05-Mar-2020 17:56 - Atualizado em 05/03/2020 19:10
Treinamento

Disponibilizando as dobradiças

Como disponibilizar essas dobradiças e promover o arqueamento das costelas no trabalho de chão

Revista Horse,
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No artigo da edição anterior (veja AQUI), falei a respeito da importância do alinhamento do corpo do cavalo e como obtê-lo. Escrevi que precisamos ter controle das “dobradiças” de seu corpo para conseguir o alinhamento.  Parti do ponto onde esse controle já estava construído.

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FOTO 1 - O pé de dentro (direito) se posiciona embaixo do corpo do cavalo para frenteEduardo Borba
Nesta matéria vamos explicar melhor esse assunto, falando nessa primeira parte a respeito da importância e como disponibilizar essas dobradiças por meio do trabalho de chão.

O cavalo possui 3 dobradiças, que estão na inserção da cabeça com o pescoço, na paleta com o início da caixa das costelas e na lombar com a garupa, possibilitando uma movimentação independente entre essas partes.

Quando um potro vem para ser iniciado, ele funciona como um bloco de maneira, na qual uma parte não consegue se mexer independentemente da outra (quando pedimos). É o treinamento que possibilita essas dobradiças começarem a funcionar. E conforme vamos disponibilizando essas junções, vamos adquirindo controle mental e físico do potro.

Por meio do controle dessas dobradiças, vamos conseguir construir o tão desejado arqueamento das

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FOTO 2 - O pé de dentro (esquerdo) se posiciona embaixo do corpo do cavalo para o ladoEduardo Borba
costelas e coluna, sem os quais seria impossível construirmos um bom cavalo de esporte, trabalho ou lazer.

Um assunto interessante para refletirmos é que o cavalo quando se prepara para fugir do perigo, diminui o espaço entre as vértebras da coluna e tensiona a musculatura ao seu redor como uma forma mais eficiente para correr e escapar. Na natureza só vamos vê-los abrindo esse espaço entre as vértebras da coluna e promovendo um arqueamento das costelas quando estiverem fazendo movimentos descontraídos, brincando com seus companheiros, mas sustentam isso por pouco tempo.

Como o corpo e a mente sempre trabalham em conjunto, quando consigo promover o arqueamento das costelas, consigo abrir o espaço entre as vértebras e destensionar  a musculatura ao redor da coluna, desarmando o cavalo da posição de defesa e resistência em relação aos movimentos desejados na equitação. Isso vai gerar o

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FOTO 3a Eduardo Borba
controle do cavalo como um todo (físico, mente e espírito).

Se o natural dele é apenas arquear em momentos de descontração, conclui-se que é imprescindível  trabalharmos na construção da confiança para o desenvolvimento e solidificação desse fundamento(arqueamento).

A construção da confiança só é possível através do conhecimento de como os cavalos operam a vida deles e, a partir daí, usar o trabalho físico para influenciarmos  a mente.

Como disponibilizar essas dobradiças e promover o arqueamento das costelas no trabalho de chão.

Membros posteriores

Considerando que a garupa (membros posteriores) é o motor do cavalo, portanto, é ela que promove o movimento, e a paleta (membros anteriores) é

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FOTO 3BEduardo Borba
responsável pela direção, prefiro começar o trabalho pelos posteriores, pois a partir daí sou capaz de desativar o movimento (desengajamento) ou sob o meu controle modular a intensidade do movimento.

Temos duas formas de trabalhar os posteriores. Uma seria movimentando-o para criar uma impulsão para frente (engajamento- foto 1) e outra movimentando para desativá-la (desengajamento – foto 2). As duas maneiras são úteis e importantes de serem compreendidas pelo cavalo.

 

O trabalho da garupa, promovendo uma impulsão para frente, nos possibilita gerar movimento com um arqueamento das costelas (foto 1). Dessa forma, criamos um movimento com impulsão, mas sem tensão, sem resistência, pois, como comentamos anteriormente, o arqueamento das costelas vai promover um maior espaçamento entre as vértebras, tonificando a musculatura em torno delas, porém sem resistência. Isso nos dá o controle sobre o tipo e a intensidade do movimento.

Agora vamos ver como construir e diferenciar essas duas formas de acessar o posterior, acionando a dobradiça que está entre a lombar e a garupa, o que possibilita consequentemente um arqueamento das costelas.

Para mover os posteriores, me posiciono entre a paleta e a garupa e trago o focinho do cavalo para dentro do círculo. Aí promovo uma energia em direção à garupa, usando meu olhar e indicando com a mão. Caso ele não saia da pressão dos dois primeiros gestos, giro o cabo do cabresto na direção da garupa, até que a pata do lado de dentro do círculo se mova bem embaixo do corpo do cavalo em direção à mão de fora e para frente (foto 1). Isto é um passo engajado para a frente.

Engajamento é quando as patas traseiras dão um passo em baixo do corpo do cavalo para frente. Quanto maior a amplitude do passo embaixo do corpo do cavalo e para frente, maior o engajamento. Esse movimento faz com que o cavalo aumente o espaçamento entre as vértebras da coluna, arqueie as costelas e coloque mais peso nos posteriores, aliviando o peso dos anteriores, promovendo uma leveza na direção, iniciando o cavalo numa performance muito desejada na equitação, que seria um movimento com bastante impulsão, porém, sob controle, por meio do arqueamento das costelas e coluna e com leveza na direção.

Quando o pé de dentro, em vez de cruzar na frente do pé de fora (indo em direção a mão de fora) pisa do lado ou atrás do pé de fora, expressa que o cavalo está resistindo, tenso, A caixa das costelas vai ficar próxima de mim com pouco ou nenhum arqueamento. Esse movimento não é desejado, pois como já comentamos é um movimento de defesa, de resistência, onde facilmente podemos perder o controle. Quando isso acontece, coloco mais energia em direção a garupa, até que ele de um passo para frente, cruzando na frente do pé de fora em direção à mão de fora.

No movimento para desengajar a garupa, trabalho para o pé de dentro cruzar na frente do de fora, mas lateralmente (o pé de dentro vai mais para o lado e menos para a frente do que o movimento de engajamento (foto 2). Esse movimento tira a impulsão do cavalo, portanto é usado numa situação que queremos neutralizar o movimento.

O desengajamento nos dá a oportunidade de controlar uma situação indesejada, como por exemplo os corcoves, empinadas, disparadas, pois, a partir desse movimento, você consegue desativar o movimento para frente, inibindo essas atitudes.

Membros anteriores

Depois que tenho os posteriores trabalhando bem nas duas direções, vou começar trabalhar na movimentação dos membros anteriores.

No início é mais difícil movimentar os membros anteriores do que os posteriores, pois o cavalo em condições normais e em repouso possui 60 a 65% do seu peso na frente do corpo e 35 a 40% atrás, tornando mais difícil a movimentação dos anteriores. Porém, quando promovemos o engajamento, como citamos anteriormente, invertemos a proporção desses pesos, disponibilizando mais os anteriores e possibilitando leveza na sua movimentação.

Mantendo meu corpo paralelo ao do cavalo, entre o olho e a paleta, vou promover uma energia em direção aos olhos e o pescoço dele para mover a paleta saindo da minha pressão (fotos 3A e 3B). Quero que a paleta se movimente mais do que a garupa. Para isso, preciso que o cavalo aprenda a transferir o peso para a garupa. Então, quando peço que a paleta se movimente, saindo da minha pressão para o lado, se ele se deslocar para a frente, peço um passo para trás. Dessa forma, transferirá o peso para a garupa e, nesse momento, peço novamente a movimentação da paleta, que vai se mover com leveza. Faço isso quantas vezes precisar, até que o cavalo aprenda por conta própria sustentar o peso na garupa para movimentar os anteriores. Nesse momento, estou trabalhando com mais ênfase a dobradiça entre a paleta e a caixa das costelas.

Essas duas dobradiças bem lubrificadas irão promover naturalmente a flexibilidade da terceira dobradiça, que é entre a cabeça e o pescoço.

Para mim, o cultivo da flexibilidade dessas dobradiças que vão possibilitar o arqueamento das costelas e da coluna é imprescindível para que tenhamos a potência desejada, porém, sob nosso controle.(Artigo publicado na edição 95 da Revista Horse)

LEIA A SEGUNDA PARTE DESTE ARTIGO AQUI

Revista Horse/Fotos Eduardo Borba
Dudi Ometto

Dudi Ometto

Treinadora de Rédeas do Projeto Doma e Zootecnista. E-mail: [email protected]

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