24-Jun-2020 16:15 - Atualizado em 24/06/2020 17:27
Entrevista

Dos palcos às cocheiras

O veterinário Emílio Fontana Filho fala como consegue converter as dificuldades do dia a dia de trabalho com os animais em deliciosas crônicas das páginas da Horse 

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Horse

Emílio Fontana Filho, Entrevista, Teatro, veterinário, Paulo Henrique Baldini
Entrevista publicação na edição de maio de 2018 da Revista Horse Paulo Henrique Baldini
O veterinário Emílio Fontana Filho tinha tudo para seguir uma carreira no meio artístico. Filho de renomados diretores de teatro, foi criado desde criança entre palcos e coxias. Em certo momento, entretanto, resolveu seguir "Na contramão da vida", como escreveu no título de sua crônica publicada na edição 104 da Horse, justamente para explicar sua opção pela veterinária. "Optei pela veterinária porque descobri que não queria conviver só com gente, gente...As pessoas me cansam, aborrecem...", escreveu ele, no seu tradicional estilo supersincero e descolado.

Conjugando com as atividades de veterinário, Emílio assina a coluna de crônicas da Revista Horse desde o relançamento da publicação, em agosto de 2008. Já são 104 artigos publicados (nesta edição completa 105), sempre despertando diferentes sensações aos leitores: amor, ódio, alegria, tristeza, compaixão, revolta...Impossível mesmo é ficar indiferente, qualidade que o levou ao posto de um dos articulistas mais lidos e comentados da publicação mensal.

A Horse resolveu, então, mostrar um pouco mais desse seu lado artístico. Ou melhor, do seu lado humano que consegue ver até nos momentos mais difíceis algo para compartilhar com seus leitores. Na entrevista que segue abaixo, Emílio fala sobre seu amor incontido pelos animais, os assuntos que o inspiram a escrever (será que todos são reais?) e das atividades que mantém paralelas à veterinária. Confira!

Até que ponto esse seu lado artístico de família lhe ajuda a compor as suas crônicas?
Nasci em uma família de artista. Se cultivava arte, cavalgava arte. Muito pouco se falava de bichos, muito se falava de cultura, de música, política e arte de uma forma geral. Sem dúvida, minha formação intelectual embrionária vem daí. Me ajuda demais nos momentos de criação artística.

Ajudam você também no dia a dia de veterinário?
Sem dúvida. Não se faz um bom veterinário sem sensibilidade, sem criatividade. O bom convívio com os animais em geral, com os equinos em particular, exige um comportamento onde o coração é a grande ferramenta de trabalho.

Onde busca inspiração para escrever?
Vem do dia a dia, de cada momento que respiro. A cada música que ouço, cada pessoa que vejo andando nas ruas, a cada conversa nos botequins, nas calçadas e nos currais, conheiras e em todo o ambiente que frequento.

“Tudo que conto nos artigos é a mais pura expressão da verdade, do que vivi, do que participei. Todas as histórias, na vida em geral, recebem componentes de imaginário e as minhas não são diferentes. Na nossa vida, no dia a dia, é difícil separar a realidade do que é imaginário”

Quando você sabe que tem uma boa história para contar?
Quando me emociona e me arranca uma lágrima, um sorriso ou uma gargalhada. Há que se estar atento, se uma história te emociona, é digna de ser contada e compartilhada. 

Muitos leitores perguntam se tudo o que conta nos artigos é verdade. O que responder?
Sim, tudo que conto nos artigos é a mais pura expressão da verdade, do que vivi, do que participei. Todas as histórias, na vida em geral, recebem componentes de imaginário e as minhas não são diferentes. Na nossa vida, no dia a dia, é difícil separar a realidade do que é imaginário.

O que escrever crônicas em uma revista de cavalos representa para você?
Trabalhar como cronista da Horse é uma atividade extremamente prazerosa e que me permite tocar o coração das pessoas. No mínimo, eu consigo provocar uma reflexão das pessoas. Penso, como diz a música, que o artista tem que estar onde o povo está e a Horse me permite esse caminho.

Consegue manter uma interatividade com os leitores?
Converso muito com os leitores por e-mail e wathsapp. Tenho proferido diversas palestras e workshop de relacionamento homem-cavalo. A maior parte das vezes abordamos sobre cavalos, mas também falamos sobre a vida de modo em geral.

Qual foi o comentário de leitor que mais chamou sua atenção?
Certa vez um leitor me escreveu falando que seu cavalo havia morrido, falava de sua tristeza, de seu sofrimento. Percebi a dimensão de sua dor e conversamos por horas. 

“Hoje em dia fazer a pessoa sequer se emocionar já é difícil. O mundo está ficando cada vez mais frio, mais impessoal. Os corações estão ficando cada vez mais petrificados”

O que é mais fácil: fazer as pessoas rirem ou chorarem?
Sinto que não há expressão mais difícil ou mais fácil. Hoje em dia fazer a pessoa sequer se emocionar já é difícil. O mundo está ficando cada vez mais frio, mais impessoal. Os corações estão ficando cada vez mais petrificados.

Das crônicas que já publicou, qual ou quais você mais gostou e por quê?
Não tenho preferência. Cada crônica atinge uma ou mais pessoas em particular, de uma forma menos ou mais intensa. A identificação de amar ou odiar a crônica é do leitor, não do autor.

Já pensou em publicar um livro com suas crônicas?
Adoraria, mas faltam recursos. Precisaria encontrar patrocínio, mas acho que valeria a pena. Quem sabe em breve conseguimos colocar esse projeto em prática. Muita gente reclama que falta literatura equestre no Brasil, o que é verdade, e talvez multiplicar essa forma de comunicação, mesmo em forma de crônica, possa ajudar mais pessoas a refletirem melhor sobre a convivência com os cavalos.

Acha que as pessoas que convivem com cavalos são diferentes, como se costuma dizer no meio?
Sim, pessoalmente acho que são muito diferentes. São especiais, são pessoas eleitas. São privilegiados que podem conviver com esse bicho abençoado. Acabam abençoando a si próprios e se tornando pessoas melhores. 

Além de veterinário e colunista da Horse, você é também ator. Como conciliar todas essas atividades?
Dos 365 dias do ano, 363 dias trabalho na minha clínica em Porto Feliz. E dois dias dedico ao trabalho de ator. A profissão de ator é mais difícil do que a de veterinário.

Seus leitores sabem que você interpreta vários personagens em comerciais de televisão?
Se você quer saber isso, só me atrapalha. Na rua alguns me falam — aí Dr., está por cima, hein? Está na rede Globo!!! Eu respondo: antes fosse, dois dias por ano. É um trabalho superesporádico, mas que também me dá prazer.  

Quais outras atividades artísticas que já desenvolveu ou desenvolve atualmente?
No momento, nenhuma, além das que já citei. A atividade de médico veterinário especialista toma muito do seu tempo. Para que possa desenvolver um trabalho de qualidade, tem que participar sempre de cursos, congressos. Tem que estudar muito para não baixar o seu nível de excelência. A qualidade do trabalho e o nível de excelência que tentamos manter na clínica não tem como deixar a peteca cair. É fundamental um alto nível técnico, alta especialização, alto nível de tecnologia. Isso toma muito tempo e não dá para se envolver com outras atividades.

“Queria ser um pangaré, um punga de carroça. Porém, com cérebro privilegiado geneticamente. Que começando por seus pares, provocasse uma revolução dos bichos, como previa George Oregon, no início do século 20”

Acha mesmo que, como já escreveu, é mais fácil lidar com bicho do que com gente?
Não tem termos de comparação. Como sempre digo, o homo sapiens é pior espécie que habita a terra. Bichos perto de nós são anjos.

Já sabe qual será o tema de sua próxima crônica da Horse?
Não sei, meus neurônios estão conversando entre si, e ainda não tem um veredito (rsss).

Para finalizar, se você fosse um cavalo, que tipo gostaria de ser?
Queria ser um pangaré, um punga de carroça. Porém, com cérebro privilegiado geneticamente. Que começando por seus pares, provocasse uma revolução dos bichos, como previa George Oregon, no início do século 20.

 

Por Marcelo Mastrobuono/Fotos: Paulo Henrique Baldini

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