22-Set-2020 09:24 - Atualizado em 22/09/2020 11:34
Veterinária

Laminite: o mal dos cascos

Laminite pode ser causada por vários fatores, entre eles, obesidade, ferrageamento atrasado, picos de treinamento, doenças pré-existentes e episódios de estresse

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Horse

A Laminite, conhecida popularmente como “Aguamento”, é uma das mais importantes e críticas afecções que afetam os equinos de qualquer raça, tamanho, utilização e manejo. A doença apresenta tantas características interessantes e distintas, que existem profissionais que a estudam há mais de 30 anos, realizando pesquisas para entender seus mecanismos e desenvolver novos tratamentos.

De forma generalizada, pode ser descrita como uma inflamação dentro do casco. E onde há inflamação, existe aumento de volume e de temperatura. Isso acontecendo dentro de uma estrutura praticamente rígida como o casco, pode-se imaginar o tamanho dos estragos causados.

Entre os sintomas, o animal pode apresentar febre, sudorese, muita dor, pulso nas veias digitais e relutar em se movimentar. Na maioria dos casos, os membros anteriores são mais afetados, fazendo com que o cavalo jogue seu peso nos posteriores. É um quadro que pode impressionar algumas pessoas.

A anatomia do casco e das estruturas relacionadas apresentam uma série de elementos delicados, que por excelência, visam permitir a movimentação do animal não somente de maneira natural como fazem na busca de alimento na natureza, como quando são treinados para determinadas atividades. Devemos ao menos “suspeitar” do esforço extremo que esses elementos são expostos, cada vez que um cavalo realiza um salto, uma arrancada, um esbarro, entre outros.
É nesse ponto que encontramos um dos diversos fatores que resultam na Laminite: o descaso nos cuidados com o casco. Atualmente, todo cavalo atleta ou não, pode facilmente receber os cuidados de um profissional nesta área. Existem ótimos ferradores em diversas regiões e suas visitas permitem manter estáveis elementos que interagem na instalação da doença.

O principal problema causado pela Laminite, além do comprometimento sistêmico, é relacionado com a terceira falange, que é uma estrutura óssea presente dentro do estojo córneo, que associada à Segunda Falange, ao Navicular e aos tendões flexores digitais superficial e profundo, constituem o conjunto de sustentação dentro do casco.
O processo inflamatório acaba por gerar substâncias que degradam certas estruturas que são responsáveis pela estabilidade da Terceira Falange, assim ocorre seu deslocamento em sentido da sola, podendo, em casos graves, ocorrer a perfuração desta, expondo-a, resultando muitas vezes em processo infecciosos e danos irreparáveis, onde é comum a indicação de eutanásia do animal.

Outras vezes ocorre o deslocamento, mas não a perfuração, e através de exames radiográficos é possível “medir” o grau de movimentação da Terceira Falange, da onde surge a popular pergunta: “quantos graus de Laminite esse cavalo tem?” O que é, obviamente, um erro gerado pela má interpretação sobre o assunto.
Esse dado é importante para que o Veterinário possa determinar como será o tratamento, conduta e prognóstico do animal, sendo que, na maioria das vezes, quanto maior é o grau de deslocamento, menor será a probabilidade do animal ficar sem sequelas, ou mesmo voltar a desempenhar suas funções perfeitamente, o que em atletas significa a aposentadoria precoce.

Alimentação

Outro fator ligado à Laminite é a alimentação. Estudos já comprovaram que a sobrecarga alimentar por carboidratos predispõem o aparecimento da doença. Isso é importante para o manejo alimentar, já que umas das principais e financeiramente viáveis fontes de energia, são os carboidratos e açúcares. Eles estão presentes na maioria das formulações de rações comerciais e o exagero fornecido aos animais deve ser cuidadosamente observado.
Isto, aliado a estudos zootécnicos, fez com que fossem desenvolvidas linhas de ração de alta performance, onde a fonte de energia não são os açúcares (carboidratos), mas sim as gorduras, no caso óleos vegetais. Estes resultam em alto nível de energia disponível, além de favorecerem a movimentação gastrointestinal.
E falando em sistema gastrointestinal, este é outro importantíssimo fator na manifestação da Laminite. A Síndrome de Desconforto Abdominal, ou Cólica, é uma das principais causas de Laminite, sendo que esta é encarada como uma das piores complicações no pós-cirúrgico de equinos que apresentaram problemas gastrointestinais graves.
A cólica, apesar de seu foco no trato gastrointestinal, apresenta grandes alterações em todo o animal, comprometendo outros importantes sistemas, como o cardiorrespiratório, circulatório, renal e hepático. Todo esse processo resulta na formação de substâncias tóxicas, que somadas a dor, febre e desidratação, desencadeiam a Laminite.
Sabendo disso, veterinários responsáveis pelos centros de referência e hospitais, adotam medidas para prevenção deste quadro imediatamente após o animal sofrer um quadro de cólica, medidas estas que também devem ser tomadas pelos veterinários que atuam “a campo”, quando realizam os primeiros atendimentos.

Crioterapia

O principal procedimento para tentar evitar o quadro e também para tratá-lo é a crioterapia, ou seja, o gelo! Manter o animal com as patas imersas em água e gelo é uma técnica relativamente simples, mas que apresenta ótimo resultado, com um baixo-custo e sem necessidades especiais, sendo feita na propriedade onde o paciente se encontra.
As baixíssimas temperaturas acabam inibindo a formação de determinadas substâncias que lesam as estruturas internas do casco, coibindo a inflamação. Maiores estudos estão sendo realizados para melhor entender este processo biológico.
Cavalos acometidos por Laminite recebem, na fase aguda, a crioterapia, permanecendo com suas patas no gelo por várias horas, isto por alguns dias, somando-se ao tratamento com fármacos analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos e de suporte renal, cardíaco, hepático e outros.

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Manter o animal com as patas imersas em água e gelo é uma técnica relativamente simples, mas que apresenta ótimo resultado, com um baixo-custo e sem necessidades especiais
A Laminite deve ser encarada como uma emergência e os primeiros atendimentos bem realizados são fundamentais. Cabe ao Veterinário formatar, o quanto antes, um esquema intensivo de apoio a este animal, contando com tratadores, treinadores e proprietário, para desenvolverem medidas que favoreçam o tratamento na fase aguda, e depois na crônica, minimizando as sequelas.

Algumas vezes fica complicado entender qual fator foi responsável pelo início da doença, sendo que, às vezes, ocorre uma soma deles. Animal obeso, com ferrageamento atrasado, picos de treinamento, doenças pré-existentes e episódios de estresse, são comumente encontrados durante o levantamento do caso.

Anular a possível causa primária, combater afecções oportunistas, dar suporte geral aos demais sistemas, fazem parte do atendimento inicial. A coleta de exames laboratoriais também deve ser realizada para mapear as condições fisiológicas do paciente, direcionando procedimentos e criando referências para a continuidade do tratamento.
É importante que o proprietário e demais envolvidos sejam informados sobre a gravidade da doença, métodos de tratamento, possíveis sequelas e inclusive risco de morte.

Alguns casos se iniciam de forma branda, porém o diagnóstico errado ou a não realização do tratamento, favorecem o desenvolvimento de casos graves e irrecuperáveis.

Fase crônica

Já quando falamos da fase crônica, ou seja, após o pico de instalação da doença, temos que ter em mente que o tempo é o nosso aliado. O crescimento do casco, associado a sua remodelação, dependem da fisiologia do animal e dos cuidados dedicados a ele. Alguns cavalos apresentam rápida recuperação, já outros tornam-se “pacientes antigos”, e a fase crônica pode perdurar por meses, anos ou indefinidamente.

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Ferraduras especiais como a “W” ou “Heart”, são as mais utilizadas, pois favorecem o apoio de certas partes do casco, liberam acesso a outras e remodelam a muralha e ângulos de apoio
Novamente o papel de um bom ferrador é fundamental. Deve existir uma parceria entre ele e o veterinário, discutindo o caso em cada fase, refazendo ajustes e, principalmente, pensando no bem-estar do paciente.
Ferraduras especiais como a “W” ou “Heart” (formato de coração), são as mais utilizadas, favorecendo o apoio de certas partes do casco, liberando acesso a outras e remodelando a muralha e ângulos de apoio e suspensão. Também é indicada nessa fase a diminuição do peso do animal, aliviando a pressão em cada membro, a manutenção de boa quantidade de cama na baia, caminhadas controladas e posteriormente que este animal passe a permanecer em piquete limpo, para gradativamente se adaptar as mudanças nos cascos. Suplementação a base de biotina e alimentação balanceada, ajudam o crescimento saudável do estojo córneo.

A Laminite ainda pode ser considerada como um certo “mistério” na medicina veterinária e cabe a cada profissional desenvolver sensibilidade para entender cada caso e escolher a melhor conduta em parceria com o proprietário, sempre se informando sobre novos estudos e técnicas. A rapidez no diagnóstico da doença e no início do seu tratamento são essenciais para se obter bons resultados. (Artigo publicado na edição 69 da Revista Horse)

Revista Horse
David Filho

David Filho

Médico veterinário, formado pela Universidade Estadual de Londrina, atuando em Clínica geral de equinos. Habilitado pelo MAPA para emissão de GTA, habilitado pela FPH para microchipagem. 
E-mail: [email protected]

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