07-Dez-2017 09:07 - Atualizado em 07/12/2017 10:05
Filmes

Godless, o novo western de gala

Nova série da Netflix tem muita coisa boa, entre elas uma abordagem subliminar sobre bem estar dos personagens clássicos: os cavalos!

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Quem gosta de cavalos tem uma grande propensão de gostar também dos filmes de western, cada vez mais raros. A boa notícia é a estreia de Godless, uma minissérie de sete capítulos que está disponível na Netflix desde o final de novembro. O filme, podemos chamar assim, tem muita coisa boa, a começar do enredo, passando pelas personagens, cenário e uma iluminação fantástica. Segue abaixo a crítica da especialista em cinema Izabela Boscov, no artigo que publicou no site de Veja. Uma abordagem completa. Só falou mesmo a observação sobre a mensagem subliminar do bem-estar animal. Sutil, mas presente. Sim, os bons cowboys sempre souberam tratar seus cavalos com parceiros e o filme mostra como isso se faz na prática.  Veja a crítica:

“Godless”: uma série de fazer o coração disparar

Faroeste da Netflix é um filmaço de 7 horas e meia, com atores maravilhosos e uma história arrebatadora

Se você anda procurando uma série dessas que fazem disparar o batimento cardíaco, viciam e causam dependência, 2017 não tem programa melhor a oferecer do que Godless, que a Netflix lançou em 22 de novembro: que senhor western.

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A primeira coisa que vou fazer quando sobrar um tempinho (ou um tempão, no caso) será vê-la de novo – e então de novo, e quem sabe mais uma vez. Mais do que uma minissérie, Godless é um filme de impecáveis 7 horas e meia (os episódios têm duração variada, entre 41 e 80 minutos, conforme a amarração ideal para cada um deles). Nem uma única cena sobra, nem muito menos falta. O argumento e o roteiro são magníficos; a direção é arrebatadora; as atuações vão do excelente ao estupendo, e são daquele tipo que parte o seu coração (quase todas) ou enchem você de terror (Jeff Daniels, fazendo um vilão de rivalizar com os serial killers verídicos de Mindhunter).

E o showdown, o grande enfrentamento final obrigatório nos faroestes, é estrondoso. Acima de tudo, Godless faz o espectador sentir que está vivendo a história junto com os personagens, e que nada do que se passa com eles poderia ser diferente – eles são quem são, e portanto até as atitudes imprevistas que eles às vezes tomam são, ao fim e ao cabo, inevitáveis.

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Em 1884, um rapaz ferido a bala aparece no rancho de Alice Fletcher (Michelle Dockery), nas proximidades da cidade de La Belle, onde um acidente na mina matou todos os maridos de uma vez. Homens, em La Belle, há apenas uns dois ou três velhos, além do xerife cada vez mais míope e desacreditado (Scoot McNairy) e do seu assistente Whitey (Thomas Brodie-Sangster), um garoto magrinho que não toma banho e adora fazer malabarismos com os revólveres. O marido de Alice, porém, teve morte diferente – foi assassinado pelas costas, por ser índio. Alice é uma pária, e tenta tocar o rancho com a sogra (Tantoo Cardinal) e o filho dos seus 13 anos, Truckee (Samuel Marty), que não teve tempo de aprender com o pai a ser índio e tem medo até de cavalos. Roy Goode (o maravilhoso Jack O’Connell), o rapaz ferido, tem exatamente o que falta a Alice nesse momento: habilidade para domar a manada que ela comprou e precisa revender. “Sou o azar em pessoa”, avisa ele, quando ela o convida a ficar. “Pois somos dois”, retruca ela, dando de ombros.

O azar de Roy tem inclusive nome: Frank Griffin (Jeff Daniels), um psicopata com estranhas tintas religiosas que lidera um bando de criminosos (todos horríveis, nenhum pior do que ele próprio). Frank criou Roy e o considera seu filho: Frank não admite que membros de sua “família” o desertem; e, como Roy fugiu dele, Frank e seu bando vêm cavalgando pelo território à sua procura como uma praga bíblica, assassinando cidades inteiras – mulheres, crianças, bebês, sem exceções – simplesmente por terem dado uma noite de pouso ou uma refeição a Roy.

A beleza de Godless – e estamos falando aqui de beleza verdadeira, que envolve e comove – é conseguir tirar do enredo tudo que se pareça com arranjo ou artifício: a trama simplesmente acontece, em infinitas relações de causa e efeito, à medida que os personagens entram na órbita uns dos outros. E como eles são bem escritos e bem interpretados: tão feitos de carne e osso que, quanto mais se os conhece, mais complicados e intensos ficam os sentimentos do espectador a respeito de cada um deles. Todos que eu citei aí acima estão espetaculares, mas seria injusto não destacar o trabalho sensacional de Merritt Wever como Maggie, a irmã do xerife míope, que veste as roupas do marido morto e decide que ela própria é que vai ser o homem da sua vida.

E é preciso mencionar, também, a trilha maravilhosa e as locações no Novo México, um embasbacante cenário às vezes de deserto e mesas rochosas esculpidas pela erosão, outras vezes de pradarias e montanhas nevadas, que não é só pano de fundo mas um sentido mesmo da história. Acima de tudo, Godless partiu meu coração com as coisas lindas que brotam de uma vida miserável, tão dura e desafiadora que é um milagre que Roy Goode e as pessoas de La Belle consigam sobreviver a ela. Do começo ao fim, portanto, um arraso. (Por Izabela Boscov)

Revista Horse/Veja
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