06-Jan-2021 13:55
Crônica

Let it be

Quando me encontro em momentos difíceis, mãe Maria vem até mim, falando palavras sábias: “Deixe estar, deixa pra lá, let it be...”

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Quando me encontro em momentos difíceis, mãe Maria vem até mim, falando palavras sábias: “Deixe estar, deixa pra lá, let it be...”. Quando era criança e ficava triste por qualquer motivo, saía caminhar pelos paralelepípedos mal assentados da rua do Bexiga. Às vezes, chorava, às vezes não, mas sempre cantava “boca chiusa”, como em um mantra, Let it be, dos Beatles.

Cronica,
Cronica
Coincidentemente, minha mãe chamava-se Maria e era uma mulher muito sábia e sabiamente sorria e não sofria por coisas menores do dia a dia. Este ‘let it be’ em que vivia, ela tentava me ensinar e aos irmãos, que eu não tive. Meu pai não adiantava Maria ensinar. Embora gênio, era cabeça muito dura. Sofria no dia a dia que doía. Dei erradamente mais atenção aos ensinamentos do pai do que de Mary, minha mãe. Agora, quase aos 70, sofro pra viver o ‘Let it be’. Permito-me entender que a vida nos reserva boas e más surpresas todo santo dia e que a melhor opção é não darmos peso excessivo às coisas. Somos mestres nisto! Superestimar os problemas, as rusgas, os azares até os míseros ‘ti, ti, tis’.
Homens e mulheres brilhantes amanhecem todos os dias no seu charmoso haras, na sua linda fazenda, em meio a cascos, crinas, focinhos, melodiosos relinchos e cheiros, mas não conseguem segurar o “bem estar” sequer por 24 horas. Que 24 horas o quê! Não conseguem manter a paz interior por 12 ou menos horas! Preocupações e chateações banais arruínam implacavelmente seu dia. Cuidado! Pois preocupações banais, tolas e probleminhas ridículos são capazes de estragar, derrubar seu humor e te jogar num poço profundo, às vezes, sem volta.
Meu amigo Jorginho Comparato entrou neste poço fundo por uma besteira. Já tentei jogar uma corda, colocar uma escada e não consigo tirá-lo do buraco, no qual roda em círculos a meses. Jorge é um excelente veterinário, que trabalha no vale do Paraíba, em São Paulo. Especialista em transferência de embriões em equinos, ele atendia diversos haras de Mangalarga, tanto paulista como marchador. Há um ano se separou da mulher e passou a viver com os filhos. Seu primeiro tombo. E foi fundo! A mulher era um pé no saco, chata pra cacete! Eu a conheci! Ele deveria dar graças a Deus, ou no nosso jargão de hoje, Let it be. Deixa pra lá! Se livrou de um traste! Além de tudo (parodiando Vinicius), era feia! Muito feia! Mas sabe como é, Jorge é muito religioso, o fim de um casamento é o fim do mundo.
Na sequência, semanas depois, ele recebeu outra punhalada terrível (só na cabeça dele): de um lote de 30 éguas, que ele tranferiu embriões, 10 reabsorveram ou não emprenharam. O proprietário ficou “brabo“, dispensou seu serviço e contratou um doutorzinho de merda (palavras dele), metido a besta, de terceira categoria. Jorge ficou super mal, triste e entrou mais fundo no buraco. Ah, faça-me o favor! Manda este proprietário caçar sapo com bodoque! Pentear macaco! Mas Jorge sofreu. Cara, não sofra à toa. Se perder a assistência, who cares? O mundo não acaba não, te garanto! Let it be!
Por fim, Jorge brigou com o vizinho (grande coisa), que por sinal é um criador de cavalo árabe (só podia ser) e eles não se falam. Um não olha na cara do outro. Jorge ficou arrasado, não lida bem com inimizades. Como assim? Um cinquentão, que não lida com desafetos? Jorge não, não sabe lidar e afundou, afundou de vez numa depressão profunda após estes três capítulos da sua vida, que parece cena da novela das 6. Está na cama jogado como um trapo há seis meses, se entupindo de tarja preta. Eu te pergunto, pode isso? Eu citei um amigo, com três problemas corriqueiros, sem graça, que qualquer mortal está sujeito. Levava a vida muito a sério, a ferro e fogo, tranformava miados de gatos em rugidos de leões! Esqueceu de “deixar estar” e tomou um coice da vida direto na alma!
E nós? Quantos exemplos no nosso dia a dia? Quantas coisas nos irritam, nos chateiam, nos aterrorizam e não tem tamanho pra isto? Como somos susceptíveis! Que absurdo! Qualquer peidinho vira um tsuname! O que é isso? Portanto, meu amigo, corcoveie, dê pinote, morda, escoiceie e negue-se, como um burro, carregar esta carga pesada que te machuca o lombo, cheia de quinquilharias! Se tudo isto não for suficiente, te lembro que, when I found my self in times of trouble, mother Mary comes to me, speaking words of wisdom, ‘Let it be’ (Quando me encontro em tempos problemáticos, mãe Maria vem até mim falando palavras de sabedoria, ‘Deixe para lá’). (Artigo publicado na edição 86 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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