26-Out-2020 10:44 - Atualizado em 26/10/2020 11:55
Na nova edição da Horse

Entrevista exclusiva com o homem que "descobriu" o Mormo no Brasil

O microbiologista Rinaldo Mota fala sobre o isolamento da bactéria Burkholderia Mallei e pontos polêmicos da doença que já sacrificou mais de 2 mil cavalos no Brasil

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Edição 126

Formado em medicina veterinária pela Universidade Federal de Alfenas (MG) em 1991, com residência na área de Enfermidades Infecciosas dos Animais Domésticos na Universidade Estadual Júlio de Mesquita, em Botucatu (SP), mestrado em Microbiologia Veterinária e doutorado em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Essas são apenas algumas das qualificações do microbiologista Rinaldo Aparecido Mota, que tem, de fato, um currículo admirável.

No campo profissional, entretanto, um de seus trabalhos de maior relevância são os estudos e pesquisas sobre o Mormo, a polêmica doença que já sacrificou mais de 2 mil cavalos no Brasil. Foram suas descobertas científicas que serviram de base para as Instruções Normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) no controle e combate à proliferação da doença no País, com uma série de medidas em vigor até hoje.
Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, o especialista Rinaldo Mota fala, pela primeira vez, dos trabalhos que realiza desde 1998 e que resultou no “isolamento” da bactéria Burkholderia Mallei, em 2000. Garante que não há justificativas científicas para questionar a doença, mas admite que o “Mormo Brasileiro” pode ter algumas características diferentes do que se conhece da literatura da doença em outras partes do mundo. Confira!”

Foi o senhor que descobriu o Mormo no Brasil?
Fui eu quem fez o primeiro diagnóstico do Mormo no Brasil. A gente trabalha com a doença desde o final do século passado (1998). Começamos a trabalhar com uma doença respiratória misteriosa, que acontecia muito na região Nordeste, em alguns engenhos de cana de açúcar, com muares. Tinha já um grupo que trabalhava com a doença, mas não tinha um diagnóstico definitivo, porque na verdade precisava de um microbiologista para fazer a caracterização do agente etiológico. Não sabia se era bactéria, se era um vírus, se era uma combinação de agentes. Aí me chamaram para dar uma colaboração. Visitei algumas propriedades e tive a sorte de encontrar alguns casos clínicos bem típicos da doença. Na verdade, essa doença, teoricamente já havia sido erradicada do Brasil na década de 60, e quando estudamos veterinária nas faculdades, não se via mais a doença nos livros de doenças infecciosas. Ou seja, não estudamos isso. Mas eu tive a sorte de encontrar uns animais com umas lesões bem características e consegui isolar uma bactéria, que a princípio não sabia qual era, pois não batia com nenhuma classificação de bactérias conhecidas que poderiam causar aquele quadro clínico. Aí fomos estudar!

Como foi esse trabalho de estudos e pesquisas?
Fui pesquisar livros de meados do século passado, livros de doenças infecciosas e tinha uma doença respiratória muito parecida, que era o Mormo. Quando fui investigar mais a fundo, entrei em contato com alguns colegas de São Paulo e Minas Gerais, mas que não acreditaram num primeiro momento. Essa história de que pode ser outra doença não tem mais. Eu isolei uma bactéria, que tem características idênticas a do Mormo. Foi quando a gente acentuou a identificação aqui, aprimoramos os métodos de identificação, fizemos uma classificação preliminar de Burkholderia mallei (BM). Daí encaminhamos essa bactéria para laboratórios de referência internacional para Mormo que confirmou a suspeita. Depois foi feita toda a parte do Ministério, com a notificação e a divulgação. Mas, desde o primeiro momento, a gente não tem dúvida de que se tratava do Mormo. Pode ser que exista condições epidemiológicas e clínicas diferenciadas no Brasil, porque é um país continental, mas que a doença existe, isso não tem dúvida nenhuma.

Esse primeiro isolamento foi quando?
A primeira notificação que a gente fez foi no final de 1999 para 2000. Ou seja, tem 20 anos que a doença está notificada como doença reemergente no território nacional. Uma doença que já tinha sido erradicada e que reemergiu, reapareceu. Tenho um acervo muito grande disso tudo. Tenho toda a história do Mormo do Brasil comigo.

Como vê a atuação do Mapa com relação às ações de controle e combate ao Mormo no Brasil?
Do ano passado para cá, o Mapa está com uma postura mais diferenciada e isso tem facilitado bastante o contato, a troca de experiências e o planejamento de algumas ações que precisam ser feitas. Na verdade, precisavam ter sido feitas há muito tempo. Agora, você sabe que isso tudo depende de quem está à frente e, felizmente, a Eliana (Eliana Lara Costa, chefe da Divisão de Sanidade de Equídeos do Mapa) está conseguindo trabalhar de uma forma bem diferente e isso tem deixado a gente feliz também.

Como o senhor vê as inúmeras controvérsias sobre a doença no Brasil?
Acaba gerando dúvidas e até aparecem algumas pessoas que se intitulam especialistas, mas na verdade não têm o conhecimento científico para fazer abordagens. Isso deixa a gente um pouco preocupado. É a mesma questão do negacionismo da Covid 19 por parte de algumas pessoas no país. Sabemos que têm pessoas que até hoje não acreditam que a Covid-19 exista, por mais que tenhamos mais de 140.000 pessoas mortas no país. Isso não se discute mais. Ou seja, a questão é que pode existir uma variação epidemiológica e eu acredito nisso. Da ocorrência da doença em determinados estados do Brasil, a questão da manifestação clínica que pode ser diferenciada. Então tem alguns pontos importantes para serem estudados ainda.

 

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