25-Jul-2016 08:45

Como os cavalos nos veem

São essas razões que me levam sempre a insistir que o mais difícil é aprender como cavalo pensa e, mais ainda, como ele vê o mundo.

Depois do advento chamado Horsemanship Natural, muito se fala a respeito da psicologia do cavalo. Como ele opera sua própria vida e também que sua linguagem é feita de expressões corporais e sensações. São essas razões que me levam sempre a insistir que o mais difícil é aprender como cavalo pensa e, mais ainda, como ele vê o mundo.

     Sempre menciono que os predados são orientados pelo instinto de auto preservação. Nos cavalos isso é ainda mais aguçado, porque ele não tem nada para se defender, a não ser as patas para escapar. Por terem os olhos posicionados ao lado da cara, sua maneira de ver é chamada de mono visão, isto é, conseguem ver uma coisa com o olho direito e outra com o olho esquerdo.

     Portanto, estamos montando um animal que escapa e que tem uma visão completamente diferente da nossa. Daí a importância de compreender a respeito de como o cavalo vê e a sua tendência de escapar, impacta a sua maneira de aprender.

     Outro aspecto importante é que não podemos acreditar que a atitude do cavalo de “não fazer o que estamos querendo” seja pessoal. Precisamos aprender a tirar o “Ego” da frente. Precisamos ensiná-lo a não ter a necessidade de escapar, mas sim procurar pelo alívio. Assim que o cavalo percebe essa nova situação, já posso dizer que estamos com meio caminho andado.

     Quando baseamos o nosso programa de trabalho nas maneiras de como o cavalo reage ao treinamento, isto é, em como ele enxerga e pensa, fica muito mais fácil para ensinarmos a ele qualquer coisa que quisermos.

     Mas, ainda existe outra dificuldade, talvez a maior e mais complexa delas. A chave de todo o sucesso do treinamento está em como o treinador usa a sua “sensibilidade, timing e bom senso”. Acertar o timing do alívio é que faz toda a diferença.

     Aqui uns exemplos bem práticos. Muitas vezes quando colocamos uma pressão nas rédeas, nosso cavalo joga a cabeça para cima. Isso significa que ele está resistindo à pressão. Se aliviarmos as rédeas nesse momento, como é que ele vai aprender a procurar pelo alivio? É claro que é jogando a cabeça para cima. Essa é uma das maiores responsabilidades do cavaleiro, porque nos cavalos, a partir de três experiências estamos construindo um hábito.

     Se aliviarmos as rédeas quando o cavalo levanta a cabeça por três vezes, ele vai entender que é exatamente isso que queremos que ele faça. Na verdade, qualquer coisa que o cavalo aprenda primeiro é para lá que ele vai quando se assusta ou fica com medo.

     A técnica da pressão e do alívio precisa ser colocada gradualmente. O cavaleiro precisa estar atento (sensibilidade) para perceber quando o cavalo está escapando da pressão, quando ele está procurando pelo alívio.

     Por exemplo: quando o meu cavalo começa a compreender que aquela pressão não é para ele ir para frente, e sim para ele arquear o corpo e mudar de direção, ele está começando a compreender o significado do treinamento. Assim como quando coloco uma pressão nas rédeas ele sai daquela pressão abaixando a cabeça, cedendo suavemente e colocando uma flutuação nas rédeas.

     Acredito que uma das maiores lições que recebi na minha vida tenha sido em 1978, quando estava no Atlasta Ranch, trabalhando para o Joe Moreno Jr.

     Estava trabalhando um cavalo muito lerdo, disperso e sem sensibilidade nenhuma para sair da pressão das minhas pernas. Um dia estava dando uma volta fora do Rancho e como não conseguia a sua atenção, perdi a paciência e abusei do uso das esporas e do chicote. O cavalo ficou exausto e continuou lerdo e desatento. Quando voltei, o Joe me chamou e perguntou qual tinha sido a razão que me fez decidir por aquele procedimento. Respondi: “a gente não tem que mostrar quem manda?”. “Não”, disse ele, “temos que deixá-lo na dúvida”. E completou colocando dois pontos extremamente importantes: “Se precisarmos, por qualquer razão, esquentar a sessão, é muito importante ficar com o cavalo até que ele retome a respiração e o suor comesse a secar, e mais importante, o cavalo percebe rapidinho que em casa, se ele não fizer o que você quer, ele apanha. Mas lá no show ele percebe que você não é o mesmo. Lá você está constrangido, inibido e não pode espancá-lo. Não precisa de mais de três competições para ele perceber isso. Ai você já está sem cavalo, porque em casa ele vai fazer tudo, mas quando chega lá ele vai te dar o troco.”

     Foi ai que compreendi que cada cavalo é um individuo único, como cada um de nós e que o verdadeiro respeito é justamente conseguir elaborar um programa sob medida para cada indivíduo.

Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

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