17-Mar-2020 15:41
Treinamento

Na Equitação, os fins não justificam os meios

“Cavalos não geram heróis, mas homens que aprendem a reconhecer os seus próprios limites” (Paulo Guilhon, em Ndzinji - A Escola Chamada Cavalo)

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Talvez alguns considerem esta coluna um pouco polêmica. Trata-se, entretanto, de um assunto que deve ser abordado, refletido e discutido com despojamento de ideias preconcebidas e, muitas vezes, enraizadas no meio em que atuamos. Sendo assim­, convido-os a uma reflexão.
O que é Equitação? É esporte, é ciência, é lazer e, também, é arte refinada. Mais importante do que saber o que é a Equitação, é saber qual o seu significado para nós. O que tem acontecido com esse esporte quando se trata de alta performance? E com alguns treinadores e atletas? De forma alguma estou generalizando. O fato é que tenho visto cavalos tristes e desmotivados e tenho recebido diversas indagações provenientes de observações e críticas feitas pelos meus alunos, amigos e profissionais do cavalo.

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Devemos nos lembrar que não estamos lidando com máquinas, mas com um ser vivo altamente sensível e perspicaz
Para que se considere uma boa equitação é fundamental o estudo teórico e a prática constante. Mas não seria a boa relação entre cavalo e cavaleiro o maior de todos os fundamentos?
Há cavaleiros e amazonas, de várias modalidades, que passam anos empenhados em conhecer e dominar todas as técnicas, mas não têm procurado “escutar” as necessidades do seu cavalo. Como esporte, devemos nos lembrar que não estamos lidando com objetos ou máquinas, mas com um ser vivo, altamente sensível e perspicaz!
Na minha experiência pude presenciar cavaleiros e treinadores muito envolvidos com a técnica e ansiosos pelo pódio, mas despercebidos dos sentimentos e condições emocionais do cavalo que monta.
Causa-me certa tristeza observar, em alguns treinamentos e provas, que o animal está exausto, com medo, inseguro, talvez... E o cavaleiro, não consegue entrar em sintonia com suas necessidades. Está mais focado no desempenho, na disputa, no pódio, no prêmio.
Por ser também professor, treinador e técnico tenho alunas que estão em competição e, por esse motivo, tenho saído de casa para estar presente em algumas provas. Nessas oportunidades procuro estar atento ao treinamento de outros competidores, assim como na maneira como outros treinadores abordam as suas técnicas. Vendo de fora, observo cavalos demasiadamente tensos e sendo exigidos muito mais do que podem. Os cavalos chegam muito próximos da exaustão e, mesmo assim, continuam a trabalhar mais e mais. Tenho visto excesso de repetições e poucos momentos de descontração. Alta exigência e baixa recompensa. Resultado disso tudo são cavalos e cavaleiros frustrados, desprovidos de brilho.
Além disso, há um número significativo de bons cavalos “quebrados”, ou seja, com baixa longevidade esportiva. Compreendo que um bom treinador/cavaleiro tenha “sede” de ensinar o seu cavalo, mas essa sede deve ser saciada com um copo de água por vez.
Como esses cavalos, como descrito acima, conseguirão manter a mente desperta, concentrada e motivada na execução do que está sendo solicitado? Cavalos esses, em sua maioria, munidos de excelente alimentação, mas não seria o “alimento” mental e emocional um fator altamente importante?­ Quantos atletas tiveram acesso à vasta literatura sobre etologia e psicologia animal?


Por isso, convido o leitor a importantes reflexões:
- Como tem sido o treinamento diário com os seus cavalos?
- Há mais momentos de frustrações ou de satisfações?
- Como é o comportamento do seu cavalo quando você o convida para trabalhar?
- Oferece o dorso para ser trabalhado ou o mantém rígido, inflexível e tenso?
- E o olhar? Quanta coisa nos diz o cavalo através do olhar. Você o percebe?
- E a máxima da equitação, pedir pouco e recompensar muito, você a tem colocado em prática?
O cavaleiro e treinador habilidoso, que ensina inúmeros exercícios ao seu animal durante anos de treinamento, deve ser capaz de compreender que todo esse processo envolve uma linguagem de entendimento mútuo. Que o seu cavalo deve aprender a realizar os exercícios com menos desgaste físico e emocional, assim como se estivesse em um “jogo” que envolve trocas e que faça sentido para ele.
Toda pessoa “do cavalo” deve desenvolver e apurar a sua sensibilidade. Deve manter o desejo de profundo envolvimento com o seu cavalo e colocá-lo sempre como prioridade. Certamente que os cuidados com sua saúde e sua manutenção de maneira geral são responsabilidades nossas, mas também somos responsáveis pela criação de ambientes e condições favoráveis para que ele sinta-se “feliz”. Se não for assim, nos tornamos usuários e não parceiros. Por esse motivo, costumamos dizer: o cavalo é o espelho do seu cavaleiro!  (Artigo publicado na edição 62 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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