30-Out-2020 09:59 - Atualizado em 30/10/2020 11:10
Internacional

A verdadeira história do Marchador na Europa

O criador Robert Schmitt, mais antigo e principal criador do Mangalarga Marchador na Alemanha, revela como começou, evoluiu e estacionou o mercado da raça

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Desde a edição de 2011 da Equitana, quando a Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Mangalarga Marchador (ABCCMM) e a Associação Europeia do Mangalarga Marchador mostraram, por meio do Projeto Vitrine, o Mangalarga Marchador ao público europeu, muitas controvérsias envolvem a formação e evolução da raça no mercado europeu. Até hoje fala-se muito sobre o mercado europeu, mas a ABCCMM não divulga números oficiais e precisos sobre a quantidade de animais no exterior. Além disso, a eterna polêmica entre as Marcha Batida e Marcha Picada, antes restrita a território nacional, também ganhou campo entre os alemães e até hoje divide opiniões. Para prejudicar ainda mais, o Mormo impôs restrições para a importação de cavalos do Brasil, que acabou por fechar de vez o comércio internacional com países europeus.
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Robert Schmitt, com Apache de Tucúnduva, e uma de suas amazonas com Elegante da Água Boa; duas gerações de garanhões que formaram a tropa de MM
Mas o quê, de fato, está acontecendo com o Marchador no além-mar? Atrás dessas respostas, a reportagem da Revista Horse, que acompanhou pela terceira vez consecutiva as ações do Brasil na Equitana, em Essen, na Alemanha, foi visitar in loco o pioneiro e principal criatório de Mangalarga Marchador da Alemanha, Gestut Kreiswalde, instalado em uma bela região de fazendas em um vilarejo a cerca de 35 km de Mannhein.
Fomos recebidos pelo proprietário Robert Schmitt, que fez questão de contar todo o seu envolvimento e paixão pelo MM. Segundo ele, a relação começou no final dos anos 80, pouco depois de ter montado a estrutura do haras. Conheceu a raça brasileira por meio de uma criadora alemã que morou no Brasil e havia importado alguns animais para Europa. “Vi que a raça tinha muitas qualidades, mas daquela tropa apenas um era bom, que acabei comprando”, conta, referindo-se ao garanhão Apache de Tucunduva, filho de Iraque de Calciolandia e Ozada de Tucunduva.

A evolução

O garanhão não apenas serviu de base para sua criação, como também se destacou em várias competições de marcha em países europeus, muitas vezes disputando na pista com animais de outras raças, como os Islandeses, Passo Fino, Passo Peruano, American Sadle Horse, Tenessee Walker, entre outros.
Tempos depois, já no início dos anos 90, Schmitt recebeu a visita de Sérgio Guerra, criador brasileiro que aproveitou uma viagem à Europa para conhecer o criatório alemão que criava MM. Desde então, surgiram vários negócios. Guerra, entretanto, tinha uma tropa formada basicamente por Marcha Batida, e uma minoria de Picada. Como os alemães tinham interesse na Marcha Picada, o criador brasileiro disponibilizou sua pequena tropa e ainda conseguiu intermediar a negociação com outros criadores de Picada, até que em certo momento não conseguiu mais atender às demandas com animais de qualidade. Ocorreu, então, um período de estagnação nas exportações, entre o fim dos anos 90 e meados dos anos 2.000.
Em 2005, Robert Schmitt conheceu o criador brasileiro de Marcha Picada Rogério Bivar, durante uma visita à Alemanha. “Fizemos amizade e ele trouxe vários amigos nos visitando regularmente o Brasil, principalmente para cavalgadas pelas praias, conta Bivar”, destacando que, depois de cerca de 5 anos com as exportações paradas, conseguiu mandar alguns animais para a Alemanha “Na verdade, foi entre 2006 e 2008, quando conseguimos mandar nove animais para lá”, explica.

Equitana

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Haras oferece estrutura de primeiro mundo aos clientes, com muitos proprietários de MM
Naquela época, com vista no grande potencial do mercado europeu, Bivar e Robert tentaram expor na Equitana. “Como vimos que o negócio era muito vultoso, tive a ideia de levar esse projeto ao então presidente da ABCCMM, o Magdi Shaat. Ele gostou do projeto e já em 2007 viajou junto comigo à Alemanha e teve reuniões com o pessoal da Equitana, que eu apresentei, e também aproveitou um evento que era um Campeonato Europeu de Marcha Picada que estava acontecendo lá em Kreiswald, na propriedade do Robert”, lembra Bivar, destacando que na ocasião, com tudo já previamente acertado, teve a oportunidade de ser apresentado a vários criadores de Marchador na Europa.
Segundo o criador brasileiro, eram vários núcleos na Alemanha, uns da Holanda e outro da França. A ideia, que acabou se concretizando, era unificar todos com o nome de uma Associação Europeia, com o apoio da ABCCMM. “Depois disso ainda conseguimos algumas ações concretas, como etapas dos Caminhos do Marchador, o Projeto Vitrine com participações em feiras e exposições, o envio regular de técnicos para regularizar a população dos marchadores na Europa, dentre outros”, afirma.

Projeto Vitrine

Em 2009, a ABCCMM e o Núcleo Europeu já estavam com tudo pronto para participar da edição da Equitana, mas em razão da epidemia de Mormo - já naquela época evidenciada como nos dias de hoje, houve a proibição de exportação de equinos e a participação da tropa brasileira acabou sendo prejudicada.

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Fachada da casa sede do Gestut Kreiswalde, em Mannhein
No final de 2010, com o problema do Mormo temporariamente equacionado, alguns criadores de Marchador aderiram ao Projeto Vitrine (Veja reportagem na página 10) e conseguiram enviar animais à Alemanha e participar da edição da Equitana 2011, processo repetido nas edições bienais seguintes (2013 e 2015), por meio do Projeto Vitrine.
Atualmente, o mercado de exportação para a Europa voltou a ser prejudicado por causa das restrições sanitárias do Mormo. Tanto Bivar quanto Schmitt concordam que, por essa razão, todo o potencial de exportação acabou ficando estacionado. Até mesmo o Projeto Vitrine do marchador está impedido de apresentar outros exemplares. Além disso, ambos concordam que a insistência de brasileiros em levar animais de marcha batida de qualidade questionável acabou criando polêmicas que atrapalharam novos negócios.
Segundo o criador alemão, existem hoje na Europa toda, algo em torno de 800 exemplares do Mangalarga Marchador, número que poderia estar muito maior se não fossem os problemas. Mesmo assim, o criador alemão continua investindo em sua tropa e tem vários exemplares tanto de sua propriedade, quanto de terceiros que já foram comercializados.

Infraestrutura

Sua propriedade é um bom exemplo das atribuições que o cavalo oferece ao típico usuário de cavalos de marcha. Em uma área de 60 hectares, estão distribuídos vários piquetes, baias, pistas para cavalgadas, pistas de exercício, redondel e um picadeiro em estrutura de madeira digno das melhores hípicas. A casa sede pode ser vista de longe, em formato de castelo.
O haras, que funciona como um centro de treinamento, possui cerca de 150 animais, dos quais 100 de sua propriedade e 50 de terceiros. Além do Mangalarga Marchador, há Pôneis Islandeses e outros animais de raça variada. A maioria do animais é criada solta e os próprios clientes pegam, escovam, arreiam e fazem seus passeios nas várias pistas de cavalgadas. O local também oferece professores e cursos específicos. (Artigo publicado na edição 76 da Revista Horse)

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