27-Jul-2020 11:37 - Atualizado em 03/08/2020 17:45
Reprodução

A infertilidade em equinos

As causas podem ser desde um manejo errôneo de cobertura, inflamações e infecções uterinas, até mesmo, outras alterações

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Muitas vezes, na área da reprodução equina, recebemos éguas que não conseguem “emprenhar” e isso é um problema para o criador. A primeira coisa que me vem à cabeça nesses casos é que teremos mais um longo e belo desafio pela frente. Porém, a definição égua-problema deve ser muito discutida, pois, a mesma égua problema para um colega, pode não ser para outro e vice-versa.

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O Brasil é o país que mais realiza a técnica de transferência de embriões em equinos do mundo, ficando a frente dos Estados Unidos e Argentina
Classicamente, a definição de égua-problema por muitos autores é: reprodutora equina que foi submetida a monta natural ou inseminação artificial por três ou mais vezes dentro de uma estação reprodutiva com garanhão de fertilidade comprovada e não obteve sucesso em relação a gestação. Entretanto, para isso, todas as condições de manejo, sanidade e procedimentos técnicos devem estar sob controle.
A experiência, busca pelo conhecimento, recursos diagnósticos disponíveis, novas formas de tratamento, entre outros, fazem cada vez mais conseguirmos resolver problemas que há alguns anos não tínhamos sucesso. Da mesma forma, a falta de um ou mais requisitos podem levar uma égua a infertilidade.
E quando o assunto égua-problema é tocado, muitas são as razões para essa paciente não estar gestando, podendo ser desde um manejo errôneo de cobertura sem o acompanhamento de um médico veterinário especializado em reprodução de equinos, passando por importantes inflamações e infecções uterinas, as famosas endometrites, chegando até em alterações mais importantes como cérvices ineficientes ou mesmo obstruções de oviduto.
A grande questão é descobrir se a égua tem realmente um problema. Talvez para o proprietário sim, pois ela não gesta, porém, às vezes, com um simples exame ginecológico, associado a um controle diário ultrassonográfico, o médico veterinário identifica o “problema” em apenas um ciclo estral. Em outros casos, problemas mais sérios podem estar presentes e aí será necessário mais conhecimento e experiência para ter sucesso frente a essas patologias.
Porém, é importante deixar claro que nessas situações é preciso ter paciência, pois não será no primeiro ou segundo ciclo que se terá sucesso. Mesma situação aplica-se quando trabalhamos com garanho~es de baixa qualidade espermática ou mesmo um sêmen congelado de baixa qualidade.
Ao falar nesse assunto, égua-problema, podemos citar um renomado médico veterinário da reprodução equina mundial e autor de importantes livros da área, Dr. Angus McKinnon, que diz em suas palestras e textos: “não existe tratamento mágico, apesar das estórias repetitivas dos clientes, que uma vez tiveram uma égua-problema que ficou vazia: até ser coberta no pasto, receber infusão intrauterina de querosene, ser suplementada com vitamina E, ser sangrada em 10 litros, ser transportada após a cobertura, ser cruzada com um pônei rufião ou receber extratos do homeopata local”.
Segundo ele, a verdade pura e simples é que nossos clientes precisam compreender, que o que resulta em concepção e manutenção da prenhez em éguas-problema são o trabalho duro e a obediência aos princípios e às técnicas de manejo estritamente científicos.
É muito comum encontrarmos fêmeas equinas que passaram por diferentes profissionais, são tratadas como éguas-problema, com os mais alternativos tratamentos e, mesmo assim, sem sucesso. E em alguns casos, é um pequeno detalhe que faz a diferença. Podemos citar como exemplo, pacientes com endometrite fúngica, onde muitos casos são tratados por muitos meses como endometrite bacteriana e, como consequência, não obtém sucesso. Facilmente isso seria corrigido se anteriormente ao tratamento fosse solicitado uma cultura fúngica a um laboratório especializado e de confiança.
Hoje em dia, com a infinidade de laboratórios e medicamentos existentes no mercado equino, é muito cômodo - para alguns profissionais - definir como tratamento a famosa “receita de bolo” e simplesmente utilizar esse ou aquele antibiótico sem ao menos realizar uma citologia uterina, ou solicitar uma cultura bacteriana e/ou fúngica.
Muito critério deve ser estabelecido quando trabalhamos com reprodução de equinos, principalmente quando são usadas as biotecnologias da reprodução, como inseminação artificial e transferência de embriões. Se essas forem usadas de forma errada e não técnica por profissionais pouco capacitados, o início de alguns problemas de infertilidade podem estar aí.
Segundo a I.E.T.S. (International Embryo Transfer Society), o Brasil é o país que mais realiza a técnica de transferência de embriões em equinos do mundo, ficando a frente dos Estados Unidos e Argentina. A transferência de embriões é um procedimento que traz inúmeras vantagens para o mercado do cavalo, e frequentemente deve ser indicada para os clientes. Porém, a forma que esta biotécnica é conduzida deve ser levada em conta para trazer benefícios ao produtor. A preocupação com materiais de qualidade, devidamente esterilizados devem ser as grandes preocupações do médico veterinário para esse procedimento, além de um amplo conhecimento técnico.
Então, a infertilidade em éguas pode ser evitada de várias formas, mas principalmente com a presença de um profissional especializado em reprodução equina que possa resolver desde as mais simples falhas de manejo, passando em implementar um saudável programa de transferência de embriões, até a resolução das mais diversas patologias das éguas. (artigo publicado na edição 66 da Revista Horse)

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Kadu Camargo

Kadu Camargo

Professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, responsável pelo G.E.R.E. (Grupo de Estudos em Reprodução Equina PUCPR); Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Medicina Animal: Equinos, na área da Reprodução Equina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). E-mail: [email protected]

 

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