07-Jan-2021 14:05 - Atualizado em 13/01/2021 11:35
Treinamento

Cavalos não usam relógios

"Há um tempo certo para cada coisa” (Eclesiaste)

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Entra ano, sai ano e ouço, constantemente, a mesma pergunta: “Em quanto tempo meu cavalo ficará “pronto”? Quanto tempo demandará para que ele faça este ou aquele exercício?“

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Minha resposta também é sempre a mesma: não sei, depende de vários fatores! Aliás, complemento a minha resposta com uma famosa frase dita por Napoleão Bonaparte que gosto muito: “Deixe-me ir devagar porque tenho pressa”.
Passamos muito tempo de molho no culto à velocidade, afirma Carl Honoré, escritor e um dos promotores do slow movement. Não tenho interesse em dissertar detalhadamente sobre o referido movimento, mas pretendo chamar a atenção para a corrida de obstáculos sob o cronômetro em que, hoje “mais do que nunca, o indivíduo moderno vive submergido e escravizado”.
Rubem Alves, em uma de suas crônicas, fala-nos da diferença existente entre “Kronus” e “Kairós”. O primeiro é o tempo que marcamos através dos relógios, do calendário. Kairós é um tempo sem medida, tempo em que sentimos e atuamos através da nossa sensibilidade. Já lhe ocorreu, ao menos uma vez na vida, estar em uma atividade tão prazerosa, que se assusta quando a noite cai e você nem se lembrou de quantas horas esteve ali, nem sentir o tempo correr, sem necessidade de se alimentar?
E o contrário? A atividade era tão enfadonha e desinteressante - talvez estressante - que as horas pareciam não passar. Então, tudo é relativo, inclusive o tempo.
Como diziam nossos pais e avós: “A pressa é inimiga da perfeição”. Ela tem sido o motor de todas as ações e a ansiedade pela busca de resultados envolve a nossa vida acelerando-a, rendendo culto a uma velocidade que não nos faz ser melhores, nem a quem nos cerca nem tampouco aos nossos cavalos.
Cavalos não usam relógios e, na verdade, o ideal seria que fizéssemos o mesmo. O relógio vital de todos os seres vivos chama-se Kairós: o tempo contado pelas batidas do coração. O artigo está parecendo um tanto quanto filosófico, mas posso lhe garantir que é absolutamente real. O tempo de aprendizado de cavalo é individual. Cada um tem o seu próprio ritmo no processo de evolução. É necessário considerar fatores como a genealogia, uma história particular e única, formada por sua estrutura biológica e psicológica. Além das qualidades e deficiências morfológicas, aptidões naturais etc.
Quando iniciamos um trabalho temos um rumo, um norte chamado princípios da equitação acadêmica. Princípios estes que seguem uma escala lógica e sistemática de treinamento. Começamos pela base desta escala e seguimos degrau a degrau. A questão é que não existe receita pronta e, por este motivo, não há como precisar um tempo exato para cada degrau, para a consolidação de cada aprendizado. Vale lembrar que, sobre o cavalo, você se integra a ele, por isso, é chamado “O CONJUNTO”. Até que se forme um conjunto harmonioso, há de considerarmos a individualidade. E cada um precisa de um tempo específico para passar para uma etapa mais avançada. Lembre-se: seu cavalo pode até estar executando um movimento proposto, mas isso não quer dizer necessariamente que ele está “maduro”, consolidado, consistente.
Sugere-se como ponto de partida, a elaboração de um programa de treinamento que estabeleça objetivos. Olhando para ele e com base nos princípios que norteiam a boa equitação começaremos a construir uma obra de arte.
É fundamental o respeito ao ritmo de aprendizagem de cada cavalo, sendo necessário buscar estratégias que venham melhorar o desempenho daqueles que apresentam evolução mais lenta. Muitas vezes a lentidão vem associada com valores negativos. Letargia e desinteresse são dimensões que não recolhem os efeitos benéficos de uma atitude pausada, bem razoável e segura.
Há poucos dias numa conversa informal com um amigo cavaleiro, lembramos de um cavalo que está comigo há alguns anos. Ele acompanhou todo o desenvolvimento dele e há dois anos o comparávamos a outros cavalos da mesma idade que estavam com outros treinadores. Naquele comentário, meu amigo falava o quanto os jovens cavalos dos outros treinadores estavam “evoluídos”, fazendo mudanças de pés e, até mesmo, complexos movimentos de reunião. Enquanto ele falava eu pensava: COMO serão executados esses exercícios? Como foram solicitados? Será que esses jovens cavalos foram bem preparados, física e emocionalmente? Executam os exercícios com maestria e beleza? Após dois anos dessas reflexões e na oportunidade de uma nova conversa convidei o meu amigo para ver o cavalo que eu treinara, aquele que parecia “atrasado” em comparação a outros da mesma idade. Após assisti-lo, ele me disse: - “pois é, seu cavalo já está bem mais adiantado do que aqueles sobre os quais conversamos e aqueles parecem que não saíram mais do lugar. Estacionaram!”. O povo sabe o que diz: “O apressado come cru”. (Artigo publicado na edição 83 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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