06-Jul-2021 09:55
Crônica

Homem não chora

Homem não chora? Que coisa mais antiga, mais machista! 

Assine a Horse,
Assine a Horse

Homem não chora? Que coisa mais antiga, mais machista! É isso que todos estão pensando neste momento, após ler o título desta crônica. Eu tenho uma filha já adulta, que bate pesado em mim com meus resquícios (só resquícios rs?) de machismo. Pai, você é antiquado, machista, preconceituoso e ultrapassado, diz Bárbara. Apanho diariamente por todas as mídias disponíveis, rs, da minha filha, feminista assumida radical xiita. Às vezes, ela me enche bastante o saco com tamanha convicção e agressão com que discorre sobre o machismo e os direitos feministas. Me encheu tanto o saco, tanto o saco nos últimos anos, que acabou por motivar meus neurônios a considerarem um novo caminho.

cronica,
cronica
Esta minha reflexão fica mais clara com o atendimento veterinário que fiz na semana passada: me tiraram do edredom às 3 da matina. O celular tava tocando na sala e demorei pra ouvir. Capengando, me arrastei até lá e atendi a droga do celular (ô invenção do capeta). Um garanhão mangalarga escapou do piquete individual, quebrou a porteira das éguas e se misturou com a mulherada. Eita! Deve ter sido um furdúncio daqueles! Imagine! Resultado: tomou um coice no olho esquerdo de uma égua com ferradura que fez um estrago federal, irrecuperável.
Tivemos que fazer uma enucleação, ou seja, retirada do globo ocular. Não é exatamente uma cirurgia de alta complexidade, mas é demorada, trabalhosa. Você tem que ligar todos os vasinhos, aproximar bem o tecido, cortar um filete do rímel palpebral, para depois suturar em pontos separados. Se você fechar direto, nas coxas, ficará uma forte depressão no local e o cavalo vai ficar, além de zarolho, feio bagarai.
Pré anestesiamos, depois anestesiamos geral e mantivemos no EGG gota a gota. Baita assepsia blá blá blá... Enfim, tudo correu bem. A cirurgia foi legal e não nos estressamos. Era uma equipe de dois homens, eu e sr. Rufino, um experiente peão que foi jockey na década de 80. Porém, o retorno foi uma merda. Na hora de se levantar pós anestesia, o cavalo tentou se erguer todo cambaleando, pendendo de um lado pro outro e uma hora se atirou no chão. Quando ele caiu, Rufino, que estava “na cabeça” segurando o cabo, tentou evitar o impacto da cabeça do bicho no chão e o garanhão caiu em cima de Rufino. Fratura completa do tornozelo do peão! O pé dele ficou parecendo o do Curupira...virou de frente pra trás! Doeu até em mim, que reverencio o bom machismo. Pra minha surpresa, aquele homem de setenta anos não falou “um ai”. Respirou fundo, girou o pé e “recolocou no lugar”. Recolocou em termos, né? Porque nitidamente havia uma fratura. Bicho...o cara não deu um piu... Paguei pau...Aquela atitude de Rufino me deixou perplexo... Homem...sim...homem com H maiúsculo. Não derramou uma lágrima, superou a dor com tranquilidade e serenidade... Masculinidade ancestral. Respirava profundamente e me dizia – Doutô Emilio, homem que é homem não chora...Assim me ensinou meu pai. (Assim me ensinou o velho Emilio Fontana também).
Hoje liguei para Rufino para saber da recuperação do cavalo, pois estava na hora de tirar os pontos inabsorvíveis de pele (7 dias). Rufino me atendeu e disse que o cavalo estava ótimo, sem falar nada sobre o seu pé. Começou a puxar outros assuntos, como que conduzindo a conversa para outras paragens... Se emociona...sua voz embarga...Ficou mudo...ele continua... – Doutô, o sr. sabia...o sr. sabia...tô tão feliz hoje...tão feliz...minha neta entrou na faculdade...é a primeira pessoa da família que vai ser doutora...Rufino soluçou e chorou ao telefone. Desligou em seguida. Nem deu tempo de dizer “Deus abençoe”... De fato, homem que é homem não deve chorar por dor....apenas por amor... .Penso, logo existo. (Crônica publicada na edição 96 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

Deixe seu Recado