22-Abr-2021 14:36 - Atualizado em 27/04/2021 16:06
Entrevista

"Esqueceram toda a família Pessoa", diz Neco

Pela primeira vez após a Olimpíada, Nelson Pessoa fala sobre a participação do Brasil, a polêmica envolvendo seu filho Rodrigo Pessoa e da falta de formação dos cavaleiros brasileiros

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Considerado um dos maiores cavaleiros brasileiro de todos os tempos, Nelson Pessoa, o popular Neco, 80 anos, passou quase despercebido durante a Olimpíada Rio 2016. Em meio à polêmica envolvendo a decisão do técnico George Morris em deixar seu filho, Rodrigo Pessoa, na reserva, preferiu acompanhar as provas hípicas pela televisão e nem apareceu no Centro Hípico do Complexo Deodoro, no Rio. “Não me senti em boas condições de vir”, justificou. A ausência foi sentida inclusive pela imprensa especializada internacional, como mostra o suplemento da revista The Chronicle of the Horse, que chegou a estampar uma capa destacando “A volta dos Pessoas ao Rio”, o que acabou não se concretizando.
Durante a clínica realizada no Haras Albar, em Campinas (SP), logo após a Olimpíada, Neco falou com exclusividade à Revista Horse. Para ele, o maior erro foi a troca de técnico da equipe brasileira de Salto nove meses antes da Olimpíada, com a entrada do americano George Morris no lugar do francês Jean Maurice Bonneau, que comandava a equipe havia mais de cinco anos.
Neco elogiou a performance dos conjuntos brasileiros e lamentou a falta de uma “medalha no peito”. Sobre a ausência de seu filho em pista, foi mais longe: “Não foi apenas o Rodrigo. O Brasil julgou que não precisava dos Pessoa”, afirmou, referindo-se a ele próprio, o irmão Hélio (armador de pista) e ao filho Rodrigo, medalha de ouro na olimpíada de Atenas. Confira!

O que achou do desempenho do Brasil na Olimpíada?
O Brasil começou de forma excelente, no nível das melhores equipes mundiais, mas, infelizmente, insuficiente para voltar com uma medalha. Não existe quarto e quinto lugar, isso é medalha de chocolate. Acredito também que desperdiçamos essa oportunidade pela perda de um conjunto, pois as regras são muito rigorosas, mesmo porque sempre houve muito abuso, então, agora levam bem a sério e apesar do machucado do Landpeter ter sido insignificante, a regra existe e tem que ser respeitada. Teve um pingo de sangue, o conjunto é desclassificado. É preciso usar espora e a pele do animal devia estar muito fina porque a espora que o Stephan usou nem tinha ponta e era do tamanho da minha unha do mindinho.

O que acha da regra ‘sangue zero’?
Lógico que achamos que é rígido, porque fomos prejudicados por isso, mas regra é regra e não tem exceção. Se tiver uma gota ou um corte de cinco centímetros, a punição é a mesma, com a exclusão do conjunto. Só espero que essa regra seja mantida e que quando chegarmos em Tóquio também seja válida para todos os competidores.

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Neco Pessoa participou de 11 olimpíadas, sendo cinco como cavaleiro e seis como técnico
O que acha do processo de escolha dos cavaleiros para formar o time brasileiro?
Sempre foi subjetivo. Quando comecei a participar de provas internacionais na Europa, eu era o único cavaleiro brasileiro a fazer isso. Fui para a primeira olimpíada em 1964. Até hoje fiz 11, sendo cinco como atleta e seis como técnico. No começo, fui sozinho, depois nas próximas vieram outros conjuntos. Em 1996 e 2000, fui o técnico da seleção que ganhou medalhas (bronze e ouro). Naquela época não tínhamos os mesmos cavalos que temos hoje, que são bem superiores. Essa parte de selecionar os atletas, todos os países passam pelo mesmo tipo de processo subjetivo, porque os cavaleiros vivem em lugares diferentes, até mesmo, continentes separados. Então, os cavaleiros competem e as confederações decidem quem serão os cavaleiros que irão representar o país.

Por que você não foi o técnico da Seleção? O senhor chegou a ser convidado para esse cargo?
Antes da Olimpíada de Londres decidi que não queria mais conduzir a seleção, pois já tinha vivenciado bastante coisa e podia tomar esta decisão por mim mesmo. Então, a Confederação contratou o francês Jean Maurice Bonneau, que ficou à frente do time e estava fazendo um trabalho bom, mas acabou sendo demitido pela CBH, o que, na minha opinião, foi um erro.

Isso prejudicou o time de alguma forma?
Sim, porque faltava apenas cinco meses para a Olimpíada. A resposta da confederação é que estava faltando verba, mas não é verdade, porque quando o Jean Maurice foi dispensado, ele tinha direito a uma multa, pela quebra de contrato que ia até o fim da Olimpíada, no valor de 100 mil euros e ele fez o acordo, falando que ficaria até o final. Mas não quiseram. Eles nomearam o George Morris, um bom técnico, mas sem presença suficiente com os cavaleiros. Faltou um capitão para conduzir o time. Após Palm Beach, nos Estados Unidos, ele se reuniu com os cavaleiros na Europa apenas em três oportunidades. Na minha opinião, Jean Maurice faria a diferença.

O técnico faz a diferença?
Claro, todas as equipes têm um técnico. Se não for necessário, vamos tirar todos e seguir em frente.

Essa mudança de técnico teve a ver com a convocação do Rodrigo na reserva?
Não sei se isso influenciou. Depois de ver o resultado é fácil falar, mas não adianta bater depois disso. A única coisa que dá para dizer é que ganhar uma medalha no Brasil coroaria nosso esporte em grande estilo.

Qual a diferença entre o bom cavaleiro e o piloto?
No Hipismo existem algumas categorias, como essas duas. A diferença é que o bom cavaleiro, geralmente, é aquele cara que treina o cavalo, compete e conquista vitórias. O piloto é aquele que vence provas, mas apenas “gasta” o cavalo. Ele ganha provas, mas não treina e nem administra bem os cavalos.

Como esses dois tipos estão distribuídos no cenário internacional. Temos mais cavaleiros ou pilotos?
O piloto tem vida curta, a não ser que tenha meios financeiros, porque aí ele usa os cavalos e joga fora. As pessoas que têm cavalos escolhem os cavaleiros para montarem seus animais, então, elas avaliam se ele é um cavaleiro ou um piloto. O cavaleiro utiliza e repõe aquilo que ele utilizou e o piloto apenas gasta e não repõe. Ou seja, ele só terá uma carreira longa se tiver como manter seus próprios animais. O cavaleiro conduz a carreira do cavalo em boas condições, deixando o proprietário satisfeito.


Fala-se muito em conjunto sendo 50% e 50%. Isso realmente bate?
Depende da categoria. No Júnior sim. Nas provas de alta performance, o cavalo conta mais que o cavaleiro, sendo 60% contra 40% e chega até 70 contra 30%. Agora, os 30% do cavaleiro não podem ser 29%. Ele tem que ver tudo, se comeu, se dormiu e não pode falhar em nada. Os cavalos são máquinas. Nessa olimpíada deu para ver isso, com cavalos que não tocaram em um obstáculo e pularam 75 obstáculos de 1,60m. Um erro do cavaleiro pode custar caro, como foi no caso da Meredith, que calculou mal e acabou fora da disputa por medalhas, mesmo sendo uma excelente cavaleira e tendo um cavalo de ponta.

A seleção de cavalos e cavaleiros não se tornou muito mecânica ou matemática?
É assim que tem que ser. Quando você encontra uma fórmula que funciona, tem que manter. A cria dos cavalos está se desenvolvendo muito e os animais estão melhorando de qualidade, de tamanho, de brio, pela genética. Os criadores procuram animais bons para cruzarem e isso pode ser visto nos últimos 20 anos. Hoje, os cavalos custam entre 1000 dólares e 10 milhões de dólares, porque são excelentes e aqueles que querem cavalos pagam por isso. Na equitação, no nível jovem, o cavaleiro vale mais que o cavalo. Agora, em alto nível, a cota cavalo sobe muito e o cavaleiro tem que fazer sua parte. Um bom exemplo é o holandês Jeroen, que ganhou a Weg, mas estourou o limite e ficou fora da final na Rio 2016. O cavalo dele fez o serviço e não tocou em nenhum obstáculo, então, a culpa foi dele. Na Olimpíada, dos 50 cavaleiros, uns 30 tinham grandes chances de ganhar, porque tinham cavalos que eram craques.

Então, nessa matemática tem cada vez menos espaço para aquela coisa passional?
Não tem mais espaço para isso. Agora, vamos dizer que o cavaleiro que ficou em segundo lugar, não é tão conhecido, mas ultimamente encontrou esse cavalo, que é maravilhoso. Ele monta bem, mas sempre teve cavalos medíocres, agora, com esse animal, ele aproveitou e ficou com a prata. Nick Skelton tem um cavalo excelente e fez uma boa competição e Eric Lamaze também mostrou que é um ótimo cavaleiro.

Na sua opinião, o Rodrigo fez falta na Olimpíada para popularizar o esporte no Brasil?
Não se coloca cavaleiro por ser mais popular. Lógico que o Rodrigo tinha todas as condições, seria a última olimpíada dele, é atuante. Este ano ele perdeu dois principais cavalos, mas tem uma experiência muito grande. Foi uma lástima ele não estar na equipe. Mas, infelizmente, essa foi a decisão do técnico e da CBH, então, temos que respeitar. Pode ter sido certa ou errada, agora não temos como saber. O que aconteceu, aconteceu. O certo é pensar na próxima.

Como vê a falta de formação dos cavaleiros no Brasil?
Estou falando disso há meio século e aqui só temos essa formação no exército e ninguém frequenta lá. Nos outros países, ninguém pode dar aula sem ter formação. No Brasil, não temos um professor que tenha estudado para fazer isso. No alto nível, os cavaleiros mais experientes compartilham suas experiências com os mais novos e, por isso, temos bons cavaleiros. Há também aqueles que buscam se aperfeiçoar na Europa e nos Estados Unidos, mas nem todos têm condições para isso. Nossa base é ruim, não temos quem faça isso. A maioria dos professores ensina baseados em suas experiências, mas não têm a formação necessária para ensinar.

A quem caberia essa missão?
Temos um órgão, a Confederação Brasileira e também as Federações e, até agora, não foi feito isso. Ninguém nasceu sabendo, mas é preciso formar cavaleiros e dar uma melhor condição de base, dando mais assistência e disciplina.

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Neco, durante clínica em Campinas no Haras Albar, promovida pela Chevaux
De tudo que é falado em uma clínica, qual é a maior lição que deve ficar gravada na cabeça dos alunos?
Em geral, todas as pessoas que estão ligadas ao cavalo são pessoas que estão no esporte porque gostam de cavalos. Eles não estão no esporte porque estão em busca de fortuna ou fama. Os pais sabem quantos sacrifícios são feitos para manter os filhos montando cavalos. É um esporte caro, com animais valorizados e equipamentos caros. A pessoa que entra no esporte não sabe como funciona, não sabe comprar equipamentos, comprar cavalos, vestimentas. Então, falta orientação. Infelizmente, o que se vê nas clínicas do Brasil são pessoas sem essa educação equestre. Tem que começar do início, mostrando tudo. Na Europa, isso é diferente. Eles têm essa cultura equestre. Quando dou clínicas por lá, os jovens aparecem todos prontos como se fossem participar de um grande prêmio. Faz 50 anos que falo isso e ainda continua do mesmo jeito no Brasil. O único lugar que essa educação acontece é no Exército Brasileiro, onde faz isso há mais de 60 anos.

E os cavalos brasileiros, como o Feroleto na Olimpíada?
É o segundo cavalo brasileiro a se destacar em provas de alto nível. O meu Gran Gesto foi o primeiro cavalo a ganhar as melhores provas do mundo, em diversos países. Agora, apareceu o Feroleto, mas chegou um pouco atrasado, pois já tem 15 anos, e só agora, encontrou um cavaleiro de alto nível. O craque é uma exceção, mas temos uma boa criação e precisamos de profissionais para iniciar esses cavalos até o alto nível. Em 50 anos, apareceram apenas dois. Ou seja, precisamos de mais pessoas para iniciar esses cavalos e falta preparação adequada para esses cavalos. Precisamos de mais regulamentação e disciplina na formação dos cavalos jovens, que em outros países é severa e aqui é livre. Com tantos nascimentos no Brasil, é impossível que não tenha mais animais de alto nível.

Qual é a avaliação que faz da olimpíada no Brasil?
Foi um sonho, que não pude assistir pessoalmente, porque não estava em condições de vir. Foi uma maravilha sob todos os aspectos com relação ao esporte e ao país. Foi um enorme sacrifício que o Brasil fez. É aquele negócio, faz uma festa muito grande com champagne e tudo e depois fica a pergunta: quem vai pagar? Acho que é um sacrifício necessário e o Brasil mostrou uma linda imagem para o mundo. Agora, é ver se tudo que foi feito vai deixar um legado para o futuro. Espero que não fique abandonado. Que seja como em Pequim e em Londres, que aproveitaram tudo. E não como a Grécia, que abandonou tudo e acabou falindo o país.

Ficou uma frustração por não ter conquistado uma medalha?
Claro, foi uma grande chance de concorrer em casa. Já ganhamos em Atlanta e em Sidney, que ficam a mais de 10 mil quilômetros daqui. O quinto lugar não é ruim, mas não estamos mais nessa fase de se sentir satisfeito com esse resultado. Agora, queremos medalha no peito.

Qual sua sensação, como pai, de não ver Rodrigo na Olimpíada do Brasil?
Não foi só o Rodrigo. Nós temos três Pessoas envolvidas no hipismo na nossa família: Nelson, Rodrigo e Hélio Pessoa, e nenhum de nós participou da Olimpíada. O Brasil achou que não precisava de nenhum de nós. Não tivemos função nenhuma, nem de controlador de bilhetes na entrada. Então, foi um sinal de que o Brasil julgou que não éramos necessários. Nenhum de nós teve nenhuma missão. É uma falta de reconhecimento, sem dúvida. (Entrevista publicada na edição 92 da Revista Horse)

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Neco Pessoa participou de 11 olimpíadas, sendo cinco como cavaleiro e seis como técnico

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