04-Nov-2020 09:28 - Atualizado em 04/11/2020 11:45
Nutrição

Alimentação 100% correta para os equinos

A exigência nutricional dos cavalos depende da idade, peso, atividade física, dentre outros aspectos

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Alimentar, segundo definição do dicionário Aurélio, significa “dar alimento a”, “nutrir”, “sustentar”. Na nutrição animal, tal significado é de importância crucial quando observamos que os provedores de alimento para os animais somos nós, os humanos. Dentro dessa linha de pensamento, concluímos que os animais não têm livre arbítrio ao escolher sua dieta, ficando toda ela a cargo de nossos conhecimentos disponíveis e oferta dos alimentos. Digo “conhecimentos disponíveis”, pois, em algumas espécies, como os equinos, por exemplo, as pesquisas em nutrição ainda não nos revelam tudo exatamente como ocorre no complexo sistema digestório desses animais. Partimos então do histórico da nutrição equina, da nossa experiência e consultas a tabelas de requerimento nutricional para elaborar a dieta equina.
Para nutrirmos um animal adequadamente, o primeiro passo é identificar a categoria na qual ele está inserido. São várias, dentre elas: potros, fêmeas de reprodução (prenhas ou não), garanhões, animais de esporte (velocidade, resistência, ou os dois juntos), trabalho (leve ou pesado), manutenção, animais senis, e ainda, a espécie (equinos, asininos ou muares). Também o tipo de volumoso fornecido deve ser considerado ao se elaborar a dieta de um equino, pois é conhecido que os fenos apresentam menos nutrientes que o capim fresco, e este, por sua vez é mais rico em água.
Para se definir a nutrição equina, vale descrever quais os tipos de processamento sofrem as rações e, por conseguinte, qual a finalidade desse processo. No mercado há rações fareladas, peletizadas e extrusadas, além do processamento específico sobre algum componente, como a aveia laminada ou o milho floculado. O alimento farelado corresponde à ração misturada, onde todos os ingredientes inseridos devem ter sua granulometria (tamanho) similar, para que não haja separação dos componentes, na armazenagem, devido à densidade de cada material. Na peletização, o alimento pronto, farelado é submetido ao calor e umidade, acrescido de um agente ligante, sendo então prensado sobre uma “peneira” que dá o formato característico do pélete, um cilindro. Na extrusão o alimento farelado é submetido a altas temperaturas, sofrendo um cozimento, por isso sua digestibilidade é mais elevada que as demais formas de processamento. Após a extrusão, geralmente se aplica um banho de óleo sobre os péletes, que tem por finalidade proteger a ração, e ainda aumentar a aceitação pelos animais (palatabilidade).

Potros

Na nutrição dos potros, é importante que a ração forneça nutrientes de fácil digestão, pois seu sistema digestivo ainda é imaturo. O início do fornecimento de ração para os potros é variável, sendo o mais comum a partir do sétimo dia de vida.

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Na nutrição das fêmeas prenhas, todo cuidado deve ser dado no terço final da gestação, que é quando o potro aumenta de tamanho. Já nos potros é importante que a ração forneça nutrientes de fácil digestão
Os potros apresentam desenvolvimento rápido e por isso devem ser bem nutridos praticamente desde o nascimento, a fim de se evitar a ocorrência de doenças ortopédicas do desenvolvimento (DODs). As rações extrusadas e em formato pequeno são as mais indicadas, embora também existam no mercado rações peletizadas. O potro pode se alimentar com essa ração até o desmame, que ocorre geralmente aos cinco ou seis meses de vida. Na fase seguinte, que envolve o desenvolvimento e introdução à doma, o potro deve receber ainda uma ração para crescimento, visto que suas necessidades nutricionais nessa fase são específicas; esse tipo de ração pode ser oferecida até os dois anos de idade. A partir desse momento, a nutrição vai variar de acordo com o objetivo final, esporte, reprodução ou caminhada leve (lazer).

Éguas prenhas

Na nutrição das fêmeas prenhas, todo cuidado deve ser dado no terço final da gestação, que é quando o potro aumenta de tamanho e acaba comprimindo alguns órgãos importantes, como estômago e intestino, o que determina um menor apetite na égua. Com isso, devemos dar especial atenção nesse período, pois é quando a fêmea se prepara para a fase de maior exigência nutricional: a lactação.

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A nutrição dos garanhões deve ser focada no fornecimento de volumosos de alta qualidade, como capins frescos (coast-cross, tifton) e feno de alfafa
Assim, ao se fornecer a ração, deve-se garantir pelo menos 12% de proteína de boa qualidade e volumosos nutritivos e frescos, que asseguram um aporte mais completo de vitaminas e minerais. A lactação é uma fase compreendida desde o nascimento do potro até seu desmame, que varia de acordo com a finalidade da criação. É interessante manter a égua com a mesma ração e volumoso da fase anterior, pelo menos até o desmame do filhote.
Na próxima fase da fêmea reprodutora, o foco é a recuperação do trato reprodutivo e a manutenção do peso ideal, visto que éguas acima do peso têm dificuldades reprodutivas importantes. Assim, manter a égua em regime de pastagem, com ração de manutenção é o mais indicado.

Garanhões

Os garanhões são, talvez, a categoria a qual a nutrição é mais meticulosa; sabe-se que algumas alterações nutricionais levam o cavalo a distúrbios metabólicos importantes, que podem culminar com a morte do mesmo. Sendo essa categoria de animais com alto valor genético e, por conseguinte, financeiro, a nutrição deve ser focada no fornecimento de volumosos de alta qualidade, como capins frescos (coast-cross, tifton) e feno de alfafa, visando minimizar ao máximo, distúrbios nutricionais relacionados ao excesso de concentrados.
É importante salientar que, para os garanhões, é mais válido fornecer um volumoso de boa qualidade e em quantidade ideal do que uma ração de alto valor nutricional. Alguns suplementos alimentares podem ser fornecidos, como o óleo de arroz, por exemplo, que é rico numa substância chamada de gama-orizanol, a qual tem um efeito positivo sobre as células espermáticas. A ração dessa categoria deve ser uma boa ração de manutenção.

Cavalos de esporte

Os esportes equestres requerem animais sadios, com bom escore de condição corporal: nem magros, e nem gordos demais. Nessa importante categoria, o foco é fornecer ao cavalo atleta uma nutrição de boa qualidade, sobretudo com relação à matéria-prima das rações. Os componentes de uma ração para essa categoria devem ser alimentos mais “nobres” como farelo de soja, milho, aveia, melaço, óleo. São alimentos que possuem uma composição em nutrientes mais completa, e nutrem o animal de forma segura e eficaz.
Ainda para os equinos esportistas, é atualmente difundido o uso do óleo (de soja, de linhaça, entre outros) como fonte de energia segura, pois o mesmo não promove fermentação, prevenindo as temíveis cólicas. No entanto, seu uso deve ser moderado e supervisionado por um nutricionista, pois seu excesso pode dificultar a absorção dos nutrientes da ração pelo cavalo. O nível de proteína da ração para esse grupo varia entre 13 a 15% dependendo do esporte praticado e também da idade do animal. Como os metabólitos da proteína são excretados sobre a forma de ureia, seu excesso pode prejudicar os rins; nessa categoria a reposição hídrica durante uma prova por vezes é dificultada (devido ao calor corporal produzido na prática de exercícios), assim, atenção especial deve ser dada aos níveis proteicos da dieta total (ração mais volumoso).
Outro item importante a ser observado é com relação aos minerais, por ser uma categoria na qual o esforço físico é por vezes diário, a reposição eletrolítica é imprescindível para a manutenção do desempenho do equino. Fornecer sal mineral à vontade, diariamente, otimiza o bom desempenho dos animais nas provas. As mesmas orientações são aplicadas para os animais de trabalho, tanto leve quanto pesado.

Cavalos idosos e outras espécies

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Muares e asininos devem receber a mesma alimentação que os equinos
Os equinos senis (idosos) são muitas vezes esquecidos em piquetes precários, com pastagem de má qualidade, sem demais alimentos. É uma categoria especial; já nos serviram de diversas formas e merecem ter um descanso digno. A alimentação com feno de boa qualidade e ração de manutenção são suficientes para prover o bem estar desse grupo.
Os muares e asininos, assim como os pôneis e mini-horses, possuem algumas características inerentes à sua espécie, porém na nutrição comercial somente rações para muares e asininos estão disponíveis. Assim, as categorias desses animais devem obedecer às mesmas recomendações das categorias dos equinos.

Água

Um item que também é imprescindível na nutrição equina é o fornecimento de água; os cavalos sempre devem ter água de boa qualidade e em quantidade disponível. Todas as categorias devem receber também um suplemento mineral ad libitun (à vontade), em cochos cobertos, e específicos para cada categoria; se não houver essa opção, o uso de qualquer sal específico para equinos é suficiente. Nunca deve ser fornecido sal mineral indicado para outras espécies aos equinos.
Enfim, nutrir não é tão difícil quanto dizem, nem tão fácil quanto parece ser. Conhecer e respeitar a fisiologia digestiva equina sempre é a melhor forma de evitar erros, promovendo a nutrição na sua (quase) plenitude. (Artigo publicado na edição 78 da Revista Horse)

Revista Horse
Sabrina Funari

Sabrina Funari

é Zootecnista graduada pela FZEA/USP
e-mail:[email protected]

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