21-Abr-2021 17:57 - Atualizado em 26/04/2021 10:40
Opinião

Coragem, cavaleiros!

É certo colocar na mesma equivalência a cultura equestre praticada no Brasil com a da Europa, referência das regras da FEI?

horse, 2020, banners,
Horse

O Hipismo do Brasil precisa ter mais coragem para tratar algumas questões de forma séria e responsável, com mais razão e menos emoção. Mais discussão e argumentação, menos memes de Internet. O imbróglio das disputas pelo comando da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) é um bom exemplo disso. Chegou-se a esse ponto não foi à toa. As discussões políticas foram precocemente subtraídas pelo puro interesse eleitoral e todos acabaram na movediça Justiça. Mas isso fica para uma outra hora. O tema em questão do momento é caso do cavaleiro Leandro Aparecido Silva, condenado pelo Tribunal da Federação Equestre Internacional (FEI) por maltratar um pônei, com uma pena de três anos de suspensão e multa em francos suíços que ultrapassa a R$ 50 mil.

Nos grupos de WhatsApps, onde imperam os valentes de raciocínio curto, o assunto ganhou opiniões variadas. Entre concordar ou não, as pessoas se preocupam mais em “patrulhar” os seus contrários. Como resultado, ficam entre a correção da punição ou a compaixão pelo amigo cavaleiro, deixando de lado o tema principal: como a questão do bem-estar animal é tratada no Brasil e no resto do mundo.

Vale lembrar que o caso do cavaleiro brasileiro só foi parar no Tribunal da FEI, sediado na Suíça, porque os órgãos nacionais abriram mão de qualquer tipo de avaliação.  A Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) disse que caberia ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Hipismo Brasileiro (STJD). Este, por sua vez, afirmou que “não tinha jurisdição” para julgar o caso, já que não se tratava de uma “competição esportiva”. E nem tentem politizar a discussão. Ambas as entidades estão seguindo suas regras!

"O bem-estar animal no Brasil é um discurso bonito e vazio que vaga a esmo entre bons praticantes das atividades equestres e os grupos extremistas de defesa animal, sem ninguém saber ao certo quais são os limites, quem julga, quem condena e como se pune."

O ponto é: o que regulamenta o bem-estar animal dentro do universo hípico brasileiro? A resposta é: nada!  Sim, o bem-estar animal no Brasil é um discurso bonito e vazio que vaga a esmo entre bons praticantes das atividades equestres e os grupos extremistas de defesa animal, sem ninguém saber ao certo quais são os limites, quem julga, quem condena e como se pune. Tudo fica no campo das opiniões, intenções e subjetividades. Nossa realidade, tão eclética em suas diferentes culturas regionais, simplesmente condena ou absolve na informalidade, sem nem mesmo ter uma regra que aponte os limites e o grau de gravidade de cada penalidade, pontos indispensáveis em qualquer sistema regulatório.

Dentro desse quadro, um cavaleiro que defendeu as cores brasileiras em várias disputas e conquistas internacionais - mais recentemente trouxe uma medalha de Bronze por equipe de Adestramento do Panamericano 2019 em Lima, no Peru -, está perdido e condenado entre o que ele acha que é uma “técnica de correção” de um pônei e o juízo de uma corte internacional, instalada simplesmente na Suíça, onde muitos dos tupiniquins imaginam que esteja a essencial da racionalidade do mundo. É uma distância muito grande, convenhamos.

Isso evidencia de forma clara e explícita como o Hipismo brasileiro trata os seus atletas, sejam eles humanos ou animais: enquanto servem, são úteis; quando não, se virem! Não, não estou aqui a defender Leandro. Ele errou e já admitiu.  Só isso também não lhe redime do que fez. Merece, sim, uma punição. A pergunta é: a quem cabe a régua para aferir o grau de seu equívoco e a devida punição? É certo colocar na mesma equivalência a cultura equestre praticada no Brasil com a da Europa, referência das regras da FEI?

"É surpreendente o fato de o cavaleiro medalhista brasileiro enfrentar uma corte internacional sem nenhum tipo de respaldo jurídico, seja da maior entidade esportiva hípica nacional, seja por quem o patrocina em relações pessoais. Até bandidos comuns têm direito a um defensor."

Essa diferença de cultura sul-americana com a europeia é tão evidente que os próprios colegas de sela de Leandro e o hipismo nacional, de forma geral, são mais tolerantes nessa avaliação, embora reconheçam que o cavaleiro brasileiro passou do ponto. O que ninguém admite em público é que esse tipo de “correção-técnica” é muito recorrente em muitos centros de treinamento, sejam eles de culotes ou de bombachas.   

É surpreendente, também, o fato de o cavaleiro medalhista brasileiro enfrentar uma corte internacional sem nenhum tipo de respaldo jurídico, seja da maior entidade esportiva hípica nacional, seja por quem o patrocina em relações pessoais. Até bandidos comuns têm direito a um defensor. Não se trata de inocentá-lo ou simplesmente de abrandar a sua pena, mas sim de lhe oferecer instrumentos e condições para corrigir seus erros dentro de medidas proporcionais ao dano que causou. Isso se chama racionalidade!  

O Brasil não é a Suíça nem a Europa, todos sabem. Temos uma cultura equestre peculiar que precisa, sim, ser aprimorada. Mas isso não se faz do dia para a noite. É um processo que está em curso. A questão do bem-estar animal, por sua vez, tem de ser regulamentada dentro da comunidade hípica. Não é só punir! É preciso definir as regras para fiscalizar, apurar irregularidades, julgar com isenção e punir com severidade e, sobretudo, equidade. Esse é o ponto! Quando teremos coragem para encarar essa discussão?

 

Marcelo Mastrobuono/Revista Horse
Marcelo Mastrobuono

Marcelo Mastrobuono

jornalista, editor da Revista Horse

Deixe seu Recado