04-Nov-2020 09:12 - Atualizado em 04/11/2020 11:46
Crônica

Cavalos que falam

Nós seres humanos somos muito cabeças-duras e vivemos querendo provar a nós mesmos e aos outros que nos rodeiam que estamos certos

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Nós seres humanos somos muito cabeças-duras e vivemos querendo provar a nós mesmos e aos outros que nos rodeiam que estamos certos, que nosso caminho é o correto, que somos donos da verdade. Isto é ridículo! Não somos donos da verdade porcaria nenhuma, não sabemos quase nada desta vida, somos uma espécie medíocre e metida. O pior é que nos transformamos num bando de infelizes, sempre querendo mais e mais, insatisfeitos com nós mesmos e com a vida que levamos.

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Observe que quando você desfruta do convívio com outras espécies, sua vibração melhora, você para de pensar merda, foca na magia que o outro bicho te oferece e se sente melhor, menos deprimido, triste, na fossa. É só tentar: desplugue-se do seu próprio umbigo e se conecte em outra espécie animal. Eles têm muito a nos oferecer e ensinar. Fiquei sabendo que eles até conversam com a gente!

Cavalos, por exemplo, fazem mágicas com nosso cérebro. Tenho viajado bastante, atendendo aqui e acolá, dando assistência veterinária por este mundão velho sem porteira. Semana passada, eu tomei uma surra de um pequeno menino especial. Eu estava mau humorado, cansado, dando coice até na sombra, p. da vida com a minha vida medíocre. Tudo muito ruim. Trabalhar, chegar em casa, assistir televisão, ir dormir e repetir tudo no dia seguinte.

Então, voltando à surra. Estava na clínica e me apareceu um senhor empurrando um menino numa cadeira de rodas. O menino devia ter uns 8 anos, usava uma boina cinza, perninhas cruzadas e as duas mãos para fora de um pequeno cobertor vermelho que o cobria parcialmente. Na realidade, as mãos eram deformadas, machucadas, surradas por uma grave patologia e pelo seu breve tempo de vida. Mas o incrível disto tudo é que ele trazia um lindo sorriso estampado no rosto. Olhou pra mim com um papelzinho de rifa (daqueles que trazem nomes impressos) e me ofereceu um número para concorrer a um bolo que a mãe dele fez. Custava R$ 5. Ele me disse que o bolo da mãe era uma delícia, recheado com goiabada. Perguntei por que ele estava vendendo a rifa. Ele me respondeu que queria comprar um cavalo. E complementou: “Fiquei sabendo que tem um “homi” que tá vendendo um cavalinho pro véio do frigorífico, pra fazer linguiça; Ele pede R$ 300. Ele tá todo machucadinho, que nem eu, mas num concordo que o cavalinho deve terminar a vida assim. Então, resorvi compra”, disse.

Então, perguntei se ele iria montar. Ele respondeu que não, só queria ter alguém para conversar, para ser seu amigo e companheiro. Depois complementou que os cavalos têm muito para nos ensinar, basta olhar em seus olhos e prestar atenção, pois eles ‘falam’ e ainda me perguntou se eu nunca falei com cavalos. Respondi que não, nunca consegui e tentei a vida toda, mas sou muito imbecil, ignorante e insensível para entender as mensagens que os cavalos nos transmitem.

A rifa de R$ 5 que ele estava vendendo tinha 60 números, ou seja, R$ 300. O mínimo que o medíocre aqui poderia fazer era arrematar todos para que o menino comprasse seu amigo e foi o que fiz, morrendo de vergonha. A minha atitude parece, num primeiro momento, ter sido magnânima, mas com certeza não chega sequer aos pés da atitude do menino na cadeira de rodas e do seu cavalinho. Muito a aprender e a ouvir. Continuava incrível o lindo sorriso estampado no rosto desta criança mais do que especial. Para refletir! (Artigo publicado na edição 78 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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