23-Mar-2022 15:14 - Atualizado em 23/03/2022 15:29
Crônica

Amigo é coisa pra se guardar..

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Nestes tempos árduos de pandemia, distanciamento social, longe dos carinhos e dos afetos, sofremos...todos. Fica um vazio no peito, um buraco...algo difícil de explicar. A gente sente, mas desconhece, este sentimento novo que nos violenta, nos corrói por dentro. Somos animais gregários, acostumados a viver em bando. Agora estamos sós, cada um tentando vencer seus medos, suas fraquezas... sozinho.

O universo virtual oferece um caminho capenga, que tenta suprir a ausência da presença. Mas o buraco não some. O homo sapiens precisa da presença física de seu bando, dos seus amigos, dos seus amores...Vamos vivendo um dia após o outro na esperança de como dizia Chico Buarque: “eu estou só vendo e sabendo e escutando e não posso falar, tô me guardando pra quando o carnaval chegar”.

"Somos animais gregários, acostumados a viver em bando. Agora estamos sós, cada um tentando vencer seus medos, suas fraquezas... sozinho..."

Nós que dedicamos nossa vida ao cavalo sentimos falta do contato mais próximo com esses bichos encantadores. Os veterinários, como eu, continuam atendendo, porém com o pé no freio quase que total. Os atendimentos veterinários se resumem (e assim que deve ser) a emergências. Visitas de rotina com papos intermináveis com tratadores, treinadores e cavalos acabaram. Usa-se máscara? Claro! Tem que usar! Distanciamento? Tem que se distanciar! Às vezes, nos sentimos meio ridículos com máscara quando visitamos um haras. Muitas vezes você chega lá e os peões estão sem máscara. E aí? Coloco ou não? Claro que coloca! Vou parecer fraco? Claro que não! Vai parecer que você é inteligente, consciente, comprometido com sua saúde dos outros que te cercam.

Umas semanas atrás fui fazer uma vulvoplastia numa égua Quarto de Milha e o tratador estava sem máscara. Pedi educadamente para que ele colocasse, e ele disse que não acreditava nessa coisa de máscara e que não ia colocar. Ficou aquele climão. Eu não sabia o que fazer. Precisava atender a égua, mas ao mesmo tempo não poderia me expor, nem expor ao tratador que trabalharia muito próximo de mim. Além do que estaria dando um péssimo exemplo. Somos eternos aprendizes, mas não podemos nos esquecer do importante papel de educadores que exercemos no dia a dia. É de se esperar de um médico veterinário uma postura firme de respeito à ciência. Se assim não agirmos, estamos jogando no lixo nossa formação acadêmica.

Em sendo assim, tive que peitar o tratador da égua e dizer que não realizaria o procedimento cirúrgico se ele não colocasse a máscara. Claro que não fui estúpido no conteúdo nem na forma. Delicadamente impus minhas regras e mostrei meu respeito à ciência. O rapaz mascou o freio, bufou, coçou a cabeça, mas topou. Pegou um pano velho da cocheira e amarrou no rosto, como nos filmes de bang bang. Não é o ideal, mas já é alguma coisa. Fiz o serviço e deu tudo certo. Conversamos calmamente a respeito do ocorrido numa segunda visita quando fui retirar os pontos.
Neste mesmo haras aconteceu um fato curioso, neste mesmo dia. Atendi um caso de rhodococus equi num potro de uns quatro meses. Foi uma luta violenta, braba, suada. E dá-lhe antibióticos, dá-lhe fluido e dá lhe plasma... O bicho, que era espaventado e até aquele dia não tinha sido cabresteado nem batizado, virou um cachorrinho de mansidão. Lógico, todo dia, coitado, mexendo, fuçando, enfiando o termômetro na bunda, pegando veia...o potro ficou meu amigo. Fazia meses que não nos víamos depois da alta clínica dele. Neste dia pedi pra ver o potro. Eu estava com saudades e depois descobri que ele também.

Quando cheguei no piquete e ele me viu, veio na minha direção correndo... emocionante. Primeiro me cheirou, deu umas fungadas meio ressabiado e encostou seu corpo no meu, como que num cumprimento suave de quem diz: “lembra de mim? Gosto de você, Emílio! Quero que saibas que serei teu amigo pra sempre e senti tua falta...” Isso me fez um bem danado! Poder abraçar e beijar um amigo, em plena pandemia, é maravilhoso! Loucuras ou delírios de um veterinário carente de afeto? Sei lá, pode ser! Mas que eu me emocionei, eu me emocionei! Só não tive coragem de pedir pra ele por máscara. Avaliei o risco, e curti o momento. Raro momento de contato íntimo com um bom amigo nestes tempos sombrios.

Publicada no Guia Horse 2021
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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