02-Dez-2020 10:25 - Atualizado em 03/12/2020 07:57
Opinião

Doda expõe o hipismo

Publicações em rede social do cavaleiro consagrado nas pistas ganham projeção na mídia aviltando a maior entidade esportiva equestre nacional

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Não tenho nada contra a política. Muito pelo contrário, até gosto. É a forma de nos relacionarmos dentro de nossas diferenças, em todos os âmbitos! Triste quando é levada a baixo nível, perdendo de vista seus objetivos e colocando ambições pessoais acima do interesse coletivo. Mais do que um clichê, é um fundamento. Preferiria, por certo, falar sobre cavalos, como fazemos todos os meses editando a Revista Horse, com artigos e reportagens sobre doma, manejo, treinamento, veterinária, negócios e tudo mais que abrange o relacionamento homens e cavalos. É a forma de um veículo de comunicação ajudar no desenvolvimento do segmento equestre, em todas as suas ramificações.

Por certo, os assuntos políticos também estão em pauta, razão pela qual a Horse foi a única a cobrir a eleição do novo presidente e conselheiros da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH), realizada dia 30 de novembro, no Rio de Janeiro. Trata-se da maior instituição de esporte equestre do Brasil que, pela primeira vez depois de anos, teve um pleito disputado por duas chapas concorrentes: “CBH Forte e Ativa”, encabeçada pela empresária Bárbara Laffranchi/Fernando Spurb (Fêfo), e “Hipismo para Todos”, do empresário Francisco José Mari (Kiko)/João Loyo.

As sérias acusações apresentadas, que levaram o Conselho Eleitoral a impugnar as duas chapas, por certo serão apuradas em todos as instâncias...Então, que tudo seja apurado com o rigor da Lei!

Embora o clima de bastidores tenha se desenrolado de forma efervescente, o que se viu no espaço de Convenções do Prodigy Hotel foram dois grupos defendendo pontos de vista bastante diferentes com veemência, mas com cordialidade, dentro do processo democrático. As sérias acusações apresentadas, que levaram o Conselho Eleitoral a impugnar as duas chapas, por certo serão apuradas em todas as instâncias, já que o processo foi judicializado. Poderia ter sido de outra forma, melhor, mas não faltam exemplos em outras esferas de como esses recursos judiciais estão sendo recorrentes! Passaram a fazer parte do jogo, infelizmente. Então, que tudo seja apurado com o rigor da Lei!

O que ficou desproporcional e bem acima do tom foram as publicações do cavaleiro olímpico Álvaro de Miranda Neto, o Doda, em sua conta no Instagram, ridicularizando dirigentes e a Instituição CBH, utilizando inclusive suas logomarcas. Com a notoriedade que lhe é peculiar, parte dela graças aos seus próprios méritos em pista, Doda fez repercutir o assunto em um grande site de notícias, o UOL, dando-lhe projeção mundial. Involuntariamente, prefiro acreditar assim, expôs a Instituição da qual ele sempre fez parte a um papel de deboche, que acaba, de uma certa forma, espalhando estilhaços a todo segmento equestre, em especial ao chamado Hipismo.

Assim como grande parte da comunidade do cavalo, tenho o maior respeito pelo cavaleiro Doda, por tudo que conquistou para o hipismo nacional. É um ídolo, referência de muitas crianças que optam pelos esportes equestres. É também um empreendedor do segmento, promovendo concursos e incentivando novas ações. Por tudo isso, deveria ser mais cauteloso em suas manifestações nas redes sociais. Qualquer coisa que fale ou poste, sempre ganhará maior repercussão na mídia.

Muitos dos problemas da CBH já vêm se arrastando por longa data. Doda deve conhecer bem, pois sempre foi muito próximo a antigas gestões, como cavaleiro das equipes brasileiras. Bastou uma disputa acirrada entre duas chapas, novidade da eleição deste ano, para transformar tudo em um circo, chamando dirigentes e seus adversários de momento de “palhaços”?

Evidente que Doda tem todo o direito de manifestar suas preferências políticas, mas deve fazê-lo com a devida prudência. Suas reivindicações, com menos burocracia, menos taxas, melhores premiações e desenvolvimento da base, não são novas e merecem atenção. O processo político é o melhor caminho, mas é preciso seguir as regras e nuances do jogo. Um esportista deve saber disso.

Criado em 2018, será a primeira vez que o Conselho terá representantes efetivos, eleitos pelo Colégio Eleitoral. Na prática, isso muda toda a forma de gestão da Confederação, tirando o poder exclusivo do mandatário. Bom as pessoas entenderem isso

Não se pode descartar, também, que há mudanças em curso. Embora a escolha do novo presidente tenha sido frustrada, com a impugnação das duas chapas pelo Conselho Eleitoral, foram eleitos cinco membros do Conselho de Administração, que terão a responsabilidade de conduzir a estratégia de desenvolvimento da entidade, juntamente com o presidente que venha a ocupar o comando.  Criado em 2018, será a primeira vez que o Conselho terá representantes efetivos, eleitos pelo Colégio Eleitoral. Na prática, isso muda toda a forma de gestão da Confederação, tirando o poder exclusivo do mandatário. Bom as pessoas entenderem isso.

Pela primeira vez, também, sete cavaleiros representantes dos atletas puderam participar do processo eleitoral, com peso de voto até maior do que algumas federações. Foram eleitos pelos seus pares e, agora, elegeram os cinco membros do Conselho. Temos de reconhecer que isso foi um avanço democrático prático, cujos efeitos poderão ser avaliados com maior precisão nas próximas gestões, seja quem for o novo presidente. A política começa a descer para as bases, formando uma escala hierárquica de representação. Isso é muito bom, independente de quem sejam seus autores. Não deixemos que maus exemplos contaminem as novas gerações. O hipismo nacional pode, sim, evoluir com suas adversidades, dentro e fora das pistas. Para isso, postura e elegância, que fazem parte da boa equitação, também devem ser observadas e respeitadas na política do segmento. Com certeza, será um grande salto!

Atualização às 17h02 de 2/12/2020: Após a publicação deste artigo, o cavaleiro Doda apagou uma das postagens de seu Instagram, que temos registrada. Os links foram mantidos, mas a imagens não serão reproduzidas.

Marcelo Mastrobuono, editor da Revista Horse
Marcelo Mastrobuono

Marcelo Mastrobuono

jornalista, editor da Revista Horse

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