09-Out-2019 13:49 - Atualizado em 09/10/2019 16:15
Bem-estar animal

As aberrações de Asa Branca e as perigosas generalizações de Luisa Mell

Com câncer terminal, ex-locutor de rodeios revela seus abusos contra animais e ativista aproveita "o exemplo" para justificar suas teses

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A revista Veja publicou, na sexta-feira, 4/10, um vídeo no YouTube (veja acima ) no qual coloca o ex-locutor de rodeios Asa Branca, que enfrenta um câncer terminal na garganta, frente a frente com a ativista Luisa Mell, que mantém uma fundação contra os maus-tratos aos animais. A proposta, imagina-se, era confrontar as experiências práticas de um grande nome do segmento com a preocupação com o bem-estar animal. Não foi isso que se viu! Obviamente, não foi um debate. Foi a confissão/depoimento de um mau exemplo pessoal usado para justificar uma campanha que ganha cada vez mais espaço em todos os campos, em especial na mídia.

O ponto de partida são os rodeios, que divide opiniões dentro e fora da comunidade equestre. Há quem goste e quem não goste desse tipo de atividade. Há de se reconhecer, entretanto, que os abusos existem, como em qualquer outra área. Contra isso, é preciso adotar normas e procedimentos para fiscalizar e punir severamente os infratores. Ponto!

O encontro promovido pela Veja, entretanto, lança mais sombra do que luz sobre esse assunto polêmico, que merecia uma discussão com mais acuidade. O grande problema é que se parte de um (mau) exemplo isolado para generalizar todo o segmento, com juízo de valores distorcidos e analogias acéfalas.

As revelações de Asa Branca são verdadeiras aberrações pessoais que não podem – e não devem - serem usadas como referência. Nem para os rodeios e muito menos para as atividades com animais como um todo. Entre os absurdos narrados pelo ex-peão, diz que “sua primeira namorada foi uma potra”, que “dava uísque para um macaco de estimação” e “jogava pneus amarrados em arame farpado no pescoço do cavalo”. Indiscutivelmente, absurdos deploráveis!

Definitivamente, Asa Branca não é um bom exemplo. Ele próprio reconhece que errou muito e atribui sua doença a um “castigo divino”. “O que eu fiz com os animais estou pagando agora. O que se faz na terra, na terra se paga”, proclama. Com 57 anos de idade, o ex-locutor passou por seis cirurgias no cérebro para cuidar de uma criptococose (doença do pombo) e está visivelmente debilitado com seu câncer terminal na garganta.

A ativista Luisa Mell, por sua vez, não perdeu a oportunidade para justificar suas teses, algumas até plausíveis, é verdade, mas outras que caminham na mesma trilha dos absurdos. “Tá vendo, dizem que sou mentirosa, mas é o Asa Branca que está falando que é verdade”, disse ela, quando o assunto eram os “choques” no gado. Em outro momento, chegou a questionar o entrevistado por que “não parou de comer carne”, já que estava arrependido dos maus tratos que fez no passado aos bois (O que uma coisa tem a ver com a outra?). Também chegou a perguntar ao seu interlocutor se “queria ser o boi em outra vida”. Será que ela, Luisa Mell, gostaria de ser um de seus cachorros em outra vida? Que nível de discussão é essa? Mas vamos em frente...

O fato é que a ativista defende uma boa causa, mas com maus argumentos. O principal deles é a generalização desenfreada. Quando Asa Branca narrou suas experiências sexuais de infância com uma potra, fez o seguinte comentário: “Chama zoofilia isso. É comum um pouco no meio, né? Tem bastante, tem muitos casos”, afirmou ela. Olha só a que ponto de generalização ela chegou.

Mas de que “meio” Luisa Mell está falando? Seriam os rodeios ou todos os segmentos que desenvolvem atividades com os animais? Ela garante que não é mentirosa, “como dizem”, mas também não faz muita questão de ser mais precisa em suas críticas e acusações. Coloca tudo em um mesmo balaio, com requintes de ofensa a todos que estão agregados nessas atividades. Lamentável!    

Sim, o debate sobre maus-tratos aos animais é pertinente e deve ser colocado à mesa, mas não dessa forma. O ponto crucial da discussão é a forma como se pretende conduzir os procedimentos dentro de toda uma cadeia de atividades voltada à pecuária, esporte, lazer e entretenimento. Usar o depoimento de uma pessoa debilitada por uma doença terminal, que revela um padrão de conduta fora do normal, é tão covarde quanto espancar um animal indefeso.

Vamos elevar o nível, Luisa? Que tal um debate honesto sobre o bem-estar animal com representantes do segmento. Tem muita gente boa trabalhando nesse sentido (pode acreditar) e que pode contribuir no desenvolvimento dessa discussão, com informações que você desconhece. Suas generalizações são, no mínimo, perigosas e aviltam substancialmente a qualidade de qualquer tipo de reflexão. O dom da racionalidade, uma particularidade dos humanos, é um ótimo instrumento para encontrarmos, juntos, um mundo melhor para todos.

Ao ex-locutor Asa Branca, só nos resta lamentar o seu estado de saúde e, principalmente, suas escolhas pessoais. Nada, porém, justifica as ameaças que vem sofrendo pelas redes sociais depois de suas declarações. Menos violência, mais racionalidade!

VEJA TAMBÉM A REPORTAGEM DE VEJA SOBRE ASA BRANCA AQUI 

 

Revista Horse/Foto e vídeo reproduzido do YouTube de Veja
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