28-Abr-2021 09:40
Crônica

ALCATRAZ

Nossas mentes não conseguem escapar da mentira, do drible da verdade, do reconhecimento do erro, do delito, do dolo

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Sinônimo de presídio de segurança máxima. Segurança e aprisionamento de mentes humanas. Nossas mentes não conseguem escapar da mentira, do drible da verdade, do reconhecimento do erro, do delito, do dolo. Por isso, tudo fica mais difícil quando temos o bendito ser humano, enroscado nas nossas frágeis pernas, no dia a dia. O ser humano só atrapalha, confunde! Pelas barbas do profeta! Pelas barbas de Luiz Inácio da Silva! (Eu gostava muito de usar o termo “Homo Sapiens”, mas depois que a presidenta (rs), Dilma usou até “mulher sapiens” fiquei com escrúpulos).
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Cronica 91
Enfim, somos prisioneiros do verbo “mentir”. E numa dessas, quase que me ferro de verde e amarelo num atendimento veterinário que fiz. Fui chamado para atender uma “cólica” de um mangalarga paulista. Duas da tarde, horário bem família, barriguinha cheia, sem estresse. Pego meu carrinho todo sujinho, meu “emborná de atendimento”, soro, ringer, lactato, cálcio, flumixin, sonda naso- esofágica e rumo para o serviço.
O haras é top e fica na região de Bofete. Eu sabia que problema de manejo não deveria ser, pois os caras são super metódicos com isso. Chegando, como é de costume, a primeira coisa que faço é sifonar o estômago. Quem não faz isto está comendo bola, ok? Ou melhor, para usar um termo mais contemporâneo, está descumprindo o regimento. Sifono, sifono e sifono. Depois de umas 10 ou 20 colocadas e retiradas de conteúdo gástrico, consigo obter um retorno com conteúdo límpido. Ok, está lavado o estômago.
Então, comecei a hidratar o bicho. Acho que passei uns 15 litros de ringer. Ausculta, ausculta e silêncio abdominal, patear no chão e olhar para o flanco. Os sintomas de dor persistiam. Que saco! não pode ser. Um chorinho de cálcio podia ajudar o trânsito. Mandei ver. Vamos andar com o cavalo? Não deixa deitar. Anda, anda e anda, já estava ficando com dó do peão. Deixa que eu puxo um pouquinho! Mas minha disposição durou pouco, pois logo começou a doer o danado do nervo ciático (o pessoal fala nervo asiático).
A dor desce pela bunda, é terrível! Ficar velho é uma merda! Ah, sim, ficamos mais sábios (será?), mas isso não paga o preço das dores nas costas, nas pernas, nos pés, na bunda! Ê ‘veiera’ desgraçada! Continuando. Entreguei os pontos e pedi para o tratador puxar novamente o animal, que não melhorava.
Então, perguntei se tinham mudado alguma coisa, aplicado algum produto novo e a resposta foi não. Cansado, fui tomar uma água na cozinha e lá está o lixo, mocosado e debaixo de um saco de ração tem um frasco de amitraz. Por que o bundão do peão não me falou que usou amitraz? Amitraz só se usa para carrapatos em bovinos e lá não tem bovinos! Amitraz causa cólicas em equinos! Prisão de Alcatraz, mentira, mais uma vez mentira, que atrapalha e muito o nosso serviço médico veterinário. Sem falar nada com o bundão, entrei como recurso heróico e à mão, cafeína. Zastrás!
Pô, mas precisávamos de tudo isto? Poderíamos ter poupado tempo e riscos. Poucos instantes após fluído mais o antídoto caipira tínhamos um cavalo suado, exausto, mas com o funcionamento intestinal como uma relógio Patek Philippe. Ufa mais uma vez! Abandonemos a mentira gente! Vamos esvaziar Alcatraz! (Crônica publicada na edição 93 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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