22-Abr-2021 13:46
Crônica

EINSTEIN DO CAIACATINGA

Caiacatinga é um bairro da cidade de Porto Feliz e tem muitos Haras de ‘bacanas’...

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Caiacatinga é um bairro da cidade de Porto Feliz e tem muitos Haras de ‘bacanas’, mas ainda conta com muita gente simples, nativos da região que pelejam para sobreviver da terra, tirando leite e fazendo queijo de três ou quatro vaquinhas e um cavalinho punga, que puxa uma carroça desengonçada, barulhenta e pesada. Algumas galinhas entocadas dentro de pneus e caixas velhas de maçã dão alguns ovos. Uns gatinhos, filhotes magrelos, que fuçam o resto de leite para caçar os ratos e um cachorro mestiço ‘policiar’ para “cuidar de noite“. Na sala, um sofá puído e umas fotos daquelas retocadas a mão com os ascendentes. Geralmente, ovais.

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Cronica 90
Cena clássica, mas linda, cheia de história, mistério, fibra e muito suor. São pessoas lutadoras de pouca instrução que ainda não atenderam ao canto da sereia da cidade grande e teimam em continuar vivendo em condições rústicas, enrugando as mãos e alisando a alma. Adoro atender estes homens que ficaram lá para trás no tempo. Afinal, o que ganhamos com este progresso todo? Piciroca nenhuma. Mais e mais problemas, conflitos planetários e mentais caminhando passo a passo com o progresso insano.
Senhor Zé, que chama-se Zé, assim como seu pai e seu avô, e também repassou seu nome ao filho e neto, me liga às 17 horas do domingo e lá vou eu. Ainda bem que não tinha bebido nada, se não seria um vexame. Embora eu beba como “uma menininha”, nunca é legal atender clientes com as alterações mentais que o álcool produz. Você fica meio bobo, lento e o raciocínio clínico não flui. Aliás, admiro estes caras que bebem uns dois fardos de cerveja e permanecem incólumes. Quanta macheza! Eu, com duas latinhas de cerveja, já fico meio ‘bebinho”.
Mas, enfim, super careta fui atender este cavalo punga de carroça do Sr. Zé. A cara dele não me era estranha, acho que devemos ter nos trombado há uns 20 anos atrás quando nossos cabelos ainda não eram brancos. Ele se lembrou de mim quando fiz um parto de uma vaquinha Jersey muito tempo atrás e, por isso, me chamou. Eu não lembrava, mas disse que sim para não ficar chato.
Então, ele puxou o punguinha, que veio caminhando do pasto. Na hora já percebi qual era o problema, porque o animal tinha a famosa câimbra, ou seja, esticava uma das pernas para trás por alguns passos e depois “clack”, volta a andar normalmente. Trata-se de um deslocamento de rótula (no joelho anatômico), que desliza, vai para outro espaço e trava a perna. Nesse caso, só cirurgia para resolver definitivamente o problema. Esse procedimento é relativamente simples, realizado com anestesia local, desmotomia do ligamento patelar medial. Bom, expliquei tudo para ele, marcamos outro dia pra fazer a cirurgia e tudo bem. No dia combinado fui ao sítio e tudo correu nos conformes.
O Sr. Zé disse que parecia milagre e ao dizer isso me perguntou se eu acreditava em Deus. Respondi que sim. Aí ele me disse que tinha uma filha advogada, estudada, que não acreditava em Deus, só naquilo que ela podia ver e na ciência, mas que, na última vez que estiveram juntos, ele calou a boca dela.
Ele disse a ela que nós, mundialmente falando, somos atrasados, pois somos novatos neste planeta e não sabemos nada ainda. Nós olhamos com os olhos, cheiramos com o nariz, sentimos o sabor pela boca, escutamos pelos ouvidos, sentimos os toques com as mãos, mas ele tem certeza que podemos mais, ou seja, ver o que não aparece, escutar o que não foi dito, sentir cheiro de algo que vem de longe. E questionou: “quem passou por aqui que num vi, e deixou esse bom perfume no ar?”. Ele também questionou que ainda não enxergamos Deus, ainda! Porque o que falta ao ser humano é ter um olho a mais e quem sabe se com a evolução dos homens, descubra-se esse terceiro olho.
Diante dessa profunda reflexão e da teoria de espiritualidade do Sr. Zé, peguei minha violinha, coloquei no saco e fui para casa assistir a Globo mergulhado na minha mediocridade. (Crônica publicada na edição 90 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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