22-Abr-2021 14:23
Veterinária

Cuidados com os POTROS

Para se ter um animal adulto com qualidade, saúde e requisitos que o tornem um bom cavalo, é preciso manter a atenção durante todo o processo de criação antes mesmo do nascimento

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Os cuidados com os potros devem começar antes mesmo do seu nascimento, pois para ter um animal adulto com qualidade, saúde e requisitos que o tornem um bom cavalo, é preciso manter a atenção durante todo o processo desde a gestação, seguido pela criação. Então, a escolha da mãe é o primeiro passo para o sucesso.

Receptora

Em tempos de Transferência de Embrião (TE) disseminada, é preciso saber distinguir o que é ser uma “boa mãe”. Uma fêmea excepcional, exemplar da raça, com muita genética e ganhos em provas, pode não ser necessariamente uma “boa mãe”.

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Uma fêmea com boa produção de colostro, leite, locomotores funcionais, psicologicamente estável, e com aptidão materna, é a mais indicada para receptora
A escolha da “mãe biológica” é sim um fator determinante, e a carga genética que o produto (potro) irá carregar depende exclusivamente de seus pais biológicos, mas também a “mãe de aluguel” deve receber atenção e cuidados, e a escolha desse animal fará muita diferença.
Uma fêmea com boa produção de colostro, leite, locomotores funcionais, psicologicamente estável, e com aptidão materna, é a mais indicada. Esse animal deve receber nutrição balanceada e suficiente, manejo sanitário com vacinas, vermífugos e controle de ectoparasitas, ambiente favorável e acompanhamento veterinário periódico. Esses cuidados são essenciais para que esse animal produza colostro com qualidade e quantidade ideais para suprir o recém nascido, que neste momento apresenta seu sistema imunológico insuficiente e imaturo, ficando susceptível a infecções.
Vale reforçar nesse momento a importância de um protocolo de vacinação bem feito, visando melhorar a qualidade do colostro que será fornecido ao potro.

Recém-nascido

O termo perinatal também costuma ser utilizado neste momento, e entende-se como as primeiras horas após o parto, momento crítico que merece atenção redobrada, pois são comuns casos de morte de potros nesse período.

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É fundamental assegurar-se que o potro mamou, efetivamente para não ter problemas futuros
Além de observar o potro no geral, e se apresenta algum tipo de problema notável, obstrução de vias aéreas, sangramento persistente no umbigo etc, é fundamental assegurar-se que o potro mamou, efetivamente. Ou seja, não basta somente vê-lo próximo ao teto, ou “brincando” com ele, o potro precisa ser capaz de sugar e engolir o colostro. Invista cerca de 20 a 40 minutos simplesmente observando o potro, a mãe e suas atitudes. Caso note que, nesse período, o potro não manifesta intenção de mamar, ou tenta, porém não consegue, redobre a atenção e procure seu veterinário, que irá lhe orientar como proceder.
Em casos nos quais o potro não teve correto acesso ao colostro, é indicado o fornecimento intravenoso de Plasma hiperimune, que irá melhorar ou compensar a quantidade de anticorpos. Esse procedimento deve ser realizado o mais brevemente possível após a detecção da falha da transferência de imunidade via colostro.
Algumas éguas também apresentam excesso de edema na mamas, e o teto fica demasiadamente grande para que o potro consiga sugar. Neste caso pode ser indicado auxiliar o potro durante a mamada, massageando os tetos.

Manejo sanitário

Levando-se em conta que a mãe recebeu os cuidados necessários durante a gestação, podemos supor que o potro está saudável do ponto de vista sanitário, assim ele poderá adentrar no esquema rotineiro da propriedade.
No geral, a primeira vacinação desse potro acontecerá com cerca de três meses de idade, quando seu sistema imunológico já estará apto para realizar uma resposta satisfatória frente à vacinação. Diversas vacinas podem ser utilizadas de acordo com a indicação do médico veterinário, sendo as mais comumente utilizadas: Influenza, Tétano, Encefalomielite, Herpesvirus, Raiva, Leptospirose. O potro deverá receber reforço dessas vacinas após 30 dias, e daí em diante entra no esquema da propriedade.
A vermifugação também poderá ocorrer nesse momento, levando-se em conta o peso do potro e o grau de infestação do local. Um fator importante é quanto à disseminação de doenças dentro da tropa. Algumas doenças são bem características dessa fase, como a infecção por Rodococcus, Rotavirus, Salmonelas e Clostridios. Estes agentes se espalham rapidamente pelo rebanho, comprometendo a saúde de vários animais ao mesmo tempo. A observação diária permite identificar alterações e sintomas que podem indicar a presença dessas doenças, como potros apáticos, com secreção nasal, tosse, diarreia, sudorese e sem apetite, precisam de atendimento emergencial.

Alimentação

Potros recém-nascidos recebem todos os nutrientes necessários através do leite materno. Com o desenvolvimento, apresentam outras necessidades nutricionais e passam a “experimentar” o mundo à sua volta. Capim, ração, madeira, terra, folhas irão fazer parte dessa experimentação, assim como fezes de suas mães ou de outros animais.
Nesse momento ocorre a formação e adaptação da flora intestinal, benéfica ao potro, que dentro de um curto período de tempo já estará agregando à sua dieta aquilo que lhes é fornecido, como ração e feno.
Numa fase um pouco mais avançada até o término do seu desenvolvimento como potro, este animal poderá receber concentrado e/ou suplementos indicados para sua idade. Existem diversas marcas e produtos destinados para este fim, e a indicação depende muito do ambiente, alimentação disponível, e a função a qual esse animal será destinado.
Piquetes ou pastos com gramíneas de boa qualidade (e quantidade), onde esse animal possa conviver com outros potros da mesma idade, são indicados, pois permitem que estes animais realizem exercícios naturalmente, desenvolvendo estrutura física e psicológica equilibrada.

Cascos

Até mesmo potrinhos recém-nascidos podem (e devem) receber procedimentos em seus cascos. Em animais normais, esse serviço irá favorecer a manutenção dos aprumos, e da qualidade desses cascos, além de acostumar o animal desde novo à esse tipo de manuseio e em potros que apresentam algum desvio em seus membros, a correção já poderá ser iniciada por um profissional capacitado, de preferência sob orientação de um veterinário, a fim de evitar o agravamento do problema no futuro.

Desmame

Alguns momentos são considerados críticos dentro da criação de um potro, como a desmama. Nesta hora, o potro será separado fisicamente da sua mãe e a partir de então será tratado e considerado como um indíviduo, onde toda as ações realizadas serão destinadas a ele, e não mais a um conjunto como era com sua mãe.
Infelizmente, ainda é comum encontrarmos casos de grande estresse durante esse momento, onde potros se jogam contra portas, cercas, pessoas, causando danos a si mesmos, desde escoriações até fraturas. Essa reação exacerbada está muito ligada ao manejo diário que este potro recebeu anteriormente, quando deveria associar a presença humana a fatos positivos e agradáveis. Potros que foram pouco manuseados e receberam estímulos controversos, costumam reagir negativamente ao desmame.

Potro até quando?

Existe uma grande variação para esta resposta, dependendo da raça, função, origem, cultura etc. De modo geral, pode-se considerar um animal como potro até os três anos de idade. É neste momento que a maioria dos animais passa a receber treinamento específico, ou seja, será encaminhado para um treinador de determinada modalidade, onde aprenderá exercícios voltados para aquela função a qual se destina. Esse processo de doma pode ter seu início antecipado em algumas raças como o Quarto de Milha e Puro Sangue Inglês, ou adiado como nos cavalos de salto e adestramento, onde é comum observamos animais de 4 anos em início de treinamento.

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Numa fase mais avançada este animal pode receber concentrado e/ou suplementos indicados para sua idade 
Tecnicamente, existe a possibilidade de se realizar um exame de imagem, Raio-X no caso, onde pode-se observar o término do processo de calcificação das extremidades de alguns ossos específicos. Neste momento considera-se que o animal completou seu desenvolvimento ósseo.
Os cuidados que devemos ter com um potro, basicamente são os mesmo de um animal adulto, respeitando algumas particularidades. A atenção dedicada aos primeiros dias desse potro pode fazer toda a diferença pelo resto da vida desse animal. Manejo sanitário e alimentar corretos garantem o desenvolvimento físico saudável que irá refletir em um cavalo sadio e funcional. Devemos respeitar o andamento normal desse processo, não negligenciando alguns fatores, porém sem mitificar outros, deixar um potro crescer em um ambiente natural, pastando e convivendo com outros cavalos, irá beneficiar tanto os aspectos físicos como mentais desse animal, possibilitando a obtenção de um adulto equilibrado que expressará todo seu potencial genético. (Artigo publicado na edição 91 da Revista Horse)

 

 

 

 

Revista Horse
David Filho

David Filho

Médico veterinário, formado pela Universidade Estadual de Londrina, atuando em Clínica geral de equinos. Habilitado pelo MAPA para emissão de GTA, habilitado pela FPH para microchipagem. 
E-mail: [email protected]

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