30-Out-2020 09:41 - Atualizado em 01/11/2020 13:38
Veterinária

Laparoscopia em equinos

Técnica amplamente utilizada em humanos permite intervenções cirúrgicas de mínima invasão e é utilizada para o diagnóstico de tumores e lesões abdominais, biópsias, dentre outros problemas

horse,
Horse

A laparoscopia é uma técnica de exploração visual que permite a observação abdominal através da utilização de um equipamento denominado laparoscópio. Este equipamento é munido de uma câmera que transmite as imagens do interior da cavidade abdominal e seu conteúdo para um monitor que mostra a imagem. A técnica permite intervenções cirúrgicas de mínima invasão, onde incisões de pequena extensão (aproximadamente 1,5 cm) são suficientes para a entrada do equipamento no abdômen.
Para que o laparoscópio seja introduzido no abdômen, a cavidade abdominal deve ser distendida com gás carbônico, permitindo individualização dos órgãos e os afastando da parede abdominal, e assim minimizando os riscos de perfuração dos órgãos. Após a distensão abdominal, introduz-se um conjunto de lentes acoplado a uma microcâmera e cabo de luz fria, que transmitem a imagem para um monitor através de um sistema de fibras ópticas. Este conjunto de lentes é denominado laparoscópio. Após a entrada do laparoscópio na cavidade abdominal, o cirurgião avalia a alteração existente e planeja a técnica que utilizará.
A laparoscopia pode ter finalidade diagnóstica ou cirúrgica. Como exemplos, para os fins diagnósticos, temos a visualização da cavidade abdominal, a punção, aspiração e colheita de biópsias. A finalidade cirúrgica compreende, por exemplo, a retirada de tumores, de testículos retidos no abdômen no caso dos animais criptorquídicos, suturas do anel inguinal para correção de hérnias, dentre outros. Para a realização dos procedimentos cirúrgicos é necessário a utilização de instrumentais laparoscópicos, que são semelhantes aos utilizados em cirurgias abertas, entretanto mais longos e com extremidades mais delicadas.

Posições

A laparoscopia pode ser realizada em posição quadrupedal, ou em decúbito sob anestesia geral, na dependência do temperamento do animal e do procedimento a ser realizado. O animal selecionado necessita ser dócil e não reagir bruscamente a estímulos dolorosos para não colocar o equipamento e a equipe envolvida em perigo. As estruturas localizadas na porção superior do abdômen são mais facilmente acessadas em posição quadrupedal e as estruturas localizadas na parte inferior do abdômen são mais facilmente acessadas com o animal em decúbito dorsal, ou seja, deitado com o abdômen para cima, o que exige anestesia geral.

vet 76,
Realização de laparoscopia com o animal em posição quadrupedal. Equino sedado sendo submetido ao procedimento na Faculdade de Medicina Veterinária
Quando realizada em posição quadrupedal, o animal recebe sedação e analgesia através da associação de medicamentos sedativos, opióides e anestésicos locais. A realização do procedimento em estação quadrupedal elimina os riscos de complicações associadas à anestesia geral.
Independentemente da posição adotada, é necessário que os animais sejam submetidos a jejum prolongado de 24-48 horas para promover o esvaziamento dos intestinos a fim de liberar espaço no abdômen para a introdução e movimentação do equipamento.

Laparoscopia

Os primeiros relatos da utilização da laparoscopia em equinos datam de 1927; neste período o principal enfoque da utilização do procedimento era avaliação dos órgãos reprodutivos. Em 1986, o pesquisador Ted Fischer aprofundou os estudos na área descrevendo a utilização da laparoscopia no diagnóstico de alterações abdominais, e na sequência, em 1992, descreveu a técnica de retirada de testículos abdominais. A partir deste momento diversos cirurgiões começaram a utilizar a técnica laparoscópica em equinos para as mais diversas finalidades.

veterinaria,
Imagem aproximada da região paralombar esquerda do equino onde está introduzido o laparoscópico e dois instrumentos auxiliares
Atualmente, a cirurgia laparoscópica tem sido utilizada com maior frequência para o diagnóstico de tumores abdominais, biópsias, diagnóstico de lesões abdominais crônicas, previamente à laparotomia na síndrome cólica na suspeita da inviabilidade de resposta do animal frente à doença apresentada (visto ser o custo do procedimento menor comparado à laparotomia, com a vantagem da laparoscopia determinar se há chances de sobrevida do animal mediante a realização de futura laparotomia), no fechamento do anel inguinal nos casos de hérnia inguino escrotal, na retirada de tumores ovarianos, no fechamento do espaço anatômico denominado nefro esplênico (local de frequente aprisionamento do intestino na síndrome cólica), na retirada de testículos abdominais.
A laparoscopia seriada pode ainda ter utilidade no monitoramento de processos inflamatórios abdominais e na escolha do momento ideal para intervenção cirúrgica aberta convencional.

Vantagens e desvantagens

A maior vantagem da utilização da cirurgia minimamente invasiva é que ela resulta em menor manipulação abdominal, o que cientificamente comprova menor inflamação pós-operatória, além disso, a realização de pequenas incisões resultam em menor ferida cirúrgica, menor tempo de cicatrização, menos dor, e em um período de recuperação pós-operatório e de permanência hospitalar mais curto, resultando em um retorno mais rápido à atividade sócio-econômica desempenhada pelo animal.
As principais desvantagens da laparoscopia são o custo elevado do equipamento, que apresenta uso restrito a centros de referência, e a necessidade de treinamento repetido e intenso, pois o tempo para aprendizado das habilidades requeridas na cirurgia laparoscópica é longo.
A laparoscopia apresenta ainda como desvantagem uma permissão limitada de avaliação da cavidade abdominal, com impossibilidade de visualização de determinadas estruturas, não permitindo que todos os tipos de cirurgias sejam realizados por esta via.
No Brasil, diversos estudos utilizando a laparoscopia têm sido realizados em equinos, com destaque para a Universidade de São Paulo FMVZ- USP, através do professor Luis Cláudio Lopes Correia da Silva, destaque nacional na técnica laparoscopia em equinos. Atualmente, outros centros de referência contam com o equipamento como a Universidade Estadual Paulista - Unesp, Campus de Botucatu, onde são desenvolvidas pesquisas nesta especialidade em equinos.
Como observado na medicina humana, a laparoscopia em equinos constitui um avanço e uma tendência, apresentando rápido crescimento e popularização, com vantagens e desvantagens quando comparada à consagrada técnica de laparotomia, devendo seu uso ser melhor discriminado. (Artigo publicado na edição 76 da Revista Horse)

Revista Horse
Juliana de Moura Alonso

Juliana de Moura Alonso

É Médica Veterinária e aluna de Pós Graduação na área de Cirurgia de Grandes Animais na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - FMVZ, Unesp, Campus de Botucatu, com foco na área de cirurgia abdominal de equinos, reatividade peritoneal e videolaparoscopia

Deixe seu Recado