09-Mar-2021 18:49 - Atualizado em 11/03/2021 11:03
Horse Debates Equestres

Brasil tem herpes equino desde 1966

Revelação foi feita pelo diretor do MAPA, Geraldo Moraes, durante debate da Revista Horse que discutiu os reflexos do surto do vírus EHV-1 no continente europeu

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A primeira edição da temporada 2020 da série "Horse Debates Equestres", realizada na noite de segunda-feira (8/3), com o tema "O surto de herpes equino na Europa e seus reflexos no Brasil", trouxe à tona pontos importantes sobre o herpes equino EHV-1. O vírus que virou notícia há pouco mais de 15 dias, depois de contaminar mais de 80 animais e levar a óbito oito deles, em Valência, na Espanha, já existe há mais de cinco décadas e está presente inclusive no Brasil, onde foi identificado e registrado pela primeira vez em 1966, em Campinas, no interior de São Paulo.

A revelação foi feita pelo diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Geraldo Marcos de Moraes, um dos participantes do debate, juntamente com o diretor técnico da Dechra Brasil, Luís Eduardo Ferraz, e o treinador de cavalos Leonardo Rauscher, que reside na Bélgica e falou direto de Vejer de la Frontera, na Espanha, onde participava de uma das provas europeias canceladas justamente para evitar a proliferação do surto. A mediação do "Horse Debates Equestres", que terá novas edições todas as segundas-feiras, foi do jornalista Marcelo Mastrobuono, editor da Revista Horse

O diretor do MAPA explicou que já adotou uma série de medidas para evitar que animais contaminados cheguem ao Brasil, adotando um protocolo especial para as importações, elaborado em conjunto com a Câmara de Equideocultura do MAPA . Segundo ele, o risco de uma transmissão por animais importados é praticamente zero, sendo que mesmo antes do surto no continente europeu já existia um protocolo que exige quarentena dos animais e uma séria de medidas preventivas. Moraes também afirmou o Ministério já articulou com os os países vizinhos medidas de controle e prevenção, evitando que vírus entre pelas fronteiras secas. Segundo ele, foi aventada a possibilidade de fechar a importação de equinos, mas todos entenderam que seria uma medida desnecessária. “Entendemos que era uma medida muito drástica, tínhamos outros mecanismos de mitigação de riscos que poderiam ser adotados”, explicou.

O surto

O brasileiro Leonardo Rauscher, que continua em Vejer de la Frontera, na Espanha, esperando condições para voltar à Bélgica com segurança, fez um relato do drama vivido pela comunidade hípica nessas últimas semanas. “Recebemos a notícia de que alguns cavalos de Valência estavam doentes. O pessoal daqui ficou com receio dos cavalos saírem de lá e virem para Vejer, o que ocorre naturalmente. Aí os organizadores de Vejer fizeram uma área de quarentena, onde colocaram os cavalos que vinham de fora”, explicou, lembrando que chegou a Vejer em meados de fevereiro, para participar do XXVII Sunshine Tour (evento equestre), que iria de 9 de fevereiro e 28 de março. O brasileiro lembrou ainda que em Valência o local é muito acanhado, com os cavalos muito próximos um dos outros e não conseguiram separar os que estavam doentes dos demais, gerando uma espécie de criatório do vírus. 

Leonardo afirmou que as provas de Valência, o surgiu o surto, reúne cavaleiros de várias partes da Europa, que chegam a percorrer longas distâncias, chegando a levar mais de três dias na estrada. Segundo o diretor técnico da Decra Brasil, o veterinário Luis Eduardo Ferraz, isso pode ser uma das possibilidades do surto de EHV-1, que costuma atingir animais quando estão com a imunidade baixa. "O longo período de transporte na estrada pode ter criado um situação favorável ao vírus", apontou, destacando que o fato de os animais ficarem muito próximos uns dos outros, como relatado pelo Leonardo, também facilitou a transmissão em grande escala.

Ferraz ressaltou que, muitas vezes, os animais são portadores do vírus de forma latente, sem sinais clínico, o que impossibilita ser identificado. “Para identificar um animal latente é muito difícil, tem que fazer quase uma biopsia do nervo trigêmeos, é muito complicado. Um animal desses passa por uma viagem um pouco mais estressante, chega num concurso onde a baia é pequena, a temperatura não está legal. Ou seja, uma série de conjunções que podem levar à queda da imunidade, começa a ter uma viremia e a eliminar o vírus”, explicou, referindo ao que pode ter ocorrido em Valência.

Prevenção  

Ferraz afirmou que a melhor forma de evitar a proliferação do vírus é o isolamento, juntamente com medidas preventivas, como a vacinação. Ele lembrou que, embora a vacina contra o EHV-1 não seja 100% eficaz para esse tipo de variante da cepa do herpes equino, ela ajuda a diminuir o efeitos e o grau de transmissibilidade.

O médico veterinário destacou que o EHV-1, o herpes equino possui algumas variantes: o tipo 1, está ligado a aborto em éguas, doença respiratória, natimorto, doença neonatal em potrinhos e também tem a forma neurológica; o herpes 2, 4 e o 5, que normalmente estão associados ás doenças respiratórias; o herpes tipo 3 está ligado a doença venérea, conhecido como o herpes genital.

Durante suas exposição, o diretor da Dechra também explicou o que é o vírus do herpes equino, suas variantes, sintomas, possibilidades de tratamento e a importância da vacinação, que mesmo não sendo obrigatória é fundamental não apenas para prevenir o herpes equino, mas como muitas outras doenças. Nesse sentido, fez um alerta importante, lembrando que os índices de vacinação de equinos no Brasil são baixíssimos, não chegando nem a 5% do rebanho de equídeos nacional. "Isso considerando a vacinação de tétano, que deveria ser feita em todos os animais", destacou.

Ferraz afirmou ainda que o herpes equino é uma doença muito preocupante e que tem um fator complicador: o animal que desenvolve a doença que tem contato com o herpes, se torna portador para o resto da vida. “Esse vírus fica latente no organismo do animal e pode se manifestar diante do estresse, da queda da imunidade. Complica porque você não consegue evitar que o vírus se mantenha na população de equinos”.

VEJA, ABAIXO, A ÌNTEGRA DO DEBATE

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