26-Out-2020 09:16
Treinamento

Molduras da Equitação

As três posições básicas da cabeça/pescoço são baixa e longa, horizontal e alta

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Horse

O treinamento dos cavalos se desenvolveu muito nas últimas décadas e podemos visualizar com facilidade estas nítidas diferenças quando assistimos aos vídeos de competições antigos e os compararmos com os atuais. Como exemplo, cito a moldura e movimentação do cavalo Piaffe, de Liselott Linsenhoff, medalha de ouro durante as Olimpíadas de Adestramento em 1972, em comparação com o cavalo de Edward Gal, o espetacular Moorlands Totilas. Na década de 70, os cavalos eram, em geral, montados com o nariz acima da vertical. Durante as últimas décadas, a equitação desenvolveu-se e aperfeiçoou-se. Os níveis de exigência das competições funcionaram também como propulsores ao aprimoramento do “tato” equestre.
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Treinamento 75
Para debater e compreender os efeitos das técnicas aplicadas no que dizem respeito às molduras, é necessário ter um conhecimento prévio sobre anatomia e biomecânica. Apesar da introdução acima (onde inevitavelmente falei sobre o cavalo acima ou abaixo da vertical), me aterei às três posições básicas da cabeça/pescoço: baixa e longa, horizontal e alta.
Pela sua natureza, um cavalo carrega 60% do seu peso sobre o conjunto de frente e 40% atrás. Ao montá-lo, o cavaleiro provoca mais um sobrepeso sob as mãos. A fim de manter o equilíbrio causado por este peso, o cavaleiro ensina o cavalo a usar as suas pernas, fortalecendo as suas costas, com o intuito de elevar a frente e restabelecer o equilíbrio. Somente quando a musculatura do cavalo fluir através das nossas pernas e assento, é que ele poderá expressar a sua movimentação exibida quando está em liberdade.
E por onde começar? Para baixo e para longe. Esta é a primeira moldura. O cavaleiro convida o cavalo a fazer uma “baixada de pescoço”, levando-o até o chão de maneira a alongar a silhueta. Este exercício deverá ser empregado objetivando o ritmo, a regularidade, a flexibilidade e a descontração através do convite de ceder a nuca. Buscar esta flexibilidade da nuca, pescoço e coluna é fundamental para se chegar ao propósito principal de uma equitação com qualidade: o trabalho dos posteriores. A tensão muscular gera obstáculos para a energia chegar à embocadura.
É importante que o cavaleiro busque a baixada de pescoço durante os três andamentos, permanecendo a atenção sobre a qualidade das transições entre eles. As transições podem ser crescentes ou decrescentes. Por exemplo, auto/passo, passo/trote, trote/galope são transições crescentes, enquanto galope/trote, trote/passo, passo/auto são transições decrescentes.
É de suma importância que haja calma e fluência nas transições, sem interromper o fluxo do movimento, haja visto que um bom trabalho de transições proporciona descontração, flexibilidade e permeabilidade no cavalo.
Durante o trabalho de transições é essencial que se faça uso das “meias-paragens”. Para realizar as meias-paradas o cavaleiro deverá:
1 - aumentar o contato com as rédeas, pressionando as coxas contra a sela;
2 - colocar os ombros ligeiramente para trás e para baixo;
3 - contrair a musculatura das nádegas com a sensação de afundar o assento.
Cuidado ao confundir as meias-paragens apenas com uma ação de uma ou ambas as rédeas para trás, pois certamente o efeito será contrário, fazendo com que o cavalo endureça o dorso, bloqueando a ação dos posteriores, tornando impossível realizar uma transição suave e fluente. As meias-paradas deverão ser repetidas até a aceitação do cavalo, buscando o estímulo de avançar, mas sempre com um contato positivo de maneira que o próprio cavalo busque o encontro com a rédea por si só.
Em 1979, Dr. Yasko afirmou que “o nariz no chão alonga e fortalece os músculos das costas, da pelve e do abdômen. É por meio desta postura e do desenvolvimento muscular do cavalo, que se obtêm a capacidade de transportar-se, com o tempo, o seu cavaleiro. Esta é melhor formação de base“.
Ao contrário do que alguns pensam, este exercício não dificulta a aceitação da mão e embocadura. Quando o exercício é realizado de maneira correta e o cavalo recebe um contato leve e consistente durante a prática, a tendência é a melhoria desta aceitação, visto que o fluxo de energia vem através de suas pernas e costas que foram devidamente estimuladas.
No artigo “As bases para o Treinamento de Ginástica do Cavalo”, de agosto de 1978, Mikolka ressalta que a comunicação “entre ajudas do cavaleiro e a atividade dos músculos do cavalo é especialmente importante. A fim de realmente compreender essas relações, é necessário reconhecer os componentes básicos na conformação do cavalo, e também saber a formação e efeito da estrutura muscular do cavalo”. É de fato essencial lembrarmos que estamos lidando com os músculos que afetam uma comunicação. Se não estamos preparados e relaxados suficientemente para sentir e desenvolver o cavalo, a flexibilidade global vai sofrer. Obviamente não precisamos ser “expert em anatomia”, mas para compreendermos esta ginástica é fundamental termos conhecimentos básicos sobre o processo de flexibilidade, sobre o qual envolve músculos e articulações.
A moldura horizontal é a intermediária entre a baixa e longe e a alta. Ao trabalhar com a frente nesta posição, os anteriores recebem menos peso. É recomendável fazer um trabalho de alternação entre estas duas molduras, a fim de não fazer um treinamento estático. Alterne, por exemplo, trabalhando 10 minutos na moldura horizontal e dois minutos da moldura baixa e longa etc. Certamente o período de tempo deverá variar de acordo com as condições do cavalo.
Na moldura alta subtende-se que o cavalo já tenha conquistado os pré-requisitos necessários através do exercícios citados anteriormente. Para trabalhar nesta moldura, onde a nuca será o ponto mais alto do cavalo, há de se pensar também no fortalecimento dos músculos abdominais. Este grupo muscular é também de grande importância. Os oblíquos abdominais internos e externos estabilizam a coluna vertebral e, em certa medida, movem a parte inferior da bacia para frente. E é principalmente o músculo reto abdominal que ajuda a parte inferior das costas. Para exercitar estes músculos pode-se trabalhar em subidas e descidas, passando por pequenos saltos, trotando sobre cavalete. O trabalho ao galope envolve mais grupos musculares que ao trabalho a trote.
Um cavalo jovem e inexperiente nunca deverá ser forçado a trabalhar numa moldura alta, igual a um cavalo que foi previamente preparado. Ele poderá “levantar” a frente, mas estará desconectado dos posteriores. Em geral, estes cavalos possuem um dorso rígido e tenso e, por este motivo, a energia não chega atrás, não “passa” pelo dorso e, consequentemente, não chega à mão do cavaleiro.
Importante ressaltar que os cavalos em estágio mais adiantados que já possuem todas as condições para trabalharem na moldura alta (up-hill), com posteriores engajados, onde vê-se nitidamente a formação de um círculo de energia, devem trabalhar continuadamente de maneira alternada nas molduras baixa e longa e horizontal. Todos os nossos cavalos que já se encontram neste estágio trabalham nas primeiras molduras e continuarão a trabalhar durante toda a sua vida. Emprego-as durante o aquecimento e desaquecimento, assim como em inúmeros momentos entre um exercício de maior reunião e outro. Isso é fundamental para manter o alongamento e a elasticidade. Aliás, uma boa reunião e engajamento depende intimamente de um ótimo trabalho de alongamento e extensão.
Acredito que, cada vez mais, a equitação como ciência e arte deve ser estudada mais profundamente. Anatomia, biomecânica e fisiologia do exercício devem ser temas de interesse e reflexão de cavaleiros, treinadores, juízes e todos os demais envolvidos. (Artigo publicado na edição 75 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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