25-Jul-2016 09:44

Como prevenir as dermatofitoses

Algumas medidas, como alimentação e manejo correto ajudam a prevenir as dermatofitoses nos animais

As dermatofitoses, também conhecidas como tricofitoses ou “tinhas”, são as micoses cutâneas mais encontradas nos animais domésticos e humanos, podendo ou não causar prejuízos econômicos. São causadas por um grupo de fungos filamentosos, que, em geral, não invadem o tecido subcutâneo, ficando suas infecções restritas aos extratos queratinizados da pele e anexos, permanecendo na superfície da pele.

Na espécie equina, a pele corresponde de 20  à 25% do peso corporal do animal, e apresenta as funções de proteção contra agentes físicos, químicos e microbiológicos, manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico, bem como do armazenamento de lípideos, água, carboidratos proteínas e vitaminas. Também funciona como órgão sensitivo, e atua na regulação da temperatura. Sendo assim, uma patologia que afeta a pele do equino, é um problema que afeta o animal como um todo.

Os agentes causadores das dermitofitoses podem ser classificados em três gêneros: Epidermophyton, Microsporum e Trichophyton. E esses ainda possuem cerca de 40 espécies.

Os animais assumem importância zoonótica, pois atuam como reservatórios destes agentes que são considerados zoofílicos, ou seja, que infectam preferencialmente animais, mas podem acabar infectando o homem.

Os fungos Trichophyton equinum var. equinume, Trichophyton equinum var. autotrophicum, têm como hospedeiro natural os equinos. Embora esta espécie de dermatófito seja a principal causa da dermatofitose equina, outras também podem estar envolvidas, assim como Microsporum equinum, Microsporum canis, Microsporum gypseum, Trichophyton mentagrophytes e Trichophyton verrucosum.

 

Outras características do agente

A doença nos equinos apresenta distribuição mundial, porém é particularmente comum em regiões úmidas, quentes ou quente/úmidas. No Brasil, a enfermidade foi diagnosticada pela primeira vez em equinos no estado do Rio Grande do Sul. Tendo hoje surtos nos estados de São Paulo e Minas Gerais e região nordeste do país.

 

Patogenia da doença

Quando os esporos fúngicos entram em contato com a pelagem, pode ou não ocorrer infecção. Os esporos podem ser mecanicamente removidos, podem ser incapazes de competir com a flora normal da pele ou permanecem na pelagem em estado dormente até que haja condições ideais para infecção.

Os fungos atacam principalmente os tecidos queratinizados, em particular o estrato córneo e os pelos, levando à autólise (morte) das estruturas fibrosas, à fragmentação dos pelos e à alopecia. A exsudação oriunda das camadas epiteliais invadidas, os restos epiteliais e as hifas produzem as crostas secas características da doença. As lesões progridem quando há condições ambientais favoráveis ao crescimento micelial, como atmosfera quente e úmida e pH da pele ligeiramente alcalino.

Tais fungos são aeróbios estritos e morrem sob as crostas no centro da maioria das lesões, ficando ativa apenas a periferia. Este tipo de crescimento determina a progressão centrífuga e a forma de anel característica das lesões. Os dermtófitos invadem a queratina da epiderme e a pelagem com o auxílio de enzimas alergênicas para o hospedeiro. A dermatofitose é considerada uma dermatite de contato biológico.                                                                                                                 

É comum a invasão bacteriana secundária dos folículos pilosos. Os animais que se recuperam de uma infecção tornam-se resistentes a reinfecções, embora possa haver uma dermatite micótica no local da reinfecção. A imunidade é específica para as espécies de fungos correlatas e dura até dois anos em equinos.

 

Sinais clínicos da doença

Os sinais clínicos das dermatofitoses se baseiam na alopecia principalmente, isto é, a perda total ou parcial de pelos em uma determinada região do corpo. Porém, a alopecia está presente em inúmeras doenças de pele, não sendo exclusiva das “tinhas”, o que torna difícil a percepção imediata e exata do problema. O diagnóstico se dá através da observação das lesões e do exame microscópico de raspado de pele, cultura fúngica e bacteriológica.
No caso das dermatofitoses, raramente ocorrem lesões únicas, em apenas um local, assim como o envolvimento corpóreo generalizado, tomando todo o corpo, que é raro. Com isso, sua lesão característica é multifocal e varia de tamanho no dorso, lombo e cabeça do animal.

Os danos na pele se iniciam como placas arredondadas com dor ao toque e pelos eriçados que ficam ásperos e caem ou são arrancados facilmente, causando a alopecia. As lesões tendem a se tornar escamas e crostas e se localizam na cabeça, pescoço, crina, espáduas e regiões laterais do tórax, garupa e dorso. A coceira, chamada de prurido, geralmente é moderada ou ausente.

Geralmente, a regressão da doença acontece espontaneamente no período de um a quatro meses.

 

Prognóstico

A maioria dos animais saudáveis é capaz de se livrar sozinha de uma infecção por fungo, mas o processo leva alguns meses. Devido ao potencial zoonótico da doença, deve-se procurar tratamento veterinário para apressar a eliminação da dermatofitose e diminuir a contaminação do ambiente com os esporos infectados por fungos.
 

Transmissão da doença

A transmissão ocorre rapidamente pelo contato direto com animais infectados ou por equipamentos (fômites) contaminados, dentro eles a rasqueadeiras, escovas, selas,  mantas e cabeçadas, e até mesmo cercas e camas em baias. 

A instalação da infecção dependerá de fatores relacionados diretamente ao animal, como idade, imunidade, prevalência e virulência do fungo, enfermidades concomitantes e estados nutricional e hormonal. Geralmente, os animais jovens são mais susceptíveis, e a doença costuma ser mais prevalente nos meses de outono e inverno, onde se encontra um ambiente úmido e quente na maioria dos estados nacionais.

Tratamento

É possível fazer um tratamento tópico de banhos com xampus e/ou soluções à base de sulfeto de selênio a 1% e thiabendazol, peróxido de benzoíla. Que se apresentam bem eficientes.

Em casos mais graves, é necessário o uso de antibióticos sistêmicos associados aos banhos. Pode-se ainda aplicar iodopovidine degermante (PVPI) ou tintura de iodo 2% sobre as lesões, após os banhos e secar a pele antes do animal retornar ao ambiente. O animal poderá ser afastado de suas atividades normais dependendo do caso, para que o tratamento seja maximizado.

O uso de unguentos nas “feridas” ajuda a pele não ressecar-se.

 

Prevenção

Um ponto importante na prevenção é fornecer uma dieta correta aos animais, balanceada para cada categoria animal. A suplementação com Vitaminas A, D e E, principalmente para animais confinados e na época da seca, pode ser considerada uma medida auxiliar importante. Forragens que são submetidas a condição de colheita, secagem e armazenamento apresentam menores teores de vitaminas A, D e E e a época da seca coincide com período de menor luminosidade, o que compromete a qualidade das pastagens quanto aos teores destas vitaminas.

A permanência do animal ao sol após atividades que provoquem sudorese ou após banhos, diminuem bem a incidência das doenças dermatológicas nos animais

Também é importante cuidar de todos os objetos utilizados no cavalo, e manter materiais individuais para cada animal, em caso da necessidade de uso coletivo, fazer a desinfecção antes do uso, com álcool, amônia quaternária  ou álcool iodado. Esse material deve ser devidamente lavado e desinfetado, para que não seja fonte de contaminação. As selas, mantas, cabeçadas, devem ser deixadas ao sol forte por no mínimo meia hora, antes de serem guardadas. 

Como medidas de controle é recomendada o isolamento dos animais doentes ou suspeitos e desinfecção de materiais e instalações usadas para os animais acometidos. A desinfecção de baias e estábulos pode ser feita com soda cáustica a 5% e “caiação” com hidróxido de cálcio.

 

Também deve-se evitar grande aglomerações de animais com suspeita de doenças dermatológicas, bem como evitar a permanência em zonas geográficas propícias ao agente.

Pelo fato desta doença ser uma zoonose, ou seja, transmissível ao homem também, deve-se ainda tomar todo o cuidado com as pessoas que estão submetidas ao contato com os cavalos contaminados.

As dermatofitoses são relativamente de fácil resolução, mas, assim como com qualquer outra doença, aos primeiros sinais deve-se contatar um médico veterinário, e nunca tratar o animal por conta própria ou indicação de outro profissional que não seja o profissional da área.

Taciano Couto Guimarães

Taciano Couto Guimarães

é veterinário, formado pela UFMG, especializado em plantas medicinais pela UFLA, clínico veterinário e terapeuta floral para animais

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