27-Abr-2020 06:00
Crônica

Joelho ralado

Que bom seria se a gente pudesse voltar ao início da vida...Putz, que delícia se eu pudesse ter cinco anos... Por Emílio Fontana Filho

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Edição 101
Tem uma musica chamada “Era uma vez “, da cantora Kell Smilth.... Eu queria que vocês ouvissem. Não é nada pós-muderrno, inovador. São acordes simples com uma letra despretensiosa, porém é duma assertividade impressionante. A musica diz: ”É que a gente quer crescer, e quando cresce, quer voltar ao início. Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido”. E não é? E não é que a gente tem cinco anos e quer ter 15, tem 15 e quer ter 18. Tem 18 e quer ter mais para ter coisas, títulos, dinheiro, poderes... Pra quê?
Na realidade, pense bem... Que bom seria se a gente pudesse voltar ao início da vida...Putz, que delícia se eu pudesse ter cinco anos, comendo mingau de maizena feito pela minha mãe e depois ouvir ao pé do ouvido, ao pé da cama, a canção Boi da Cara Preta cantado com a linda voz de Carmita.
No dia seguinte, o mais difícil de tudo na vida era ir pra escola. À tarde, empinar papagaio, carrinho de rolimã e jogo dos três mosqueteiros da Europa. -“Nós somos os Três Mosqueteiros da Europa, o que desejam?” Desejávamos crescer freneticamente para fazer tudo que os adultos fazem. Tudo o quê? Te pergunto, tudo o quê? Acho, acho não, tenho certeza, que eu e você éramos muito mais felizes quando crianças, quando potrinhos. Embora o velho dramaturgo Nelson Rodrigues gritasse: envelheçam! Nelson dizia que os jovens sofriam demais e o segredo da baixa do nível de sofrimento era o envelhecimento.
Não concordo com Nelson Rodrigues, e me permito dizer, rejuvenesçam! Rejuvenesçam antes que seja tarde demais! Hoje passei a manhã numa fazenda onde fui fazer uma reposição de prolapso de útero de uma égua crioula. Aliás, foi difícil bagarai, porque o órgão é “molengo”; você empurra daqui, ele escapa dali. Você lubrifica daqui e seca dali. Além do que (eu já falei disso em outra crônica), o prognóstico nestes casos é desfavorável. Tinha um senhor me ajudando á erguer o útero, que estava todo pra fora, no alto, para que a força da gravidade também ajudasse. O cara bufava, bufava e reclamava de dor aqui, ali, porque tinha nervo ciático (quem não tem?..rs), bla bla e bla e resmungava. Parecia que estávamos fazendo os 12 trabalhos de Hércules (lembra do livrinho?). Pois é...
Depois que terminamos a novela de repor o útero dentro da égua, perguntei quantos anos ele tinha. Me respondeu. Eitcha dotô, quarentano! Quarenta anos. Nooossa, disse eu! (rs). “Sô de 78”, disse ele. 1978!  Ah, vá à merda! Bufando aos 40 anos? Brincou né?

Brincadeiras à parte, a gente envelhece e só arruma pra cabeça: filhos, netos, decepções, amores, encantos, desencantos, traições, punhaladas pelas costas. Balas perdidas da vida se acumulam em nosso corpo que dói, dói muito. Eu entendo o quarentão exausto. Neste caso da égua, o cara era também um banana..rs. Mas nós normais (rs), também passamos a maior parte do nosso tempo adulto sofrendo mais que devíamos. Gente, nós sofremos por pequenas coisas. Acordamos de manhã e já com o c. na mão. Será que as coisas vão dar certo? Nossos problemas serão resolvidos ou, pelo menos, atenuados? Pedimos ajuda a Deus, aos anjos, oramos para nossa proteção, que parece que nunca estará completa. Nunca nos sentimos seguros de fato. Tem sempre um medinho ou um medão nos rondando. Rejuvenesçamos, portanto! Porque envelhecer de nada parece adiantar. Sim, nos tornamos melhores profissionais, aprendemos a lidar com situações muito especificas e pontuais, mas nada além disso.
Com relação às emoções constatamos o óbvio: um joelho ralado dói bem menos que um coração partido. O meu celular está tocando. Ignoro. O cliente insiste. Atendo. Cólica num potro. Me dá vontade de sentar naquela varanda e comer ovos nevados da minha avó. Descalço...PS.: ouçam a música!

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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