20-Abr-2020 18:14 - Atualizado em 20/04/2020 18:32
Crônica

Coração tranquilo

Eu tremi, me apavorei, fiquei branco. Sofri. Gente, nosso mundo, nosso entorno não mudará... Nós é que temos que mudar. Por Emílio Fontana Filho

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Ontem, voltando de um atendimento veterinário, liguei o rádio e ouvi a resposta para grande parte das minhas dúvidas e sofrimentos existenciais. Uma música de Walter Franco, gravada pelo Pato Fu, que diz o seguinte: “Tudo é questão de manter, a mente quieta, a espinha ereta ...e o coração tranquilo. Não conhecia esta música mesmo tendo sido composta em 78 quando, quando eu tinha apenas 20 anos. Provavelmente, achava que sabia tudo, manjava de tudo, era o bom da boca e ninguém precisaria me ensinar nada da vida. Hoje, aos quase sessenta, me permito ouvir melhor as pessoas, e a letra das músicas na sua plenitude.

Quantas músicas cantarolei e nunca prestei atenção no seu conteúdo. Legião Urbana é um exemplo. Achava os caras chatérrimos e não gostava das melodias do Renato Russo e deixei grandes letras, grandes reflexões do gênio Renato passaram batido por mim. Esta” Coração tranqüilo” do Walter é extremamente singela, doce, suave, sem grandes questionamentos ou revoluções melódicas. Simples, como um mantra...

O nosso dia a dia está cada vez mais difícil, mais apertado em termos de grana e em termos de aflição cardíaca. O fluxo enviado ao coração é inconstante impreciso e nos pega de surpresa por muitas vezes. Por quantas vezes no dia nos pegamos angustiados, medrosos, assustados como um pássaro selvagem que é pego com as mãos e quase morre de parada cardíaca. Parece-me que cada vez mais estamos expostos às pequenas agruras da vida. Não basta saber resolver os problemas e saber as respostas simplesmente. A questão é como o nosso corpo reage às nossas atitudes. Há que se manter o coração tranqüilo nas situações diárias, se não a vida te devora.

Parabéns! Você conseguiu resolver um problema usando a razão, teu conhecimento acumulado de anos e bla bla bla. Mas quanto te custou física e psicologicamente isso? Daí você enfarta e ninguém entende por quê... Porque, apesar de todo teu conhecimento, seja aos 20 aos 40 aos 60 aos 80 anos, só isto não te mantém vivo. É pouco, muito pouco. Digo que você tem que se ligar na tua reação corporal, tua respiração, teus batimentos cardíacos, tua tensão que deve ser controlada até em grandes momentos de stress. Não basta saber o que fazer; há que se saber como fazer o corpo não sofrer com aquele desafio. Nós médicos veterinários, sempre que saímos para um atendimento, especialmente os profissionais que lidam com equinos e bovinos, grandes animais, estamos sempre com a sensação de faca no pescoço, pois, por mais que você esteja treinado, não sabe o que encontrará no teu destino. Diferentemente dos médicos de humanos, que por mais que reclamem (e com razão), via de regra tem um apoio muito, mas muito maior que a gente. O veterinário de equinos, por exemplo, está sempre sozinho, sem apoio, tendo que tomar decisões aqui e agora, por sua conta e risco. Por isso eu, do alto dos meus 60 anos, 35 de profissão, rendo aqui minha homenagem a esses colegas e a eles dedico esta crônica. Veterinários que pegam seu carro, amassam barro, vestem um macacão e emprestam outro pra Deus, sei que muitas vezes “não passa uma agulha” de tanto medo e tensão. Os velhos já sofrem com os imprevistos, a falta de recursos, o medo de não ter condições de chegar a um diagnóstico preciso, imagine os jovens? Um parto de uma égua, por exemplo, que é o que eu fui atender hoje me deixou supernervoso. Um parto é sempre uma incógnita. Força, muita força, jeito, muito jeito, meleca, muita meleca, sangueira, muita sangueira e um grande ponto de interrogação. Vou conseguir ou não? Vou salvar o potro ou não? Não dá pra fazer cesárea a campo... e aí se você não conseguir? Senta e chora?

Eu tremi, me apavorei, fiquei branco, antes de tudo dar finalmente certo. Sofri. Gente, nosso mundo, nosso entorno não mudará ... Nós é que temos que mudar. É, portanto, fundamental sabermos lidar com as adversidades da vida e da profissão. Ler bons livros, frequentar cursos são coisas fundamentais para se tornar um bom veterinário, porém, trabalhar, exercitar a sua mente, seu corpo, seu coração, fará a real diferença na tua vida. Fica a dica. Tudo, no fundo, é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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