20-Mai-2020 11:29 - Atualizado em 20/05/2020 11:42
ENTREVISTA

Em busca do mercado

Luis Ópice, epresidente do Mangalarga, diz como pretende fortalecer os Núcleos regionais para projetar os negócios da raça

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Em meio a uma disputa política de dois grupos pelo comando da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo da raça Mangalarga (ABCCRM), o nome do empresário e criador Luis Augusto de Camargo Ópice acabou sendo a alternativa conciliadora. A eleição de chapa única foi confirmada no dia 4 de dezembro. Ópice, como é conhecido no meio, assume a gestão no dia 1º de janeiro de 2018, com dois objetivos bem definidos: resgatar o prestígio da raça, fortalecendo os Núcleos regionais e fazendo a raça ser inserida no mercado.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, o advogado e empresário de 64 anos fala sobre seus planos e projetos para que o Mangalarga volte a ocupar um lugar de destaque na vitrine equestre brasileira. Reconhece que a raça hoje não consegue alçar o mercado e que a participação é diminuta se comparado ao crescimento das demais raças.

Conta, também, sobre os planos para aumentar o número de associados, estimando um crescimento médio de 25% ao ano. Diz, ainda, que gostaria de, ao concluir seu mandato, ser lembrado como o presidente que fomentou os Núcleos. Confira:

Como surgiu o interesse por cavalos?

Começou ainda na infância. Minhas primeiras fotos eram sempre em charretes no colo de minha mãe, segurando rédeas de cavalos. Aos 6 anos fui morar em um condomínio de casas e bem próximo havia um ponto de aluguel de cavalos. Nas féria, eu e meus primos andávamos todos os dias. Ali comecei a desenvolver o gosto pelos equinos e o desejo de ter um só meu.

Quando comprou o primeiro?

Já estava casado, apareceu a oportunidade de alugar um sitio em Tietê, interior de São Paulo, completamente montado. Aí comprei o primeiro cavalo, o Índio, e depois outros, mas sem raça definida. O que aparecia e fosse manso, comprava. Em 1991, um diretor da empresa onde eu trabalhava, que criava o Mangalarga Paulista, estava vendendo alguns animais. Fui ver e acabei comprando 8 éguas dele. A partir daí comecei a me posicionar mais para o Mangalarga.

E a entrada na Associação?

Em 1999, o proprietário pediu o sítio de volta e então acabei comprando uma área próximo a Espírito Santo do Pinhal (interior de SP). No ano seguinte, estive em um leilão do Mangalarga no Jockey Club de SP e acabei comprando mais alguns animais, um deles um garanhão. Aí decidi entrar para a Associação e, logo em seguida, teve uma eleição, quando fui convidado para fazer parte da diretoria, então passei a conhecer melhor a raça por dentro da Associação.

Conquistou prêmios e destaques como criador?

Meu negócio sempre foi andar a cavalo, não era criar para exposições, ganhar títulos ou construir meu nome na raça. Meu sonho era ter uma tropa de cavalgada com o próprio sufixo, Rancho da Bela Vista (RBV). Só que quando você começa a criar, busca fazer o melhor possível e, nesse processo, acabei comprando umas éguas melhores e algumas tinham potencial de pista. Desde então conquistamos alguns destaques em andamento, marcha. Marcou uma primeira reservada campeã de andamento, entre outros títulos importantes. Foram vários animais que se destacaram ao longo dos anos, tais como: Tigre Mont Serra, grande campeão de andamento. Várias éguas fizeram sucesso em pista, como: Uiara, Mabi, Jóia, Vatique, muitas vezes campeã. Favorita RBV.

Por que resolveu ser presidente da Associação Mangalarga?

Na verdade, não queria isso, foram me chamar em casa. Desde 2014 estava afastado das atividades diretivas da Associação, porque não queria ser candidato. Até porque minha origem dentro do Mangalarga era o grupo do Mário Barbosa e eu não iria contra ele. Aí vem o processo de duas candidaturas e os associados entendiam que não era o melhor para a raça essa divisão política. A agenda de ações que a Associação precisa desenvolver, sem união, ficaria impossível atingir. Esse grupo começou a conversar com a situação e oposição e chegou-se ao meu nome como sendo de consenso, então aceitei.

Quais os planos e os principais desafios?

Temos um plano trienal de gestão e metas. Basicamente, tenho objetivo que é aproximar ao máximo a raça do mercado. Senso comum entre os criadores que o nosso cavalo hoje não consegue alçar o mercado. A participação é diminuta se comparada ao crescimento das demais. Nosso número de associados não cresce. A gestão está focada em aproximar o mercado, entender o que o mercado busca no cavalo.

Como chegar mais próximo do usuário?

Criar uma série de ações (eventos) para que o mercado possa conhecer melhor o nosso cavalo. Não temos recursos para comprar horário nobre nas mídias e colocar nosso cavalo para o grande público ver. Então temos de criar eventos, atividades esportivas, onde o usuário possa conhecer, se aproximar dos nossos cavalos. Atividades como: cavalgadas, enduros, poeirão, provas funcionais, além das nossas duas tradicionais que são a Exposição Nacional e a Copa de Marcha. Essas duas a associação tem no seu calendário, administra, cuida, envia jurados. Os Núcleos também fazem suas exposições regionais. São realizadas muitas cavalgadas pelo interior, mas não tem a visibilidade institucional necessária. A marca Mangalarga acaba não aparecendo. Vamos criar campeonatos de Cavalgada, Enduro, Prova Aberta Funcional e de Poeirão, além de transformar o nosso calendário de exposições em um campeonato.

Todas essas iniciativas serão criadas a partir de janeiro, com sua posse?

Já criamos um campeonato de Exposições Mangalarga. São 9 etapas regionais, uma brasileira e uma nacional. Fazemos 35 exposições no total, mas nessas 9 etapas iremos atrás de patrocínio. Escolhemos essas nove porque foram as que registraram mais inscrições nos últimos anos. É como se fosse a Série A e Série B e isso vai motivar os criadores para melhorar e buscar a outra série. Estamos criando um caderno de encargos mínimos para os organizadores. Uma exposição precisa ter uma estrutura que ofereça as mínimas condições para receber o associado, a família dele. Precisa ter o banheiro limpo, a pista precisa estar em ordem, uma decoração, mesmo que seja simples. Opções para se alimentar. Um catálogo com padrão mínimo de qualidade.Todas essas provas serão organizadas pelos Núcleos, pois precisamos energizar os núcleos, dar uma função. Estamos lançando um campeonato de Núcleos. Essas provas todas são os Núcleos que vão organizar e ganharão pontos no ranking.

E o que os Núcleos vão receber em troca?

Hoje, a Associação dá um retorno financeiro aos Núcleos que estão constituídos legalmente. Tudo que os associados dos Núcleos geram de taxas e contribuições para a Associação, ela repassa um percentual para os Núcleos. Assim formam um caixa. Hoje a Associação deve um valor para os Núcleos e isso vamos procurar regularizar no primeiro semestre do próximo ano. Para o associado do Núcleo que participar de uma cavalgada ou poeirão, ele vai ganhar um bônus no ranking em que participa. Além do ranking de cavalgadas que está participando. Se ele levar o animal de exposição para uma cavalgada, um poeirão, ou enduro, esse animal está ranqueado e vai ganhar um bônus também. Daremos atribuições para os Núcleos, mas em troca damos prêmios. Isso vai estimular os criadores a serem sócios dos Núcleos. Outra coisa que vai valorizar os Núcleos, a Exposição Regional passa a ser credenciadora para o animal se inscrever na Nacional.

O Mangalarga sempre foi uma marca forte. Era sinônimo de cavalo de raça no Brasil. O que provocou essa queda em relação às demais raça?

Perdemos o bonde da história. Estamos fazendo um levantamento de como éramos há 20 anos, como era o Marchador, como era o Crioulo e o Campolina. Há duas décadas éramos maior que todas essas raças. O Mangalarga nasceu e se desenvolveu pelos fazendeiros, quando a vida rural era mais importante que a urbana. A transformação da agricultura paulista pela monocultura, se deu nas principais zonas de criação do Mangalarga. Em contrapartida, o mineiro é muito mais ligado ao campo do que o paulista. Mesmo que tenha se tornado empresário, passado a morar na cidade, continua tendo uma ligação muito grande com as terras que herdou do pai, do avô. Então o mineiro nunca perdeu o contato com o campo e a criação rústica do cavalo.

O que houve com aquele ápice do valor de mercado nos anos 90?

Tivemos um boom no valor do Mangalarga quando empresários da cidade passaram a investir na criação de cavalos como hobby. Foram para o Mangalarga, Árabe, outros para o Quarto de Milha, outros pro Lusitano. Naquela época, criou-se uma bolha do Mangalarga, com valores de cobertura, de venda de animais calculado em dólar. Mas essa bolha estourou e esses empresários, por necessidade, passaram a ter outro tipo de criação. Muito mais concentrada, com mão de obra, cocheira, ração. Isso criou também um diferencial nos animais. Quem criava cavalo de uma maneira mais intensiva, começou a colocar em pista um animal mais vistoso, mais bonito, mais saudável aparentemente. Equivocadamente, a área técnica da associação passou a premiar esse tipo de animal. Isso desestimulou aqueles que mantinham uma criação mais tradicional. Criou-se um distanciamento. As exposições passaram a ser o principal e único foco, enquanto que o Marchador não. Apesar também de ter exposições e nessas sempre se privilegiou o andamento.

 O que fazer para recuperar o terreno perdido?

Se quer vender, a primeira coisa que o mercado tem que perceber é que tem de ser um cara aberto, simpático. Receber bem, atender bem. Deixar escolher o cavalo e, caso não goste, permita que ele escolha outro. Pode até ter uma diferença de preço, mas tem que atender bem. O Mangalarga Marchador nunca se desconectou do mercado. Nas últimas 3 ou 4 gestões criou ações de mercado, de inserção de pessoas. O Mangalarga Paulista é visto com certa reserva pelo público, porque tem o estigma de ser um cavalo de elite. O usuário é o cara que gosta de andar a cavalo. Entre ir no sitio de um amigo e ter de ir a um Haras de um Mangalarga Paulista, ele prefere ir no sitio. A gente precisa mudar e o meu papel é esse.

Como analisa a importância da formação do quadro de técnicos dentro de uma associação. Como pretende conduzir isso?

Quando a raça estava mais na mão dos fazendeiros, eles entendiam do cavalo. Não precisava de técnicos. Estes profissionais passaram a ter muita valorização a partir do momento que gente com dinheiro queria criar cavalo e não sabia. Então, contratava um técnico para gerenciar esse processo. Passaram a ocupar o papel de dar velocidade ao pessoal urbano que queria começar a criação de cavalos, mas não entendiam de raças, linhagem, manejo etc... Os técnicos, além do próprio conhecimento, passaram a suprir o papel do contratante. Hoje, tem a predominância de alguns técnicos que passam a prestar serviços a mais de um criador. Nós vamos lembrar os criadores diariamente de que eles precisam assumir o comando do seu criatório. Você até pode perguntar em nível de assessoria, mas a decisão tem que estar dentro daquilo que se almeja buscar. E todo criador tem que pensar também na raça.

Como fazer isso, que pensem na raça?

Com uma gestão absolutamente transparente, um diálogo permanente com eles, um projeto voltado ao mercado. Quem vai ser beneficiado com isso é quem tem o produto. Não é o usuário. Esse projeto vem sendo muito bem compreendido e vamos falar diretamente aos criadores, porque os beneficiários serão eles. Tudo que vamos fazer aqui é voltado aos criadores.

E o usuário, tem alguma ação prevista, pois é o grande consumidor do cavalo?

O usuário é a porta de entrada. De cada 10 criadores, 8 começaram como usuário. O que queremos é aumentar o número de usuários tentando conhecer nosso cavalo, comprar nosso cavalo. Com isso tem mais demanda e se valoriza mais. Mas dentro daquilo que ele pode pagar. Não adianta a gente querer fazer o preço subir num passe de mágica. O desafio é oferecer qualidade a um preço menor, aumentar o giro. Porque a cada dia que o cavalo fica no Haras, o preço de custo aumenta e não volta. Vamos fazer com que os Núcleos vão buscar esse usuário. Com as atividades que serão implantadas. Cavalgada, enduro e poeirão, todas voltadas para o usuário. O

Mangalarga, apesar de ter um número reduzido de associados em relação às demais raças, parece ter formado grupos onde há confrontos de opiniões. Você foi eleito pela unidade de todos, mas como gerenciar isso, porque certamente virão cobranças?

Às vezes, essas divergências de grupos, de mídias sociais, acabam criando uma falsa impressão de acirramento de posições. Credito isso a uma questão natural, as divergências são centradas na questão técnica. Cada um gosta do cavalo ao seu modo e isso não vai terminar nunca. Quero que as pessoas entendam a minha meta que é Mercado/Núcleo. Vou tentar fazer com que as pessoas continuem defendendo suas posições, mas prestigiem, participem dos eventos. Tem que recuperar o valor do animal, para que quem produz, obtenha pelo menos um empate em sua contabilidade.

Comenta-se que o Mangalarga é utilizado para aprimorar outras raças, entre elas o segmento de muares. A Associação planeja explorar o valor e potencial desse segmento?

Outras raças estão usando nossos cavalos porque realmente têm uma beleza morfológica, com o andamento muito bom. Então, nossa raça, como o Árabe ou Puro Sangue Inglês, passou a ser uma raça de melhoramento genético. Os criadores de muares realmente afirmam que a melhor tropa sai do cruzamento com Mangalarga. Nós, efetivamente, talvez por esse estigma de ser elite, não damos importância para isso. Mas já tenho em minha agenda de trabalho um projeto de abrir um livro para muares. Vamos estudar, falar com a associação. Vamos conversar com criadores e, se acharmos que vai trazer valor de mercado, vamos trabalhar para aproximar de segmento.

Prevê aumento no número de associados?

Atualmente, temos 714 sócios remidos, 68 contribuintes e 714 usuários. A meta é crescer 25% ao ano. Tem até margem para mais, mas trabalhamos nesse patamar. Se tivermos um bom 2018, os Núcleos comprarem essas ideias que apresentamos, se os associados entenderem essa dinâmica, tudo isso trará grandes perspectivas para os próximos anos. Temos uma equipe coesa, que está se dando muito bem; todas as decisões são baseadas no que a maioria decide.

Que marca pretende deixar ao final de sua gestão?
Gostaria muito de ser lembrado como o presidente que fomentou os Núcleos. Hoje nós temos 16 Núcleos entre formais e informais. Gostaria de chegar em 2020 com pelo menos 30 Núcleos, principalmente fora de São Paulo. Estive na Fenagro (Feira do Agronegócio da Bahia) e fiquei encantado com o que vi na Bahia. Núcleos organizados, maior número de provas fora de São Paulo. Pedi ao pessoal do Pará para que formalizem seu Núcleo e vamos trabalhar em outras frentes também.

 

“Tenho em minha agenda de trabalho um projeto de abrir um livro para muares. Vamos estudar, falar com a associação. Vamos conversar com criadores e, se acharmos que vai trazer valor de mercado, vamos trabalhar para aproximar de segmento”

Quando a raça estava mais na mão dos fazendeiros, eles entendiam do cavalo. Não precisava de técnicos. Estes profissionais passaram a ter muita valorização a partir do momento que gente com dinheiro queria criar cavalo e não sabia”

“Temos de criar eventos, atividades esportivas, onde o usuário possa conhecer, se aproximar dos nossos cavalos. Atividades como: cavalgadas, enduros, poeirão, provas funcionais...”

Texto e fotos; Marcelo Mastrobuono

Luis Ópice

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