treinadores e mesmo de colegas veterinários que cólicas e úlceras são normais em cavalos. Normal é estado de saúde. Doença não é estado normal. Se são comuns pelo mau uso do cavalo e das condições em que mantenho esses animais, não quer dizer que seja normal. Apenas são comuns porque não propiciamos as condições ideais de vida para eles.

Mas, então, como saber se mantenho meu animal em bem-estar real? Para auxiliar a dirimir essa questão, nos anos 90, o comitê Brambell, do Reino Unido, estabeleceu cinco condições para se definir o bem-estar dos animais, abordando desde o bem-estar físico, até o bem-estar psicológico, ou mental, dos animais. Essas condições são o que chamamos de “As Cinco Liberdades”: Livre de fome e sede, Livre de desconforto, Livre de dor, maus tratos e doenças, Livre de medo e estresse, Livre para expressar seu comportamento natural.

Existe uma grande complexidade em se buscar efetivar todas essas condições na rotina diária, mas somente se eu buscar isso intensamente é que posso efetivamente dizer que meu animal está em condição de bem-estar animal rico.

É quase impossível manter as cinco liberdades o tempo todo, mesmo na natureza, mas propiciar condições para que isso possa ser alcançado o máximo de tempo possível deve ser o objetivo de quem realmente se preocupa e quer o melhor para seus animais. E isso do ponto de vista animal.

Livre de Fome e Sede

Nessa liberdade, deve-se buscar ofertar ao animal o que ele realmente precisa para poder atender às suas necessidades, conforme o estado fisiológico do cavalo (crescimento, reprodução, trabalho ou manutenção).

Livre de fome significa ofertar o alimento correto na quantidade correta. E alimento correto para cavalo começa por ser ao menos 50% de volumoso (forrageira de fibra longa), onde a ração nada mais é que um complemento da dieta.

Livre de fome significa ofertar o alimento correto na quantidade correta. E alimento correto para cavalo começa por ser ao menos 50% de volumoso (forrageira de fibra longa), onde a ração nada mais é que um complemento da dieta.

Também é necessário acertar a forma de administrar o volumoso. Idealmente, a melhor forma é através da pastagem, onde o animal sempre tem alimento fresco à disposição e ele se serve quando quiser. Mas claro que isso nem sempre é possível. Então temos as alternativas, capineira, feno ou silagem.

No caso da capineira, o capim deve ser cortado diariamente, pois após o corte, começa a se deteriorar, no ponto certo de corte (que varia de capim para capim, mas nunca um capim elefante acima de 2,50m) e ofertado sem picar. Quanto mais íntegro o capim, mais estimula-se a mastigação, fundamental para ocupar o tempo de cavalo e estimular a salivação, uma das principais reações fisiológicas que auxiliam no combate às úlceras gástricas.

Mas livre de fome também significa cuidados com a quantidade de alimento e nutrientes que dou ao meu animal para que não seja em excesso, pois os excessos são tão ou mais prejudiciais que as deficiências para a saúde do animal. Frequentemente tenho me deparado com animais com problemas clínicos decorrentes de excesso de suplementos na alimentação.

Ofertar grande quantidade de concentrado ao cavalo, quer seja num período de 24 horas (mais de 1 kg de ração para cada 100 kg de peso vivo - ou mais de 5 kg por dia para um cavalo de 500kg), quer seja por refeição (mais de 0,4 kg de ração para cada 100 kg de peso vivo – ou mais de 2 kg por refeição para um cavalo de 500kg) significa favorecer quadro de cólica por excesso de concentrado.

Também ofertar uma quantidade exagerada de suplementos a base de vitaminas, minerais, aminoácidos, proteína, óleos, etc. podem afetar gravemente a saúde do animal a médio e longo prazo.

O ideal é sempre procurar balancear a dieta do animal de acordo com suas reais necessidades.

Livre de sede significa sempre ter disponível água fresca e limpa para o cavalo. O cocho de água deve ser limpo diariamente para que possa atender às necessidades fisiológicas do animal. Nenhum cavalo bebe água por puro prazer, mas sim para saciar e atender as necessidades de seu organismo. Cuidado com água gelada, pois podem causar cólica no cavalo, assim como água suja, com areia ou terra, que pode se acumular no aparelho digestório do cavalo, trazendo problemas de enterólitos no futuro. Mesmo água suja de ração ou capim deve ser evitada (assim como aqueles cochos com limo no fundo por falta de limpeza diária) que podem trazer problemas à saúde do animal.

Livre de Desconforto

O que é conforto para um cavalo?

Para muitos parece ser mantê-lo abrigado numa baia, com cama, para nunca ter que tomar chuva ou ficar sob ação do sol forte. Entretanto, esquecem que o cavalo sobreviveu os últimos milhões de ano tomando sol e chuva e chegou até nossos dias, apesar do homem.

Se observar um cavalo em uma pastagem em um dia chuvoso, exceto se for uma chuva muito forte, ele estará tranquilamente pastando. E na chuva forte, ele se abrigará junto aos outros animais e, em seguida, voltará a pastar. E com relação ao sol quente, desde que tenha uma sombra, quer seja de uma árvore ou mesmo um sombrite no piquete, ele ficará perfeitamente saudável sem problemas.

Cavalos evoluíram em liberdade em companhia de seus pares, sendo assim, conforto para ele é estar próximo de outros cavalos, tendo possibilidade de abrigo junto a uma árvore e dormindo sobre a relva.

Cavalos evoluíram em liberdade em companhia de seus pares, sendo assim, conforto para ele é estar próximo de outros cavalos, tendo possibilidade de abrigo junto a uma árvore e dormindo sobre a relva. Mas se optar, ou não tiver outra possibilidade, em deixá-lo fechado em uma baia, que esta seja grande o suficiente para que possa deitar (mínimo de 3,50 x 3,50 metros), tenha uma ótima cama limpa diariamente e com boa espessura (mínimo de 15 cm de altura), bem arejada e com janelas entre as baias para que possa ver seus vizinhos e, se possível, com a metade superior da porta sempre aberta.

A importância da espessura e limpeza da cama se dá por um bom motivo: todo cavalo dorme deitado todos os dias, desde que sinta segurança e conforto no ambiente. Agora imagine ter que dormir no seu banheiro sujo em cima do piso duro. Isso é o que muitos locais propiciam aos cavalos, dormir em cima das fezes e urina. Certamente pode-se imaginar o desconforto e estresse que isso causa nos animais.   

Mas é essencial que o animal seja solto no mínimo 2 horas por dia, para poder exercitar sua mente, tendo a sensação de liberdade em um redondel ou piquete. E não adianta imaginar que rodar o cavalo na guia atenda essa demanda. Soltar é diferente de trabalhar. Trabalhar é exercício físico; soltar é exercício mental.

Livre de Dor, Maus Tratos e Doenças

                Livre de doenças engloba desde a prevenção através do uso de vacinas e vermífugos, até o pronto atendimento médico veterinário quando o animal apresentar algum tipo de alteração em seu estado de saúde.

                Livre de dor é muito mais abrangente e complexo, especialmente nos atuais dias, onde o homem conta com inúmeras ‘ajudas’ para melhor controlar o cavalo. E muitas vezes esse controle é baseado na dor. Vemos isso frequentemente no dia a dia quando muitos cavaleiros e treinadores buscam uma embocadura melhor para buscar uma melhor resposta de seu cavalo ao comando. Isso pode ser verdadeiro sem dúvida, mas me surpreende a quantidade de trocas e de variedade de embocaduras disponíveis no mercado. Quando consultamos grandes expoentes da equitação, dizem ser necessários não mais que 10 ou 12 variedades de embocaduras para efetivamente se ensinar um cavalo aos comandos que se deseja, desde que se saiba como pedir para se obter a resposta correta. Entretanto, já vimos catalogados mais de 6.000 variedades de embocaduras, algumas verdadeiras ‘obras de arte’ na tortura e dor causada ao animal. Certamente ele responderá ao comando, mas pela dor, e não pela eficiência de quem o está conduzindo (e muitas vezes são pessoas do cavalo, que dizem amar nossos amigos equestres).

Que dizer então do uso indiscriminado de esporas e chicotes, não apenas as esporas de roseta pontuda, mas o mau uso da roseta romba também é prejudicial ao animal.

O uso do chicote está proibido em alguns países em decorrência da incapacidade do cavalo em sentir a chicotada durante a competição por conta da adrenalina. Então se ele não sente, porque usar? Ou ainda, como dizem os defensores do uso do chicote, se ele não sente, porque não usar? A questão é simples, porque ele não sente durante a prova, mas sentirá dor quando acabar a prova; e muito animais acabam por relacionar a dor à prova, e aí a performance cai, ao animas não obedecem mais direito, ‘obrigando’ o cavaleiro a se impor utilizando mais dor. E, claro, isso não é bem-estar animal.

Livre de maus tratos inclui o relatado acima, mas passa também pela rotina diária com um tratador eficiente que efetivamente goste de animais.

Com frequência nos deparamos com locais onde os proprietários amam seus cavalos, professam a cultura do bem-estar animal, capacitam seus funcionários para tal conduta, mas basta o proprietário virar as costas para o tratador ignorar tudo o que aprendeu e agir como se o animal não fosse um ser vivo, que sente e responde a tudo o que fazemos a ele.

O interessante a se observar aqui é que, se conhecermos bem de cavalo e do cavalo, buscando saber como ele se expressa, podemos ‘ler’ e compreender sua linguagem e ver que a vida do animal não está fácil. Animais assustadiços, que respondem sempre com olhar arregalado, tremendo, fugindo da companhia do homem, estão nos dizendo: minha vida ao lado do ser humano não é boa.

Livre de Medo e Estresse

                Parafraseando Temple Grandin, muitos acham que livre de medo, para uma presa, significa que, ao estar longe de seus predadores, esse animal não terá medo. Então basta mantê-lo em uma baia e este se sentirá seguro.  Isso não é correto, pois a segurança do ambiente do cavalo começa pela presença de outros cavalos, com os quais ele possa interagir e formar um grupo onde um estará sempre de vigilância enquanto o outro repousa. É assim que funciona na natureza; presas vivem em rebanho para que uns possam garantir a segurança de outros na hora do repouso, entre outras atividades.

Cavalos gostam de certa rotina diária, onde cumprir os mesmos horários para comer, treinar, soltar e outros cuidados favorece o bem-estar dos animais.               

Assim como livre do medo passa pelo bom tratador que saberá zelar pelas reais necessidades do cavalo, sem berrar ou ter gestos bruscos e agressivos que possam levar ao animal ao estado de pânico.

                Livre de estresse é algo bem mais complexo, especialmente quando falamos de animais de competição, pois a rotina pode ser estressante se não tomarmos certos cuidados respeitando as condições naturais do cavalo.

                Cavalos gostam de certa rotina diária, onde cumprir os mesmos horários para comer, treinar, soltar e outros cuidados favorece o bem-estar dos animais.

                Muitos nos questionam qual o melhor horário para se fazer isso ou aquilo com o cavalo; na verdade o horário mesmo raramente é relevante, pois cavalos dormem, brincam, se alimentam tanto de dia quanto de noite (há pequenas variações quando em condições climáticas extremas, com muito frio ou muito calor), portanto o que importa é que, quer seja neste ou naquele horário, todos os dias sejam no mesmo horário. E isso deve ser mantido o mais próximo possível também em dias de provas, claro que com as adaptações óbvias inerentes à competição.

Livre para Expressar seu Comportamento Natural

  • Provavelmente a liberdade mais complexa e difícil de se manter na rotina diária dos cavalos.
  • Devemos certamente, conhecer qual o comportamento natural do cavalo para poder atende a essa demanda.
  • Deve-se partir do pressuposto que o comportamento do cavalo é baseado em 04 preceitos: presa, gregário, liberdade e volumoso.

O cavalo é uma presa, sendo assim toda sua atitude é como um animal de fuga, estressando-se quando submetido a situação que pode colocá-lo em perigo (até mesmo um tratador ruim); por ser presa, para melhor sobrevivência, é um ser gregário, vivendo em bandos (o isolamento torna o animal irritado e estressado); evoluiu em liberdade, tendo necessidade de caminhar por algumas horas por dia (estima-se que um cavalo em liberdade, dependendo da qualidade da pastagem, caminhe de 2 a 11 km por dia); e por fim, é um animal herbívoro, cujo aparelho digestório evoluiu em simbiose com microrganismos capazes de quebrar, digerir e disponibilizar nutrientes provenientes de vegetais de fibra longa (capim não triturado, p.ex.).

Entendendo-se essas necessidades básicas dos cavalos, certamente poderemos facilitar a expressão de seu comportamento natural.

Sendo assim, para respeitar sua condição de presa, que se assusta com o desconhecido, é necessário muitas vezes rever as atitudes diárias com ele, em casa ou ainda quando o levo a um ambiente estranho. A confiança do animal em quem o conduz é essencial. E confiança não se obtém pela força, mas pela conquista de liderança que devo exercer sobre ele.

Para respeitar sua condição de gregário, evitar o isolamento, permitindo que ele tenha contato, nem que seja visual, com outros animais o dia todo, a todo momento.

Com relação à liberdade, conforme já citado, ao menos duas horas em redondel por dia, e que não seja isolado nesse momento, pois se não tiver ao menos contato visual com outro cavalo, por sua condição de presa, irá entrar em pânico, aumentando assim o estresse.

E alimentação com pelo menos 50% da dieta baseada em capim.

Claro que o comportamento de um animal é muito mais complexo que isso, mas se respeitarmos ao menos essas quatro condições, teremos um animal mais tranquilo e saudável.

E na prática diária, o que fazer e quais resultados posso observar?

                Começa por reavaliar no que entendia até agora como bem-estar animal e observando que, muitos que dizem aplicar o bem-estar animal, estão muito longe de fazê-lo na prática, no que diz respeito ao animal em si e às suas necessidades. Muitos fazem e praticam atos que vão contra o verdadeiro bem-estar animal em nome da tradição e cultura. E são pessoas que vivem do cavalo e dizem amar nossos amigos equestres. Muitas vezes precisamos rever nossos conceitos e reavaliar nossas atitudes se desejamos realmente o respeito dos cavalos e aplicar os cuidados necessários para que o animal esteja efetivamente em bem-estar rico.

                No dia a dia, o reflexo de efetividade de bem-estar de meu animal está na condição de saúde. Não falo apenas na condição de não ter cólica ou úlcera, apesar de esses serem ótimos indicadores de que estou no caminho certo. Mas observar condições que vão além do resultado esperado.

                Nos últimos anos, tendo trabalhado com o que denomino nutrição comportamental e os resultados que vejo em meus animais, e de alguns clientes, são muito além do esperado.

                Atualmente tenho 03 animais que vivem em um centro hípico com condições que considero próximo do ideal (pessoalmente nunca vi um local que poderia chamar de ideal, mas nos aproximarmos dele já é um ótimo objetivo). Nesse local vivem mais de 150 cavalos, de diversos proprietários e raças e é interessante observar os resultados práticos da rotina na vida desses animais. São apenas 35 baias e muitos piquetes onde os animais podem viver em condições bastante atraentes, dentro de suas necessidades.

                Meus animais ficam em um piquete exclusivo, de cerca de arame farpado, com alimentação exclusiva no cocho, e cercado por outros animais em piquetes adjacentes. O tratador é o mesmo, e a alimentação básica é a mesma. Apenas a filosofia de cuidados e a forma com que me relaciono com eles é diferenciada.

                Certa vez um amigo, que tem animais no mesmo local disse que tinha sorte em ter animais tão dóceis, pois ficava fácil de pegá-los no pasto, pois os deles eram arredios e ele tinha que mantê-los na baia, o que elevava os custos dele. O que esse amigo nunca entendeu é a construção do relacionamento que mantenho com meus animais, onde eles não precisam ter receio de minha aproximação, pois, mesmo que eles possam ser trabalhados, nada é feito de forma que eles não gostem do que fazem, mesmo que seja uma cavalgada de 5 dias, portanto não têm motivos para fugirem quando nos aproximamos.

                Mas o mais interessante que pude observar nesses animais, e foi um resultado de certa forma inesperado, mas compreensível, foi com relação ao estado nutricional e de saúde dos animais.

                Como nutricionista, sempre calculo a quantidade de alimento e nutrientes que os cavalos devem receber, buscando, nas pesquisas científicas, dados para atender a essa demanda dos animais. Mas com esses meus cavalos (e até de alguns clientes) as contas ficam no vermelho, isto é, a matemática científica indica que faltam nutrientes e os animais não deveriam conseguir atender a seu estado fisiológico. Ocorre que na prática, estou com um ´problema’, pois meus animais estão acima do peso, mesmo comendo apenas 1,3 kg de ração por dia, com bom volumoso como alimento principal.

                Com relação a enfermidades, não consigo me lembrar quando foi a última vez que meus animais tiveram problemas de saúde. E vivem soltos, dia e noite, quer tenha chuva ou sol forte. No piquete existe uma arvore para ‘abrigo’, mas acima de tudo, existe a vida saudável de um cavalo em companhia de seus pares com uma boa alimentação e equipe que sabe o respeito que tenho por meus animais e assim eles se mantêm em estado de saúde.

                Isso é bem-estar animal.

Revista Horse
André Cintra

André Cintra

é Médico veterinário, professor da Faculdade de Jaguariúna (FAJ) e especialista em nutrição equina
e-mail: [email protected]

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