26-Out-2020 08:56 - Atualizado em 26/10/2020 12:29
Crônica

Crônica: Anderson Silva

Eu, desde menino, fui amante das artes marciais. Nunca joguei futebol, mas lutei "de um tudo".

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Eu, desde menino, fui amante das artes marciais. Nunca joguei futebol, mas lutei "de um tudo". Um pouquinho ali, um pouquinho aqui. Desde Boxe com Benjamin Ruta no Bexiga, Karatê Kiokushikaikan na Liberdade, até Capoeira joguei na rua das Palmeiras, com o mestre Suassuna. Por mais paradoxal que possa parecer, só fui graduado neste último, embora nunca tenha tido flexibilidade. Sempre fui todo duro, tenso, o que dificultava dar as meias-luas de compassos e os macacos. Comprei um saco de pancada que ficava pendurado no meu quarto para socar quando ficava “bravinho” com alguma coisa ou alguém. Este saco de pancada me acompanha até hoje. Está velhinho, surrado, mas está lá, testemunha de uma época em que ainda socava a cara das pessoas.

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Cronica 75
Hoje, tenho só vontade, não soco mais (rs). Porém, a luta física me fascina. Parece uma coisa imbecil, em especial, em um tempo em que falamos de paz entre os homens, de equilíbrio e quociente emocional. No entanto, ainda adoro a luta e sou um amante do MMA. Assino até o canal Combate, que minha mulher reclama à beça, pois pago uma baita grana a mais por isso.
Dito isto, vamos refletir sobre o que aconteceu com o Anderson Silva. Que merda foi aquela? Cantado e poetizado pela mídia de forma incomparável nestes últimos tempos, ele foi flagrado pelo uso de anabolizantes. Não tenho opinião formada a respeito, ou tenho e não quero declarar para mim mesmo. O mito não pode morrer, tomar chá de sumiço e ser declarado um charlatão. Apesar de todas as evidências, até a data de hoje já foram feitos mais dois exames que comprovaram o uso de doping pelo nosso ídolo. O que pensar a respeito? Sei lá.
Há muitos anos, um cavalo sob a minha assistência veterinária foi flagrado em um exame antidoping, numa prova curta de Quarto de Milha. Como não era uma prova oficial achei que poderia usar cinco ampolas de butazolidina intravenosa, para aliviar um desconforto de tendão que ele apresentava. Para minha felicidade, o meu cavalo ganhou e, para minha infelicidade, uma equipe de colegas da Usp estava fazendo um trabalho de mestrado sobre doping e coletaram sangue dos ganhadores. Caí na malha fina. A butazolidina foi detectada e fomos desclassificados. Não é uma questão que roubamos no jogo, são as regras! Eu tive que enfiar o rabo no meio das pernas! Afinal, a questão do doping, não só dá ao atleta uma condição desigual de competição, como obriga animais a competirem sem estarem em seu perfeito estado de saúde. É uma judiação.
Mais de cinco mil drogas podem ser detectadas na dopagem de equinos. Por isso, cuidado: narcóticos, anti-inflamatórios, anabolizantes, broncodilatadores e uma lista gigante de fármacos são vetados das competições sérias sob qualquer pretexto. A lista e os prazos de carência estão à disposição no Google. Qualquer Zé Mané pode ter acesso em cinco minutos. Qualquer um dá uma pesquisada sobre a patologia que você está atendendo e te coloca contra a parede, mas antes de receitar é melhor fazer uma boa avaliação do caso e do possível tratamento, senão pode dar doping.
Até penso que o Anderson Silva não fez as aplicações ou ingeriu as pílulas de hormônio mal intencionado. Também penso que os médicos que cuidaram da recuperação da fratura da tíbia não o fizeram para trapacear. Quero acreditar nisto, mas, ao mesmo tempo, volto atrás e fico triste. Mais um ídolo que desce do pedestal. Afinal, nesta vida o que vale é jogarmos limpo, sermos honestos, falarmos e agirmos por meio da verdade. A trapaça é uma ferramenta dos fracos e inseguros. Na vida não tra-pa-ceie! Não vale a pena. Um dia, eu te garanto, você será pego! E aí, game over! (Artigo publicado na edição 75 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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