17-Jul-2020 11:15 - Atualizado em 17/07/2020 11:46
Comportamento

Livre de dor, ferimento e doenças

O que devemos observar para manter nossos animais livres de dor, ferimentos e doenças - Parte II

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Horse

       

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Artigo publicado na edição 120 da Revista Horse
Em continuidade ao artigo que publicamos na edição 119 da Horse, voltamos a abordar o tema “Bem-estar animal”, com base nos preceitos estabelecidos pelos pesquisadores da Universidade de Cambridge, Inglaterra, que elaboraram os cinco princípios, mais conhecidos como cinco liberdades do Bem-estar animal: 1) Livre de fome, de sede e de subnutrição. 2) Livre de dor, de ferimentos e de doenças. 3) Livre de prolongado desconforto (térmico, olfativo, auditivo). 4) Livre de medo e angústia.         5) Livre para manifestar seu comportamento natural.

       Desta vez, vamos nos aprofundar um pouco mais no segundo princípio:  Livre de dor, de ferimentos e de doenças. Embora pareça obvio, nem sempre esses três aspectos são respeitados. Vejamos, então, um por um.

        Livre de dor

        Claro que o bom proprietário não quer que seu animal sofra dor. Mas a fissura pela competição e/ou a vaidade de vencer faz com que os proprietários, às vezes, deleguem seus animais a treinadores pouco éticos e sem maiores conhecimentos. Exemplos: trabalhar todo o tempo com muita de pressão; doma antes dos três anos; pulseira de corrente nas mãos ou nos pés para alterar a marcha; submeter um animal às provas de forte intensidade ou longa duração antes que ele tenha alcançado a maturidade física que, geralmente, ocorre só ao redor dos cinco ou seis anos de idade etc. Esses são alguns dos exemplos comuns que, desnecessariamente, ensejam dores musculares, tendinites, aguamentos (laminites), lombalgia, sobreossos, fratura do navicular e outros problemas.

       Exemplos: trabalhar todo o tempo com muita de pressão; doma antes dos três anos; pulseira de corrente nas mãos ou nos pés para alterar a marcha; submeter um animal às provas de forte intensidade ou longa duração antes que ele tenha alcançado a maturidade física

É preciso amar primeiro o cavalo e só depois o esporte. O respeito aos princípios do Bem-estar animal deve vir em primeiro lugar.

       Outra causa comum de dor são, geralmente, as nossas selas rurais. Geralmente deixam muito a desejar no que diz respeito à ergonomia para o cavalo. O conforto, normalmente, é pensado só para o cavaleiro, não para o cavalo. Prova disso são os assentos macios (espumados) para o cavaleiro, mas suador (parte de baixo da sela que se apoia no cavalo) nada macio. Além disso, as duas basteiras (“almofadas”) do suador são, geralmente, fixadas muito próximas uma da outra, não guardando a devida distância da coluna vertebral do cavalo; basteiras muito compridas pressionam as espáduas e a região lombar, ambos locais onde nunca deveriam se apoiar; suador chato  fixado numa armação por demais fechada leva a compressão da coluna e, quando fixado numa armação muito aberta, leva a parte de baixo do assento da sela a atritar diretamente a coluna vertebral do cavalo. A subliminar dor é demonstrada, sutilmente, pelo cavalo através do dorso tenso e das passadas curtas com retropegadas.

    Freios de ponte (passagem de língua ou curvatura central do bocado) alta são idiotices, não obstante comuns, que levam à inútil e contraproducente pressão no céu da boca do cavalo e, consequentemente, dor a cada vez que as rédeas são acionadas.

    Casqueamentos incorretos, mas que, inconsciente ou propositalmente, alteram a movimentação dos membros também provocam dores. Certamente há mais desconhecimentos técnicos que levam, desnecessariamente, à dor.

        Livre de ferimentos

        Cantos vivos nas cercas dos piquetes, nas paredes das cocheiras, nas quinas das aberturas de portas, nas bordas dos cochos, entre outros, não raramente levam a traumatismos ou ferimentos. Pregos salientes em paredes ou cercas de madeira provocam, facilmente, ferimentos. Pedras soltas, pedaços de arame farpado pelo chão e tocos pontiagudos no solo podem ocasionar ferimentos nas partes inferiores dos membros locomotores.  Precisamos estar sempre atentos para essas coisas. Cuidar é também prevenir.

Articulações laterais dos bocados das embocaduras, quando desprovidas de protetores, o que infelizmente é muito comum, levam cedo ou tarde a ferimentos nas comissuras labiais.

        Articulações laterais dos bocados das embocaduras, quando desprovidas de protetores, o que infelizmente é muito comum, levam cedo ou tarde a ferimentos nas comissuras labiais. Barbelas ásperas esfolam a barba (queixo). Animais que não se dão bem, quando postos em lados opostos de uma mesma cerca de arame liso, muitas vezes trocam coices e, nessa hora, acabam prendendo uma perna, a qual fica entalada entre o segundo e terceiro fio de cima para baixo. São acidentes gravíssimos.
Para equinos a cerca de arame liso nunca deveria ter mais do que dois fios, pois assim não ocorrem esses acidentes. Desde que devidamente esticados são suficientes. Claro, nesse caso convém que o intervalo entre os palanques seja um pouco menor.  O gasto a mais em palanques é compensado pelos fios a menos e, principalmente, pelos sérios acidentes evitados.

    Nunca é demais lembrar que equinos são animais de gregários, mas muito ciosos de seu grupo. Não gostam de estranhos.  A introdução de um equino novo no grupo é causa de muitas brigas e ferimentos. Toda introdução de estranho ao grupo deveria ser feita de forma gradativa, com muito cuidado. Deve ser feita em ambientes bem espaçosos e precedida de alguns dias de convivência próxima, mas sem contato direto.  Se possível, na primeira vez, a introdução deve ser acompanhada do responsável pelo manejo da tropa.

    Nunca amarrar um cavalo pelas rédeas. Outra causa de acidentes é deixar as rédeas soltas quando se desce do cavalo. Isto permite que elas caiam e quando o cavalo as pisa acaba levando tranco na boca e ferimentos nas barras. Enfim, são muitas as possibilidades de ferimentos.  Cuidar bem é também prevenir tudo que pode causar ferimentos. E todo cuidado é pouco.

A posse responsável pressupõe um adequado planejamento sanitário. Instalações limpas e arejadas, boa nutrição, água fresca a vontade, pastagens bem manejadas, sombreamento suficiente, controle de parasitas (vermes e carrapatos) e, sobretudo, um apropriado roteiro de vacinações para prevenir doenças graves

     Livre de doenças

    A posse responsável pressupõe um adequado planejamento sanitário. Instalações limpas e arejadas, boa nutrição, água fresca a vontade, pastagens bem manejadas, sombreamento suficiente, controle de parasitas (vermes e carrapatos) e, sobretudo, um apropriado roteiro de vacinações para prevenir doenças graves. Nas doenças que não se tem vacina como Anemia Infecciosa Equina (AIE) e Mormo, o recurso é só permitir a aproximação de equinos desconhecidos se, por atestados, eles comprovadamente não forem portadores dessas patologias.  

    Pensem nessas coisas todas e até o próximo princípio que será abordado no Bem-estar Animal III da próxima edição (Artigo publicado na edição 120 da Revista Horse, disponível também na versão digital).

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Revista Horse
Sérgio Lima Beck

Sérgio Lima Beck

é hipólogo e autor dos livros "Manual de Gerenciamento Equestre" e "Marcha: Mitos, Verdades e Outras Coisas". e-mail: [email protected]

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