30-Out-2020 10:34
Carta ao leitor

Mais ciência, menos empirismo

Não é apenas na questão do Mormo que faltam estudos e pesquisas. Há tempos o setor carece de informações mais específicas sobre o segmento equestre

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Aos poucos as atividades equestres vão voltando ao que se convencionou chamar de “novo normal”, com a retomada de provas seguindo protocolos sanitários de combate à Covid-19 e sem a presença de público. Um bom exemplo disso foram as provas comemorativas dos 85 anos do Clube Hípico Santo Amaro (CHSA), que marcaram o retorno das provas de hipismo na Capital paulista e promoveram, depois de 30 anos, a volta da Modalidade de Concurso Completo de Equitação (CCE), como mostra a reportagem de capa que começa na página 26.

Por fora das pistas, o segmento também segue o habitual ritmo galopante. O recém-criado Instituto Brasileiro de Equideocultura (IBEqui) deu o primeiro passo rumo aos seus objetivos e realizou um importante workshop com dirigentes do Ministério da Agricultura, Pecuárias e Abastecimento (Mapa) para discutir a problemática do Mormo com representantes da comunidade equestre.

O encontro, como mostra a reportagem da página 22, evidenciou as grandes controvérsias e desafios que existem sobre o assunto. Embora a nova gestão do setor de equídeos do Mapa demonstre maior disposição na busca de soluções, há alguns pontos nebulosos que ainda precisam ser superados. Um deles diz respeito a maior precisão dos exames de diagnósticos, que está diretamente ligada aos estudos sobre a bactéria Burkholderia Mallei (BM), causadora da doença.

Para entender um pouco mais desse tema, a Revista Horse conversou com o microbiologista Rinaldo Mota, primeiro especialista a afirmar que isolou a bactéria BM no Brasil. Na entrevista publicada na página 10, o cientista pernambucano fala sobre os trabalhos que realiza desde 1998, garante que a doença existe, mas não descarta a possibilidade de haver mutações em diferentes regiões do País, uma das razões pelas quais há tanta disparidade nos resultados de exames. A solução, aponta o doutor, seria mais estudos e pesquisas.

O cientista tem razão. E não é apenas na questão do Mormo que faltam estudos e pesquisas. Há tempos o setor carece de informações mais específicas sobre o segmento equestre nacional, como já alertado pela Revista Horse em outras oportunidades. O Estudo do Complexo Agronegócio Cavalos, realizado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) em 2006 e atualizado precariamente em 2016, está obsoleto. Não precisa ser nenhum especialista para chegar a essa constatação. Basta acompanhar o crescimento do segmento nos últimos anos. Aqueles R$ 16 bilhões de movimento ao ano apresentados recorrentemente em infinitos artigos já seriam bem diferentes se corrigidos pela inflação do período. Imagine considerando o evidente crescimento do segmento.

Fica até ridículo para um setor desse porte citar dados com quatro anos de defasagem. Está aí um novo desafio para as grandes entidades do meio. Sem números e estatísticas, não há argumento. O que o setor precisa é mais ciência e menos empirismo.   

Revista Horse
Marcelo Mastrobuono

Marcelo Mastrobuono

jornalista, editor da Revista Horse

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