05-Mar-2020 14:57 - Atualizado em 06/03/2020 09:53
Treinamento

Alinhamento mental e físico

O cavalo bem guiado entende a sugestão da direção e, portanto, responde sem resistência à direção desejada

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Nós, da modalidade de rédeas, usamos o termo "guiar" para o fundamento que expressa a direção do cavalo. Ou seja, o cavalo que guia bem entende a sugestão da direção e, portanto, responde sem resistência à direção desejada.

Esse fundamento é necessário para os animais de qualquer modalidade progredirem no programa de treinamento. Com um animal confuso a respeito desse assunto, vamos ter que lidar com muitas reações e poucas respostas.

Quando você tem a capacidade de ensinar ao cavalo que ir na direção sutilmente sugerida é a melhor opção, é impressionante como eles ficam atentos ao cavaleiro, pois estão sempre esperando qual vai ser a sua próxima sugestão. Além disso, ensinar o cavalo a responder um gesto sútil (com as rédeas bem soltas e usadas com um toque muito suave) (foto 1) constrói a atenção e a confiança. Para responder a um gesto grosseiro, ele não precisa estar atento, e isso gera outras consequências, como o susto, tensão e não- prontidão. Aí o cavalo começa a se aprontar para se defender, e não para responder. 

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Antes de explicar como procedo na construção deste fundamento, vamos descrever as diferentes maneiras de se utilizar as rédeas e suas respectivas nomenclaturas:

Rédea direta (foto 2) é quando pegamos através da rédea direto no bridão, distanciando a rédea do pescoço do cavalo, acionando diretamente o bridão e dirigindo o cavalo para direita quando acionamos a rédea direita e para esquerda quando acionamos a rédea esquerda.

- Rédea de pescoço (foto 3) é quando encostamos a rédea no pescoço do cavalo (nunca puxando-a para trás ), apenas encostando lateralmente no pescoço com o intuito dele sair desse contato sútil. Por exemplo:  se encosto a rédea no pescoço esquerdo, ele deveria sair do toque indo sentido da direita.

O fundamento

Nesse fundamento, a rédea principal é a de pescoço. Vamos usar a rédea direta apenas para complementar o uso da rédea de pescoço do cavalo. Ou seja, quando ele ficar confuso em responder para rédea de pescoço, enfatizamos com mais clareza a direção com a rédea direta, pois ela é mais simples do cavalo entender.  Também usamos a rédea direta quando o cavalo olhar para o outro lado. Por exemplo: se ao encostar a rédea

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de pescoço esquerda para o cavalo se dirigir à direita e ele olhar para esquerda, aí completo o movimento com a rédea direta direita para que ele olhe para o mesmo sentido que está indo, no caso, à direita. 

Muitas vezes, esse tipo de treinamento pode levantar a seguinte dúvida: se a rédea direta é mais simples para o cavalo entender, por que não usá-la no fundamento de guiar como a rédea principal?

Porque na equitação Western o cavalo finalizado é montado com uma mão só nas rédeas. Nesse caso é a rédea de pescoço que comunica a direção desejada.

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Então esse trabalho prepara nosso cavalo para ser montado com uma mão só nas rédeas.  Acho interessante também a abordagem da rédea de pescoço ser a principal, pois ela não encosta na boca; só no pescoço. Ou seja, é um sinal para que o cavalo aprenda a responder de forma correta ao comando do cavaleiro, sem precisar usar a rédea direta que, apesar de ser uma comunicação mais simples, vai encostar na boca do cavalo, uma região muito mais sensível do que o pescoço.

Quando o cavalo aprende a responder adequadamente à rédea de pescoço, a equitação flui muito mais por meio de sinais sutis do que de um contato direto com a boca. Isso tranquiliza o cavalo e também deixa-o muito mais atento a responder para um sinal sutil. Enfim, tudo o que queremos de um cavalo é atenção e relaxamento.

Minha parte: É preciso ser clara na minha sugestão da direção. Quando quero que o cavalo vá reto, mantenho minhas mãos sobre a região da cernelha sem encostar nenhuma das rédeas no pescoço (fotos 4a e 4b). Quando sugiro para ir à direita, por exemplo, encosto a rédea no pescoço esquerdo do cavalo (foto 5), completando com a rédea direita se ele olhar para outro lado; como expliquei acima.

 A parte do cavalo: perceber e responder a sua sugestão de direção, seja encostando a rédea de pescoço para se deslocar para os lados ou não encostando as rédeas no pescoço do cavalo sugerindo uma linha reta.

O treinamento

Primeiro faço um aquecimento antes de começar sugerir coisas para o cavalo (escrevi detalhadamente sobre isso nas edições 69,70 e 71 da Revista Horse e também no facebook  Dudirédeas). Após o aquecimento, quando considero que o cavalo está preparado fisicamente e mentalmente para o início do treino,  começo trabalhar o fundamento de guiar.

Gosto muito de usar a figura de um quadrado para iniciar cavalos e cavaleiros nesse fundamento. Começamos desenhando um quadrado no sentido à direita. Nas retas, não encosto nenhuma das rédeas no pescoço do cavalo, esperando que ele siga reto. Nas curvas à direita, encosto a rédea esquerda no pescoço, de forma que ele perceba a intenção de virar para a direita. Feito o movimento, desencosto imediatamente a rédea do pescoço, de forma que retome a linha reta até as próximas manobras, repetindo os movimentos nos quatro cantos e quatro retas.  (fotos)

Coisas que podem acontecer até o cavalo entender:

Nas retas:  Quando estou pedindo para o cavalo ir reto (sem encostar a rédea no pescoço) e ele se “desvia” para um dos lados,  permito o movimento e logo em seguida corrijo a direção para a reta proposta. Assim que retoma a linha reta, desencosto a rédea do pescoço novamente. Esse procedimento com consistência e clareza permite que o cavalo logo entenda que quando você não encosta a rédea no pescoço do lado direto ou esquerdo ele deve seguir uma linha reta (Fotos 4a e 4b).

Nas curvas: vamos supor que eu esteja fazendo os cantos do quadrado no sentido da direita. Após sair da reta do quadrado ao fazer a curva do canto podem ocorrer dois problemas:

1-     Após completar a curva, desencostar a rédea do pescoço (sugerindo uma nova reta) e ele continuar virando, trago-o para reta novamente e desencosto a rédea de pescoço, sugerindo novamente a reta. Faço isso quantas vezes necessário até que entenda que, após terminar a curva e eu desencostar a rédea de pescoço, estarei sugerindo uma reta novamente.

2-     Ao encostar a rédea de pescoço para fazer a curva do canto do quadrado e ele não sair da pressão da rédea no sentido contrário, aumento a pressão da rédea no pescoço e, se necessário, uso a rédea da mesma direção da curva para que o cavalo não olhe do outro lado. Assim que ele sair da pressão dessas rédeas eu alivio. Faço isso até que ele compreenda que quando eu encostar a rédea de pescoço esquerda é para ele sair da pressão se dirigindo e olhando para direita (Foto 5). O mesmo serve no sentido inverso. Isso vai ajudar na clareza da informação do sentido que você deseja, seja para a esquerda ou direita. 

Construir essa compreensão no cavalo é muito diferente da abordagem na qual o cavaleiro fica contento o animal o tempo inteiro para mantê-lo na direção desejada. Quando o cavalo entende, consegue responder e assumir o compromisso de ir (e de se manter) na direção desejada, até que outra direção seja proposta.

Na maioria das vezes, o cavalo sem esse tipo de treinamento não sabe o que é esperado dele. Obedece, porque tem medo, mas não está compreendendo. A resposta vinda pelo entendimento é muito mais eficiente e a margem de erro diminui muito.

O sentido de obediência é muito mais eficaz quando o comandado tem compreensão do que lhe é solicitado. Não precisa fazer nada sob a pressão do “medo”. Se o seu cavalo souber claramente o que você está pedindo, vai lhe atender. Caso contrário, vai estar sempre tenso e confuso, aumentando substancialmente a margem de erro. 

Na minha opinião, o trabalho construído pela compreensão gera respeito   e eficiência, além de ser mais interessante e digno do que o trabalho construído por meio da coerção. Para mim, trabalhar cavalo é uma arte e não vale a pena nenhuma arte que seja menor do que a vida. (Artigo publicado na edição 94 da Revista Horse)

LEIA A SEGUNDA PARTE DESTE ARTIGO AQUI

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Dudi Ometto

Treinadora de Rédeas do Projeto Doma e Zootecnista. E-mail: [email protected]

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