28-Set-2020 11:20 - Atualizado em 28/09/2020 11:58
Treinamento

Como ajustar a embocadura

É preciso medir o tamanho para cada cavalo e checar se ela está bem encaixada no formato da boca

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Horse

Nas colunas anteriores, fiz referências aos tipos, ações e efeitos das rédeas. Olhando ainda mais para trás, escrevi uma coluna sobre o uso correto das mãos, considerando-as como essenciais para a prática da boa equitação.
As mãos comunicam-se com o cavalo por meio das rédeas  sobre as quais funcionam como um meio de ligação entre a intenção do cavaleiro e a boca do animal, chegando a ela por meio da embocadura utilizada. É exatamente sobre a maneira como esta embocadura atua dentro da boca do cavalo que falarei um pouco nesta coluna.
É de suma importância obtermos o máximo de conhecimento acerca de todos os itens, elementos e ajudas que utilizamos na convivência com os animais. Tornarmo-nos responsáveis por eles é motivo suficiente para estarmos em constante aprendizado e mantermos em alta o nosso nível de curiosidade e interesse.
A embocadura fica quase totalmente escondida dentro da boca do cavalo, mas você conhece as suas ações e efeitos? Esteja certo de que o seu cavalo os conhece bem. Ele lhe dirá claramente como está recebendo seus estímulos e como as suas mãos estão “conversando” com ele.

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Treinamento 71
Nesta coluna, vou falar especificamente sobre o bridão. Esta embocadura é amplamente utilizada em praticamente todas as atividades e modalidades e, principalmente, quando se trata de cavalos jovens. O bridão possui um bocal linear formado por juntas articuladas. Há uma grande variedade de tipos de bridões, mas essencialmente sua estrutura básica é praticamente a mesma, com exceção de algumas modificações relacionadas aos formatos e articulações. De todas as embocaduras existentes, o bridão é considerado o mais brando. Entretanto, quanto mais fino ele for, mais severo ele pode ser.
Segundo as regras de Adestramento Alemã, a espessura mínima para um bridão é de 10mm. Obviamente, qualquer embocadura deve ser utilizada com conhecimento e habilidade. Pode ser maciço ou oco a fim de diminuir o peso e podem ser confeccionados de diversos materiais que proporcionam maior salivação como o cobre e o ferro, por exemplos. Particularmente eu prefiro utilizar os bridões médios, dividido em três partes (Foto 1 e 2). É preciso medir o tamanho da embocadura para cada cavalo e checar se ela está bem encaixada no formato da boca. O local onde a embocadura permanece dentro da cavidade oral chama-se barras. Elas estão localizadas entre os dentes da frente (incisivos), que servem para puxar o alimento, e os dentes de trás (pré-molares) que servem para triturá-los.
É fundamental que o cavalo passe por intervenções periódicas do veterinário-dentista a fim de verificar se há presença de dentes de lobo, que, quando tocados pelo bridão causam um grande incômodo e mesmo dor. Se isso acontece, o cavalo pode reagir levantando a cabeça, balançando-a ou indo contra a mão do cavaleiro. De toda forma, o veterinário-dentista irá verificar também a presença de outros problemas odontológicos, assim como pontas e lâminas que são comumente encontradas e devem ser aparadas objetivando conforto, saúde e bem-estar.
Atenção à altura da embocadura quando for colocada. Em geral, costumo falar que o cavalo deve manter um “leve sorriso”, ou seja, poderá ter uma ou duas rugas em cada canto da boca. Contudo, o ajuste da embocadura dentro da boca não é apenas uma questão de quantidade de rugas. Talvez o encaixe perfeito para determinado cavalo não tenha necessariamente nenhuma ruga. Sob o ponto de vista anatômico, cavalos possuem tamanhos e formas diferentes de boca e, por este motivo, algumas embocaduras podem ser mais confortáveis para uns do que para outros. Considere, portanto, a largura, a espessura e a forma do bocal. Um exemplo disto é o mesmo tamanho do sapato de duas pessoas. Elas podem ter o mesmo tamanho dos pés, mas nem sempre o mesmo sapato é confortável para ambas. É preciso considerar o fator da individualidade nesse e em outros aspectos. Procure olhar dentro da boca do seu cavalo, levantando os lábios e verifique se a embocadura está bem “sentada” em ambas as barras, não posicionada muito baixo e não tão alta a ponto de encostar nos dentes. É importante que ela esteja posicionada de maneira equilibrada, ajustando-se no centro.
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O bridão é amplamente utilizado em praticamente todas as atividades e modalidades e, principalmente, quando se trata de cavalos jovens
Mais importante que a embocadura em si são as mãos de quem a conduz. E é exatamente esta condução que construirá um bom ou mau contato. Uma boa mão é comunicativa, leve, porém, firme. Firme não quer dizer pesada e sim bem apoiada nos braços e punhos, independentes do assento. Se o seu cavalo estiver bem trabalhado, compreendendo e recebendo as suas ajudas, a pressão exercida sob a embocadura, chamada de contato, deverá provocar um efeito que, ao ser recepcionada pela boca do cavalo, deverá se propagar por toda extensão da coluna, chegando até a última junta dos posteriores. Este efeito de propagação das ações das mãos do cavaleiro sob o corpo do cavalo como um todo, em geral é perceptível nos níveis mais intermediários de ensino. Contudo, quando inicio um jovem cavalo, após obter as ajudas de direção com regularidade, ritmo e descontração, busco as qualidades que desejo num bom contato: consistente, simétrico, leve e elástico. De acordo com a FEI contato é “a maneira constante, suave e flexível como o cavalo se instala na mão do cavaleiro“.
É impossível falar das mãos sem citar a importância do assento independente. Equitação é uma arte interconectada, onde cada elemento depende do outro. Não podemos considerar as ações das mãos, sem considerarmos o assento e as ações das pernas, mas estes são outros capítulos... Acho que por isto a equitação é tão instigante: quanto mais estudamos, mais somos estimulados a aprender e a nos aprimorar. E a cada cavalo novo que chega, começa tudo outra vez... (Artigo publicado na edição 71 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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