30-Out-2020 09:26 - Atualizado em 30/10/2020 10:12
Entrevista

Não basta criar; tem de cavalgar

Marcelo Batista, da Agro Maripá, fala como abriu seu próprio caminho na criação e dos prazeres e dissabores da empreitada de levar o Mangalarga Marchador para Europa, hoje emperrada pelo problema do Mormo

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Horse

O empresário Marcelo Batista, da Agropecuária Maripá, tem uma forma muito peculiar de conduzir os seus negócios. Prefere abrir os seus próprios caminhos ao acompanhar a manada. Para isso, tem um princípio básico: para criar, é preciso saber montar. Dessa forma, investiu fundo na formação de uma genética específica de Mangalarga Marchador, escolhendo na própria sela a base de sua tropa.
Marcelo também acredita que a função básica de um bom marchador é servir o usuário. Em razão disso, abriu mão de participar de competições em exposição da raça. Prefere participar mostrando os produtos de suas fazendas de Minas e do Interior de São Paulo, cujas qualidades vão muito além do carrossel de pista, acredita.
Seu prazer pela montaria o levou para além-mar. Já cavalgou, acompanhado pela esposa Sophia, mais de 1.500 km em terreno Europeu, em alguns dos cenários mais deslumbrantes do mundo. Para isso, levou animais de sua própria tropa, que hoje compõem o Projeto Vitrine Marchador, com o objetivo de abrir o mercado europeu à raça.
Nesta entrevista, concedida à Horse no estande da Agro Maripá na Equitana 2015, Marcelo Batista fala sobre sua visão como criador, os prazeres que o cavalo lhe proporciona e os desafios que o Brasil enfrenta em várias questões de ordem política e cultural para desenvolver a equinocultura nacional, entre elas a articulação para enfrentar o problema do Mormo, que na sua opinião está sendo tratado de forma totalmente equivocada, tanto por criadores quanto pelo governo. Confira!

Você é um dos precursores do projeto Vitrine Marchador. Como foi o início desse processo?
Na verdade, a Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) foi chamada e convidaram alguns criadores. Vi uma grande oportunidade de trazer meus cavalos e aproveitar para fazer uma cavalgada em Santiago de Compostela, em comemoração aos meus 60 anos e 35 de criação desenvolvendo nossa genética. Separei dois animais, o Patek e o Urano. Não pensava nem em mercado no momento. Viemos e fiquei maravilhado, porque passei a prestar mais atenção em minha própria genética. Os dois garanhões vieram de um pleno calor de dezembro, com quatro anos apenas, e chegaram aqui (Alemanha) nevando. Fizeram só a adaptação para entrar na Europa. Foram apenas pouco mais de dois meses e já estavam na Equitana, fazendo apresentações com público e tudo. Imaginei que poderia dar algum problema, pois tudo aquilo era novo para nós. Sempre confiei, é verdade, mas mesmo assim fiz pré-teste. Entrei numa cidadezinha perto do Maripá de Minas e passei com eles no meio dos sambistas de uma escola da cidade, no meio da bateria, e os cavalos não se assustaram. Depois da Equitana, eles foram para outras feiras, inclusive na Itália, e tudo deu muito certo. Também fizemos outras cavalgadas.

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Entrevista 76
Como foi a repercussão inicial?
Foi muito bacana. Até agora já andamos uns 1.500 km na Europa. Isso ajudou muito a dar visibilidade ao Mangalarga Marchador. Quando contratamos alguém, os animais vão para uma baia na qual as pessoas, de certa forma, não conhecem, não sabem como é o Marchador e passam a ter uma ideia de como é a cabeça dele, dentre os outros cavalos. Alguns ficam maravilhados e isso é muito bom. A gente passava na rua e perguntavam: “Cavalo brasileiro? Cavalo Mangalarga Marchador? Como é isso e tal?”. Quer dizer, não só o projeto Vitrine funcionou nas exposições, como também as cavalgadas contribuíram muito para chamar a atenção do Mangalarga Marchador, aí sim no uso correto dele. Nós saímos daquela coisa de só mostrar na exposição e fomos a campo.

O que representou para você ser o protagonista dessa história?
Teve público que aderiu, gostou e muita gente vem perguntando da raça, tiraram foto conosco. O primeiro cavalo brasileiro a pisar no caminho Santo, em Santiago de Compostela foi um Mangalarga Marchador e nem mesmo há uma divulgação a respeito disso. Mas para mim, isso é uma coisa fora de série. Entendi isso como algo muito bacana, um privilégio poder fazer isso e deixar na história da raça, pois nenhum outro fez, a não ser o meu Patek, o Urano, comigo e com a Sophia (esposa), que me acompanhou o tempo todo. Ela ama cavalo, gosta de montar e é uma bela companheira.

O que mais as pessoas têm curiosidade de saber do Marchador?
O cara quer ver o andamento, que pode ser um pouco picado, batido, mas é cômodo, diferentemente de qualquer outro cavalo. E isso é que chama a atenção do público. Além disso, a cabeça dos cavalos. Nestas cavalgadas, as pessoas que foram conosco viram a atitude dos nossos animais, a coragem deles em descer morros, em passar obstáculos, pontes pequenas, com água passando embaixo. Em geral, os cavalos deles não passavam, davam a volta, contornavam. Diziam que era perigoso, mas nós fazíamos isso porque sentíamos que o cavalo não estava com nenhum medo, nem receio de passar pontilhões, de baixo de túneis, de carretas.

Isso mostra que o marchador é um cavalo que pode explorar muito mais o mercado de usuário?
Verdade! Os Estados Unidos, por exemplo, são um país que tem a tendência de criar, porque eles têm mais espaço. Aqui na Europa, o cara é usuário. Assim como são apaixonados por cachorro, eles são apaixonados por cavalo. É diferente. Eles são usuários mesmo, querem mexer com o animal, montá-lo. As pessoas ficam maravilhadas só de visitar os cavalos. Eles saem pela floresta, pegam um percurso com descidas, subidas, árvores, isso, aquilo e o cavalo não se assusta. Isso os deixa admirados, porque, na maior parte das vezes, os cavalos daqui têm sangue mais forte, embora cavalguem também. Mas o Marchador é muito fácil para uma pessoa que não tem grandes habilidades. É bom para velho, criança, pessoas que não dominam o adestramento correto. Se bem que na Alemanha, a pessoa já nasce montando, assim como no Brasil o cara nasce jogando bola. Essa é a diferença.

Sobre a Equitana em si, como a classifica em relação às outras feiras?
Nunca vi nada igual. É uma coisa que tem tudo a ver com cavalo e com as coisas em volta dele. E tudo com uma quantidade absurda. Tem botas, baias, comida, nunca vi nada assim. E outra: tem apresentações de todas as raças. Você tem de jumento a qualquer coisa. Aliás, a gente deveria pensar em trazer nossos burros para cá.

Acha mesmo que o jumento do Brasil tem espaço na Europa?
Nossos burros marchadores vão fazer a diferença aqui. Eles vão pirar, pois são bons de montar e têm uma utilidade ímpar. O que eles possuem aqui, não têm a nossa qualidade. Desculpa falar isso, mas os jumentos que estavam aqui não têm a qualidade dos jumentos do Brasil, nem o andamento das nossas mulas. É um mercado que pode ser atingido também. Muita gente acha que não, mas aqui abre a porta para qualquer coisa que você imaginar. É um mundo diferente, realmente é espetacular.

Você também é conhecido por ter uma linhagem no Brasil muito específica. Como formou isso?
Na verdade, na região de Minas da qual eu venho, havia um criatório chamado Abaíbas, que tinha muitos animais. Tenho uma admiração profunda por eles, mas, infelizmente, acabaram. São animais muito fortes, bons de cabeça e de um criador que vinha com essa tendência desde 1930, até bem pouco tempo atrás. Lamentavelmente, não deram sequência na genética e tive a oportunidade de aproveitar um pouco desse caminho dele, até pela proximidade de nossas fazendas. Coloquei uma genética um pouco diferenciada, com mais beleza e tirei aquela coisa do cavalo mais simples. Inseri uma rusticidade e beleza prática, muito interessante. Mas não foquei pura e simplesmente no Abaíba. Centralizei no indivíduo.

Como foi esse processo de aperfeiçoamento?
Quando olhava um cavalo, queria ver um animal parecido com os Abaíbas, com o andamento diferenciado e com a cabeça boa. Então, com 35 anos de criação, pude montar nas bisavós, nas tataravós. Não usei nenhum cavalo que eu não tivesse montado, que não tivesse tido um critério de olhar as mães. Para mim, as mães têm uma importância vital. Usei o indivíduo e a fêmea, olhando sempre para tendência de onde ela poderia me representar, em que lugar iria bem. E sempre tentando fazer um trabalho para melhorar. E é o que faço até hoje: tento sempre melhorar. Nunca chega num ponto de satisfação. O criador que fala que chegou no ponto, resolveu todo seu ideal, não está falando a verdade. Quem cria quer corrigir vários problemas que tem e não é fácil. Você não corrige um cavalo em menos de uma década.

Você consegue perceber com clareza essa evolução no processo?
Graças a Deus tenho um caminho diferente na minha vida. Há uns 20 e poucos anos, montava muito pouco. Por isso, comecei a ir para a hípica para aprender a montar. Hoje faço Adestramento. Também me pegava muito aquela coisa de comandar o peão, porque ele é quem sempre comanda o patrão. Por conta disso, comecei a observar como faz o casco, a crina e como administra um cavalo. Caso você não saiba como administrar o básico de um cavalo e não saiba montar, dificilmente você vai criar. O mínimo que a pessoa tem de fazer é um esforço para se aperfeiçoar também; não adianta só melhorar o cavalo. A pessoa tem que se informar; não adianta fazer o animal sem ter conhecimento. Vejo muito criador perguntar para o peão se o andamento do animal está bom. Para mim, não há nada mais ridículo do que isso.

No Brasil tem muito disso: a desinformação do criador o deixa na mão do peão?
Acredito que quase todas as raças têm um pouco disso. Até no Lusitano, os patrões, em geral, não montam. Aqueles que montam, se sobressaem perante os outros.

Ouço muitas pessoas criticarem os peões de cavalo de marcha, de uma forma geral, porque têm a equitação muito limitada. Você percebe isso também?
Isso é a maior vergonha nacional. Você vê os cavalos trabalhando invertidos nas posições. Eles botam a cabeça em cima, a área de dorso lombar deles fica no buraco e não sabem disso; pensam que isso é o ideal. A pouca cultura faz com que as pessoas percam o maravilhoso potencial desses cavalos. Só que temos poucos que administram isso com a cabeça voltada para melhorar o cavalo. Eles estão mais preocupados com pista (provas) e acabam forçando o animal. Tem pessoas que usam corrente e maus-tratos para fazer o cavalo marchar. Acho isso a maior sem-vergonhice do mundo. O cara usar um artifício e vender o animal como sendo bom é uma falsidade ideológica, um crime. O cavalo tem que andar o natural. Se ele é duro normalmente, vai passar isso. Caso marche naturalmente bem, também vai passar isso. Agora, se ele é feito, passará uma mentira e isso não concordo de jeito nenhum.

Será que o Brasil vai conseguir evoluir nesse sentido?
Só há um jeito de evoluir: as pessoas usarem mais os cavalos e entenderem mais da montada, do animal em si. Caso contrário, se for só ficar focado em exposição, em pista e na evolução do que acontece nela, é um grande desastre. Veja, por exemplo, o Quarto de Milha, tem lá a pista de morfologia deles e não saem da reta. E eles têm várias modalidades de funcionalidade. Tem o Quarto de Milha de velocidade, o de apartação, mas a morfologia dele está ali, parada. Já o nosso cavalo sequer tem o estudo da morfologia. Eles só falam em andamento. Na pista, o animal que andou é o cavalo campeão. Na morfologia ele vale pouco, porque não há esse entendimento. Há até brincadeiras de que de vez em quando colocam uma mula marchando, com a orelha boa, não muito grande e falam: se passou a marchar, pode entrar no livro aberto do Mangalarga Marchador. Não tem absurdo maior que esse, mas tem essa brincadeira no Brasil.

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Entrevista 76
Nessas cavalgadas que fez, qual foi a que mais lhe tocou? Foi o caminho de Santiago?
Todas me tocaram muito, cada uma pelo seu ângulo. O caminho de Santiago foi uma coisa fantástica, porque é místico de fato. Sou religioso, sou católico, gosto de ir à igreja e pude ver a cada passo uma coisa diferente, achei muito bacana. Não entrei nessa do compromisso religioso. Fui realmente para ver como era no todo, mas vi muitas capelas interessantes, muitas coisas voltadas ao cristianismo do passado.
O mormo é hoje o grande empecilho para a expansão do marchador na Europa?
O Brasil tem um potencial absurdo, mas não entendo a capacitação das pessoas para fazerem o desgoverno do negócio andar. A gente vem aqui para fora, botei dinheiro, a Associação empenhou capital, nós mudamos a história do Mangalarga Marchador com certeza. Você olha por aí à volta e vê o interesse enorme das pessoas. Aí vem essa história do mormo, que o Brasil e mesmo os criadores estão levando de uma forma constrangedora, a meu ver.

Por que acha isso?
O criador não quer dizer que sua criação tem mormo, porque, para ele, aquilo ali é como se ele tivesse Aids. Isso irá inviabilizar seu negócio. O governo, por sua vez, não sabe nem o que é mormo. Eles estão matando cavalo no Brasil sem ter nenhuma certeza de que o resultado é 100% positivo. E aí eles próprios, os técnicos do IMA (Instituto do Meio Ambiente), falando que este exame tem 80% de comprovação. Com isso, o criador fica com muito medo de tomar uma decisão de atravessar seu cavalo para uma exposição, por exemplo. Porque, de fato, ele pode ser morto. Numa dessas, o governo pode chegar lá e matar o animal, alegando que ele tem mormo, sendo que ele não tem. Não há no Brasil ainda um consenso sobre o que fazer. Só chegaram à conclusão de que é melhor matar. Essa é a saída “fácil” para eles.

Qual sua sugestão para enfrentar isso?
Temos que criar as áreas endêmicas. Caso o nordeste seja uma área endêmica, como dizem, então faz-se igual foi feito no Mato Grosso com a anemia infecciosa, pois hoje eles conseguiram um exame que é 100% comprovado contra esta doença. Isola e mata o animal que tiver a anemia infecciosa. Fizeram isso com o Mato Grosso, deveriam fazer também com o nordeste. E os nossos políticos do nordeste aceitariam isso? E não é só o político, tem a indenização desses animais. Haveria uma possibilidade de indenizar aqueles pobres coitados que têm o cavalo e precisam da lida deles?
O governo está sendo negligente com esse problema?
O governo não está pensando em tudo isso e nós estamos sendo muito prejudicados. O governo só entende uma história: quando deixam de pagar o imposto, que é a mão-de-obra que empregamos, os insumos que usamos, que estão agregados nos impostos. Na hora que eles sentirem no bolso que não está mais vindo uma grana desta fonte, aí param para olhar. Igual com o gado, quando teve a epidemia da febre aftosa. Mataram tudo, acabou o negócio e estão vendendo gado. Agora, imagina fechar o mercado do gado! É o que vai acontecer com o cavalo.

Falta um pouco mais de articulação do próprio segmento para tratar estas questões ou o governo não dá espaço?
Acho que nós temos os dois problemas. Como falei no início, as pessoas que acham que têm mormo, não querem dizer, até porque não vão vender. Então, pelo lado dos criadores há esse temor. E eles têm seus motivos, porque se o governo estivesse falando a verdade, ou seja, se o exame realmente fosse comprovatório, aí tudo bem. Mas os próprios veterinários, ao analisarem alguns animais dizem que não tem nada que indique que eles estão com mormo.

O presidente da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) chegou a afirmar que a única saída seria matar os animais, como fez a Austrália no século passado.
Acho que a cabeça da CBH está focada em cavalo de Salto e Adestramento. Até concordo, pois é uma coisa mais usual dentro da CBH. Mas ele não sabe o número que ocorre entre o Crioulo, Vaquejada, Mangalarga Marchador. O Brasil não tem conhecimento do que o mercado do cavalo significa. O Mangalarga Marchador tem 600 mil cabeças; Quarto de Milha tem milhões, Vaquejada, então, nem se fala. Quer dizer, como vamos dar conta disso? Não é um trabalho simples. Acredito que deve-se ter um trabalho de barreira sanitária e, principalmente, um exame correto, que detecte com exatidão se o animal tem ou não esta doença.

O segmento do cavalo está tendo muito prejuízo com isso?
O Brasil tem um mercado gigantesco que também está tendo prejuízos. Isso aqui é futuro, uma outra história que estamos jogando fora. Agora, o governo precisa entender que essas exposições geram empregos, renda e se essa situação se perdurar, muito criadores vão desistir ou diminuir suas tropas. Eu mesmo já tenho me planejado para isso. Acho que nós, criadores e governo, estamos levando isso muito em banho-maria e a coisa tem que aflorar, não pode ficar desse jeito.

Você também acompanhou aquele episódio do Monty Roberts na Gameleira. O que achou daquilo?
Você colocou o dedo na ferida. Para mim, aquilo foi nojento, repudio esse ser humano, não gosto nem de falar no nome dele mais, pois eu o tinha como um exemplo. E o pior é que ele sabe o que tem de fazer, isso que é o pior. Já é um adulto, um senhor, não precisava vir ao Brasil fazer uma coisa daquela, provocativa daquele jeito. Botou uns peões cabeçudos, achando que tem de ser daquele jeito. É como se fosse o seguinte: “Olha, para matar, a gente atira, mata. Agora vou te ensinar como não mata, mas também vou mostrar como mata, entendeu?”. Em tese, nunca entendi uma idiotice dessa grandeza. (Entrevista publicada na edição 76 da Revista Horse)

Revista Horse
Marcelo Batista

Marcelo Batista

Marcelo Batista é criador e proprietário da Agro Maripá

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