28-Abr-2021 09:52 - Atualizado em 30/04/2021 15:22
Nutrição

As doenças causadas pela má alimentação dos equídeos

Cólica, desnutrição, rabdomiólise, cara inchada e são alguns das distúrbios gerados pela alimentação incorreta

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Ao olharmos atentamente para os cavalos e observarmos com atenção seu comportamento podemos vislumbrar toda beleza e perfeição que definem esses animais. O andar, galopar, interagir, relinchar, dormir e comer são atividades que encantam quem realmente ama os equinos. Dessas citadas, um dos comportamentos mais influenciados por nós, humanos, é a alimentação. Na natureza, sem a nossa interferência, os cavalos se alimentam de gramíneas, leguminosas e, se disponível, alguns frutos. Ainda, o comportamento alimentar natural do equino é caracterizado pela ingestão contínua de alimentos fibrosos, em pequenas porções, o que permite aos equinos realizarem a fuga, em casos de predação (sim, os cavalos são presas na natureza), e também facilita sua adaptação ao ambiente onde vivem, de acordo com variações na disponibilidade de alimentos.

Quando confinamos nossos animais, seja em piquetes ou cocheiras, delimitamos sua área de alimentação, e coagimos, de alguma forma, à ingestão de alimentos concentrados, com grãos e cereais, alimentos esses que, geralmente, não fariam parte da natureza do cavalo. Assim, deixamos nosso animal predisposto a alguns distúrbios importantes, cujas causas são de origem alimentar. A seguir, cito as principais ocorrências de doenças e distúrbios causados pela alimentação inadequada dos equinos e como podemos evitá-las.

Cólicas

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As cólicas ocasionam intensa dor abdominal e podem ter várias causas
As cólicas ocasionam intensa dor abdominal e podem ter várias causas. Quando os equinos ingerem grandes quantidades de carboidratos prontamente digestíveis, como o milho e o trigo, por exemplo, pode ocorrer a fermentação desses alimentos, formando uma massa espessa e grudenta, que pode ficar estagnada no estômago ou no intestino, causando compactação e produção excessiva de gás. É importante lembrar que os equinos não conseguem vomitar, nem expelir o gás que poderia ser produzido nesses casos, assim, seu estômago, que possui um tamanho relativamente pequeno, pode se expandir e romper, levando o animal a óbito. Da mesma forma, gramíneas de péssima qualidade, que são ricas em lignina e possuem baixa digestibilidade, podem causar uma obstrução por compactação, originando a cólica. Nesses casos, a restrição de água para os cavalos também pode predispor à cólica. O correto manejo alimentar é imprescindível para os equinos. Devemos oferecer aos cavalos uma quantidade de concentrado (ração) que corresponda a no máximo, 1,5% do peso vivo, dividido em duas ou mais vezes ao dia. Além disso, essa ração deve ser específica para equinos, balanceada, contendo níveis de fibra bruta acima de 12%. Deixar sempre feno de boa qualidade à disposição dos equinos mantidos em cocheiras, e quando em piquetes, garantir que a gramínea seja adequada para seu consumo. A água de beber deve ser limpa e estar disponível ao equino todo tempo.

Desnutrição

Todo cavalo, ao ser utilizado para qualquer finalidade (esporte, trabalho ou reprodução) deve receber nutrição adequada, que supra suas necessidades nutricionais. A ingestão de gramíneas de baixa qualidade, ou rações inadequadas, predispõe os equinos à desnutrição, levando à queda no desempenho, perda de peso corporal e baixa taxa reprodutiva. Ainda, um programa alimentar ineficiente, com falta ou excesso de alguns nutrientes também pode levar a falhas nutricionais. A suplementação com sal mineral específico para equinos é indispensável para animais atletas e para reprodutores, uma vez que a deficiência de alguns minerais importantes, como selênio, por exemplo, pode desencadear em baixo desempenho reprodutivo. Assim, devemos disponibilizar aos cavalos sal mineral de boa qualidade, sendo que em alguns casos específicos, podemos fazer a ingestão forçada do sal, adicionando a quantidade recomendada de ingestão diária junto com uma porção da ração. Animais que desempenham atividade diária e intensa devem ser nutridos de acordo com suas necessidades, para que sua resposta ao exercício seja a melhor possível.

Rabdomiólise

Não é raro vermos cavalos com sobrepeso atualmente. Com a intenção de agradar seus animais, muitos proprietários fazem uso de uma dieta rica em petiscos, como cubos de açúcar, por exemplo, e ainda, acabam exagerando na ração.

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Animais obesos, além de sobrepeso, podem ter a doença conhecida como a rabdomiólise
Geralmente esses animais vivem encocheirados durante a semana, fazendo apenas exercícios nos fins de semana. Nesses animais, além de sobrepeso, é comum ocorrer uma doença conhecida como “mal da segunda-feira”, a rabdomiólise. Ela ocorre em equinos mantidos em repouso e alimentados com grande quantidade de concentrado, sendo esses esporadicamente forçados a fazer um esforço físico além de sua capacidade. Ocorre então um acúmulo de ácido lático na musculatura causando dor, rigidez muscular, incoordenação e tremores musculares, que podem progredir até chegar ao decúbito, onde primeiramente o cavalo adota uma posição de “cão sentado”. Alguns cavalos acometidos gravemente pela rabdomiólise podem ter recidivas mesmo depois de terem se exercitado de forma leve. A prevenção dessa doença consiste em fornecer uma dieta predominantemente composta por volumosos (frescos ou fenos) e ainda suplementar os equinos com selênio e vitamina E, previamente prescritos por um profissional nutricionista. Fazer caminhadas diárias, de pelo menos 30 minutos, também diminui muito a ocorrência dessa doença.

Doenças ortopédicas do desenvolvimento (DODs)

As DODs são doenças que acometem os potros. Geralmente o início do treinamento desses animais, que ainda estão em desenvolvimento, associado a uma nutrição inadequada, podem acarretar em um desequilíbrio no processo de crescimento ósseo. Essas doenças comumente acometem os potros que não recebiam ração específica enquanto estavam com as mães, em período lactente. Também, níveis adequados de cálcio e fósforo são essenciais para a mineralização e crescimento normais dos ossos. Por isso, para se evitar as DODs o ideal é oferecer ao potro ração específica a partir da primeira semana de vida; para tal, o uso do creep feeding é indispensável durante a lactação. Ao iniciar os potros nos exercícios, devemos fazer de forma leve e contínua, respeitando a fisiologia do animal.

“Cara inchada”

Algumas pastagens ricas em oxalatos, que são compostos presentes em algumas gramíneas, podem fazer com que ocorra desequilíbrio entre cálcio e fósforo da dieta. Pastagens exclusivas de Braquiaria humidicola e outras espécies de braquiária, também o Panicum maximum cultivar Aruana, contêm níveis consideráveis desse elemento. Assim, nos equinos, a ingestão inadequada de cálcio, ou o consumo demasiado de fósforo ou oxalato, reduzem a concentração plasmática do cálcio, o que pode ocasionar o hiperparatireoidismo nutricional secundário, conhecido como “cara inchada”. O principal sinal dessa doença é a aparência de inchaço da face, alguns animais podem apresentar ainda claudicação e caquexia. A prevenção da “cara inchada” consiste em promover a suplementação com sal mineral específico para equinos, contendo, de preferência, o cálcio na forma quelatada, que apresenta uma maior digestibilidade.
Enfim, promover o correto manejo alimentar dos equinos é sempre o melhor caminho na prevenção de doenças causadas pela nutrição inadequada. Cada fase de vida do cavalo deve ser respeitada, sendo que, para cada uma delas, há uma exigência nutricional específica. (Artigo publicado na edição 90 da Revista Horse)

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Sabrina Funari

Sabrina Funari

é Zootecnista graduada pela FZEA/USP
e-mail:[email protected]

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