10-Ago-2020 09:24
Crônica

Comer, a melhor coisa da vida

Sou um cara glutão, sempre fui. Adoro comer e como qualquer coisa. Frescura zero.

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Cronica 68
Sou um cara glutão, sempre fui. Adoro comer e como qualquer coisa. Frescura zero. Gosto de arroz e feijão, mas também experimento comidas exóticas de qualquer espécie ou origem. Ontem, por exemplo, estava em um haras de Puro Sangue Inglês, batendo papo com a peãozada após o serviço e eles me deram uma caixa de ovos caipiras dentro de uma caixa de pentabiótico de presente. Sabe né? Aqueles ovos ainda meio melecados de secreção de cloaca. Não tive dúvida. Peguei uma caneta e fiz um furinho de cada lado para chupar o conteúdo. Hum, que delícia.
Para quem não experimentou, eu recomendo. Pode transmitir doença? Claro que pode, então, cuidado. Embora, eu não esteja nem aí para o barulho. Mudando de trote pra galope (expressão que aprendi ontem, tipo, mudando de pato a ganso), meu avô paterno foi quem me ensinou a apreciar esta iguaria que é chupar ovos crus. Quando morava no Bexiga, em São Paulo, e tínhamos pouca grana, meu avô montava nossa árvore de natal. Os ovos, após coloridos com guache, faziam o papel de bolas decorando nossa árvore da sala.
Já ‘assaltei’ muito ninho em fazenda (às vezes escondido) para chupar ovo e tapear a fome. Estou bem acima do peso e é lógico que meu problema é excesso de comida. Como muito e topo qualquer coisa. Gosto daquelas pessoas que comem uma saladinha, tomam um suquinho e ficam satisfeitas. Na realidade, morro de inveja. No fim de semana passada fui fazer um passeio a cavalo e precisei de um banquinho pra subir. Melhor explicar senão vão ficar me zoando. Era um exemplar da raça Orloff, de 1,70m, de cernelha! Era um gigante. E o velho barrigudo aqui tentou, tentou, mas pediu pinico.
Voltando ao assunto, comer é o maior prazer da minha vida! Tem gente que tira sarro de mim pela minha preferência pela comida, mas sempre fui assim, desde a adolescência. Como enormes porções, duas vezes ao dia, sendo que a última é a meia noite. Sei que o certo é comer porções menores, mais vezes por dia. Isso também serve para a alimentação dos cavalos, mas a maior parte dos tratadores dos haras seguem o meu padrão de dieta. No entanto, o certo é dividir o trato em três ou mais vezes. O problema é que esbarramos nos horários de serviço da peãozada. Quem vai convencer o tratador de levantar as 10 da noite pra dar uma concha de concentrado? É difícil. No entanto, atendo um haras de Gypsies que fornece o trato em pequenas porções de duas em duas horas.E é isto que eu devia fazer. Comer pouquinho varias vezes ao dia feito um Gypsy Horse.
Falando em comida quero dividir uma dúvida que ronda minha cabeça e gostaria de ouvir opiniões: em uma viagem à Itália, mais especificamente a Pádova, eu, minha mulher e amigos fomos comer uma pizza. Para minha surpresa, abrindo o cardápio, uma das pizzas oferecidas pela Tratoria era de carne de cavalo. Fiquei literalmente de boca aberta. Todos nós já ouvimos falar que se come carne de cavalo, que vai na mortadela, não sei mais aonde etc, mas ficar frente a frente com uma é outra coisa.Sei que quando vi escrito pizza de carne de cavalo, meu espírito aventureiro pensou em pedir uma por curiosidade, mas afinei, não tive coragem. Acho que foi um misto de repugnância e respeito pelo bicho.
Alguém dirá que ”é cultural”; sim eu sei que é cultural, assim como comer escorpião é cultural e eu já experimentei e adorei. Passeando pela terra de Santo Antônio, discípulo de São Francisco de Assis, vi diversos açougues de luxo vendendo carne de cavalo. O que me deixa em dúvida e gostaria de dividir com vocês é a pergunta que se no Brasil não deveríamos consumir carne equina de forma a buscar mais uma alternativa para o combate a fome neste país paupérrimo. Somos todos contra o consumo de carne equina. Eu, com certeza. A verdade é que o glutão aqui, que raspa o prato e come de tudo literalmente, se negou terminantemente a comer carne de cavalo. Cabe uma reflexão, difícil, polêmica mas cabe uma reflexão. (Artigo publicado na edição 68 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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