05-Mar-2020 17:19 - Atualizado em 05/03/2020 17:48
Treinamento

Alinhamento mental e físico - Parte 2

Depois do entendimento mental sobre direção sugerida, o cavalo tem de aprender a alinhar o seu corpo (cabeça, paleta e garupa)

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Na matéria da edição anterior (Veja AQUI), falamos a respeito da importância e como construir o alinhamento mental. Sem a construção desse primeiro fundamento, não teremos sucesso na segunda fase, que é o alinhamento do corpo do cavalo (físico), seja num círculo ou em uma reta.

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Edição 94
Como expliquei na matéria anterior, o alinhamento mental é o assunto que diz respeito ao entendimento do cavalo a respeito da direção sugerida. Porém, quando o cavalo sabe responder para direção sugerida (alinhamento mental), não significa que está com o corpo alinhado (alinhamento físico). E é a respeito desse alinhamento físico que vamos conversar agora.

Um cavalo nunca é naturalmente alinhado. O entendimento e a prática de uma boa equitação é que

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vão construir esse alinhamento. O alinhamento do corpo do cavalo é de extrema importância para qualquer tipo de performance. Um cavalo que está desalinhado vai perder equilíbrio e potência nos seus movimentos, além de aumentar a probabilidade de lesões, pois desequilibrado vai estar sobrecarregando mais do que deveria algumas estruturas em relação a outras.

Alinhamento num círculo

Significa que se desenharmos a linha de um círculo no

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chão, todas as partes do cavalo (cabeça, pescoço, paleta, caixa da costela e garupa) estariam bem em cima desta linha (figura 1).

Como falei anteriormente, isso não acontece naturalmente. É o bom treinamento que vai proporcionando este alinhamento. Antes de construirmos esse alinhamento, pensando nesta linha do círculo desenhada no chão encontraremos basicamente duas situações:

  • paleta para fora e garupa para dentro da linha desejada;
  • paleta para dentro e garupa para fora da linha desejada.

Como estamos considerando que nosso cavalo já está alinhado mentalmente, essas possibilidades de desalinhamento são muito sutís, de forma que o cavaleiro precisa ter um treinamento adequado para percebê-las e que pode haver algumas variações dentro dessas duas possibilidades básicas de desalinhamento citadas.

Alinhamento numa reta:

Significa que, se desenharmos uma linha reta no chão, o cavalo estaria passando exatamente com a cabeça em cima dela  e com o pescoço, paleta, caixa da costela e garupa alinhados atrás da cabeça. Sendo assim, o cavalo está com 50% do peso distribuído do lado direito e 50% do lado esquerdo (figura 2) .

Como executar o fundamento

Como disse anteriormente, não é fácil perceber esse desalinhamento no corpo do cavalo. O primeiro passo seria praticar essa observação de onde estão as partes do cavalo, para depois começar interferir sobre elas.

Depois precisamos ter controle das “dobradiças” do cavalo. O cavalo possui 3 dobradiças: a primeira  na inserção da cabeça com o pescoço; a segunda na paleta, com o início da caixa da costela; e a terceira na lombar com a garupa . Essas dobradiças significam que essas partes têm a possibilidade de se articularem na junção entre elas, possibilitando que uma se movimente de forma independente da outra.

Faz parte do treinamento do cavalo tornar essas dobradiças cada vez mais disponíveis. Quando um cavalo vem para a doma, funciona como um bloco, de maneira que uma parte não consegue se mexer independentemente da outra. É o treinamento que possibilita essas dobradiças começarem a funcionar. Essa matéria parte do ponto onde já temos essas dobradiças disponíveis.

Então, independente de um cavalo estar num círculo ou em uma reta, vamos imaginar como podemos colocá-lo exatamente em cima da linha mencionada anteriormente no texto e demonstrada nas figuras que significam um cavalo alinhado em ambas situações.

Garupa para direita da linha e, consequentemente, paleta para esquerda da linha do alinhamento: posiciono minha perna direita do meio da caixa da costela para trás (foto 1), junto com a rédea direita posicionada aproximadamente no meio do pescoço do cavalo, sendo acionada verticalmente para cima foto 2). Essas ajudas movimentarão a garupa para a esquerda, colocando-a na linha do alinhamento. Para a paleta se movimentar para direita, em direção ao alinhamento, usamos a perna esquerda, posicionada no meio da caixa da costela para frente (foto 3) e a rédea esquerda posicionada em direção ao quadril, sendo acionada para trás (foto 4)

Garupa para esquerda da linha e, consequentemente, paleta para direita da linha do alinhamento: usamos os mesmos tipos de ajudas, apenas invertendo os lados (o que era direita vira esquerda, e vice-versa).

Essas ajudas das rédeas e das pernas podem sofrer alguns ajustes de posição, ângulo e intensidade, que devem ser adequadas às necessidades de cada cavalo.

Por isso, se o leitor não tiver muita intimidade com o assunto descrito, seria importante realizar esse trabalho com um instrutor. Ele vai poder ajudá-lo a perceber o desalinhamento do cavalo e depois adequar o uso das ajudas de pernas e rédeas para a situação.

Como o cavalo não é naturalmente alinhado, precisamos fazer o trabalho de alinhamento de uma forma gradual, de maneira que ele possa compreender qual é o posicionamento esperado sem forçá-lo a ficar definitivamente na posição desejada. Isso poderá machucá-lo fisicamente, já que a musculatura não está preparada para sustentar esse novo posicionamento.

Além disso, sustentá-lo numa nova posição sem dar o tempo para que possa entender vai gerar um desconforto físico e, consequentemente, mental, atrapalhando o processo de aprendizado e podendo provocar reações e não respostas.

Gradativamente, coloco-o na posição que desejo e dou liberdade para voltar para a posição que deseja. Posiciono novamente no alinhamento, solto-o novamente, até perceber que, quando solto-o, ele sustenta a posição mais próxima do alinhamento possível com autonomia. Neste momento, tiro a pressão do trabalho, deixando-o descansar e ter uma sensação agradável, como recompensa para esse tipo de resposta que ele acaba de me dar.

A partir daí, vou construindo o entendimento do cavalo e também sua preparação física para conseguir se sustentar cada vez mais nessa posição de alinhamento.

Após compreendidos os fundamentos do alinhamento físico e mental, temos um cavalo com a base necessária para se desenvolver em qualquer tipo de função, seja esportiva, de trabalho ou lazer. (Artigo publicado na edição 94 da Revista Horse)

 

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Dudi Ometto

Dudi Ometto

Treinadora de Rédeas do Projeto Doma e Zootecnista. E-mail: [email protected]

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