13-Jul-2021 11:14 - Atualizado em 13/07/2021 11:25
Veterinária

Nós matamos Cavalos? Infelizmente, sim!

99% dos quadros de cólica ocorrem por erros de manejo e cuidados vão desde o tratador, passando pelo proprietário, chegando aos veterinários

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Estudos realizados nos Estados Unidos demonstram que a maior causa de mortalidade por enfermidade em cavalos é a síndrome cólica. Até 28% de casos de enfermidades em fazendas nos EUA são de cólicas, sendo que a mortalidade de cavalos por essa enfermidade perde apenas para a velhice. Certamente esses dados podem ser extrapolados para a grande maioria dos cavalos do mundo, pois o manejo geral é semelhante.

A cólica não é um sintoma normal e pode ser evitada,
A cólica não é um sintoma normal e pode ser evitada
Segundo a Universidade de Liverpool (RU), a cólica é um termo usado para descrever um sintoma de dor abdominal, que em cavalos geralmente é causada por problemas no trato gastrointestinal. Existem mais de 70 tipos diferentes de problemas intestinais que causam sintomas de cólica, que variam de leve a grave (com risco de vida).
Mas por que matamos cavalos? Porque 99% dos quadros de cólicas ocorrem por erros de manejo. E quem maneja os cavalos no dia a dia? Nós, os seres humanos que amamos e admiramos essa nobre espécie. Consequentemente, basta acertar e corrigir o manejo na rotina diária dos cavalos que praticamente eliminamos os riscos de cólicas.
Mas então por que ainda ocorrem tantos quadros de cólicas e cavalos morrem por causa disso? Em primeiro lugar, porque, infelizmente, o ser humano, no mundo todo, acredita que cólica em cavalo é normal. Mas estado de saúde é normal; doença é um mal que afeta um ser vivo e que deve ser evitado a todo custo, especialmente por aqueles que cuidam e devem zelar pela saúde dos animais; e aqui esse cuidado vai desde o tratador, passando pelo proprietário, chegando aos colegas médicos veterinários.
O papel do ser humano deve ser manter a saúde e garantir o bem-estar dos animais, conhecendo quais são suas necessidades e ofertando aos cavalos o que eles necessitam, de forma a propiciar-lhes uma boa vida com ótimo desempenho.
colica,
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Mas por que ocorre a síndrome cólica no equino? Qual o manejo correto que deve ser utilizado para se evitar esse transtorno que custa a vida de tantos cavalos todos os dias?
A síndrome cólica ocorre por conta de características peculiares que os cavalos adquiriram ao longo do processo evolutivo. São aspectos que lhe permitiram sobreviver de forma eficiente nos últimos 60 milhões de anos. Claro que ocorreram mudanças desde o Hyracotherium (período Eoceno) até o Equus atual, há cerca de um milhão de anos.
Entretanto, quatro características, às quais denomino preceitos, permanecem imutáveis em todo esse processo evolutivo: o cavalo é uma presa, sendo assim toda sua atitude é como um animal de fuga, estressando-se quando submetido a situação que pode colocá-lo em perigo (até mesmo um tratador ruim); por ser presa, para melhor sobrevivência, é um ser gregário, vivendo em bandos (o isolamento torna o animal irritado e estressado); evoluiu em liberdade, tendo necessidade de caminhar por algumas horas por dia (estima-se que um cavalo em liberdade, dependendo da qualidade da pastagem, caminhe de 2 a 11 km por dia); e, por fim, é um animal herbívoro, cujo aparelho digestório evoluiu em simbiose com microrganismos capazes de quebrar, digerir e disponibilizar nutrientes provenientes de vegetais de fibra longa (capim não triturado, por exemplo).
Os três primeiros preceitos citados (presa, liberdade e gregário), quando não satisfeitos, levam o animal a um estado de estresse intenso, que pode causar desequilíbrio na microflora digestiva, comprometendo o aproveitamento dos alimentos e favorecendo os quadros de cólica. Além disso, a flora benéfica, quando plenamente atuante, inibe a proliferação de microrganismos patogênicos, que causam doenças e agravam os problemas de cólicas; quando a flora benéfica é afetada, esses microrganismos patogênicos proliferam livremente levando ao estado de doença.
Com relação ao aparelho digestório do cavalo (figura 1), este possui algumas características particulares que tornam a alimentação baseada em forrageira de qualidade mais eficiente, mas que, por outro lado, quando o animal é submetido a um manejo errôneo, com capim de péssima qualidade e dieta baseada em grãos, favorecem os quadros de cólica.

Boca: A digestão do cavalo começa na boca, através de uma mastigação eficiente. A saúde dos dentes do cavalo é fundamental para garantir uma digestão mais eficaz do alimento e a passagem deste por todo o aparelho digestório sem problemas.

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Período de liberdade e pastagens natural são fundamentais
O dente do cavalo é do tipo ipsodonte, isto é, ele vai eclodindo por toda a vida, e quando o animal possui uma alimentação baseada em capim não triturado, especialmente através da pastagem, ocorre o desgaste natural e desejável dos dentes. Quando submetemos o animal a uma alimentação baseada em feno, capim triturado e grãos de cereais (ração e similares), não ocorre desgaste dos dentes, levando a problemas graves na dentição, que comprometem a mastigação, a salivação (que é estimulada pela mastigação) e, consequentemente, todo o processo digestório.
Alimentos mal triturados pela dentição deficitária e pouco umedecidos pela salivação deficiente, favorecem quadros de síndrome cólica.

Estômago: A ligação da boca com o estômago, é feita pelo esôfago; no final deste tubo, há um esfíncter denominado cárdia, funcional na espécie equina, que impede que o alimento que entra no estômago, retorne à boca do cavalo, isto é, o cavalo não pode vomitar. Sendo assim, todo alimento que segue para o estômago do equino, só tem um caminho a seguir, para as porções finais.
O estômago do cavalo é uma porção do aparelho digestório de pequena capacidade, apenas 9-12 litros, dependendo do porte do animal, que comporta no máximo 0,4-0,5kg de ração para cada 100kg de peso do cavalo, por refeição (isto é, para um cavalo de 400 kg, máximo de 2,0 kg por refeição – sendo ideal no máximo 1,5kg). Se ofertar mais do que essa quantidade, favorecem os quadros de cólica.
Nesta porção do aparelho digestório ocorre essencialmente a digestão enzimática, apesar de 10% da flora digestiva estar presente no estômago e intestino delgado.

Intestino Delgado: É uma porção do aparelho digestório muito longa, 18-22 metros de comprimento, sendo um tubo fino, enovelado na cavidade abdominal, onde ocorre principalmente a digestão enzimática e, em menor quantidade, uma digestão microbiana. Esses microrganismos aqui presentes, quando em equilíbrio, garantem que a flora patogênica não se prolifere.
Como essa porção é longa e estreita, a passagem do alimento ocorre de forma tranquila se o alimento foi bem triturado por uma mastigação correta, está umedecido por uma salivação eficiente e se o alimento não é composto de fibras grosseiras, isto é, capim velho, feno fibroso, etc.
Alimentos mal triturados e com fibras de má qualidade, podem obstruir essa porção do aparelho digestório levando a quadros de cólica por impactação e mesmo favorecer casos de torção intestinal.
Se ocorrerem quadros de desconforto abdominal que levem à morte da flora intestinal, ocorrerá a proliferação dos microrganismos maléficos com quadros de colites.

Intestino Grosso: Composto pelo ceco, cólon e reto, o intestino grosso é a câmara de fermentação do cavalo, onde ocorre a digestão essencialmente microbiana, lenta e gradual, onde o alimento pode ficar por 24-48 horas sendo digerido.
Esta porção é caracterizada por grandes porções (ceco e cólon, com capacidade de até 70 e 130 litros, respectivamente) e por flexuras, que são espessamentos da parede intestinal em porções mais estreitas que impedem uma passagem rápida do alimento para que o processo digestório seja mais eficiente. Essas flexuras, por outro lado, predispõem o animal a quadros de cólicas se o alimento for de má qualidade, com fibras de difícil digestão.
Como nesta porção a digestão é dependente da flora intestinal, situações que levem à mortalidade desta flora, como antibioticoterapia prolongada, mudanças bruscas de alimento e estresse podem comprometer o processo digestório levando à síndrome cólica.

Principais Causas de Cólicas em Equinos

Na Figura 2 ressaltamos as principais causas de cólicas dos equinos. Se observarmos atentamente, todas elas podem ser evitadas corrigindo-se o manejo diário do cavalo.
As cólicas gástricas podem ocorrer por erros no fornecimento de água ou de ração concentrada. O cavalo é extremamente sensível às alterações no padrão alimentar, inclusive no que diz respeito à água, pois uma água muito fria pode causar uma vasoconstricção dos vasos do estômago levando a um quadro de cólica. O mesmo pode ocorrer se o animal tomar a água muito rapidamente, principalmente após esforço físico, ou se houver inconstância no fornecimento de água ou mesmo restrição ao acesso à água. Cavalos que têm o hábito de comer a ração muito rapidamente, trituram pouco o alimento e, principalmente, produzem quantidade menor de saliva que seria utilizada no umedecimento do bolo alimentar facilitando o processo digestivo e o trânsito intestinal. Alimentos altamente fermentescíveis provocam produção excessiva de gases, levando a quadros de cólicas gasosas com dilatação gástrica.

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As cólicas intestinais podem ser causadas pela ingestão de diversos tipos de alimentos de baixa digestibilidade, por excesso de lignina, que têm seu processo digestivo mais lento. Se a quantidade for muito elevada, pode obstruir o lúmen intestinal causando uma estase, levando a quadros de cólicas. Outros alimentos, como alfafa fresca, por suas características, quando em fornecimento ad libitum ao animal, podem induzir à formação de gases intestinais, levando a quadros de cólicas. E, por fim, situações de estresse ou dor intensa, podem provocar a estase intestinal, além da morte da microflora digestiva (dismicrobismo) levando a quadros de cólicas.
Podem ainda ocorrer cólicas por obstrução intestinal, por excesso de forragem ligninosa (fibra grosseira, não digerível), tornando-se imprescindível o fornecimento de forragem de boa qualidade. A alimentação com este tipo de forragem é comum em propriedades que utilizam como alimento forrageiro capineira de capim elefante, e que utilizam uma área de reserva para o período de estiagem; esta reserva será certamente de má qualidade, especialmente pelo elevado porte e teor de fibra indigestível. Além disso, a Ingestão de areia, terra, madeira, borracha, produtos não naturais para a espécie animal, constitui um vício comportamental denominado ‘pica’. Isso pode trazer sérios prejuízos para a saúde do animal. A ingestão de areia e terra pode estar associada a verminose ou desmineralização do animal, ou ainda acesso a água barrenta ou animais que comem ração diretamente no chão, com piso de areia. (Artigo publicado na edição 98 da Revista Horse)

Revista Horse
André Cintra

André Cintra

é Médico veterinário, professor da Faculdade de Jaguariúna (FAJ) e especialista em nutrição equina
e-mail: [email protected]

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